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874 Words
CAPÍTULO 9 — JUJU NARRANDO Acordei devagar, ainda meio perdida, sentindo o corpo pesado e a cabeça confusa. Por alguns segundos, não consegui entender onde estava. Então virei o rosto e encontrei Tubarão dormindo profundamente ao meu lado. A lembrança da noite anterior voltou de uma vez, e meu coração disparou. Eu realmente tinha feito aquilo. Depois de dois anos sem deixar nenhum homem se aproximar de mim, depois de tanto tempo vivendo presa às lembranças de Caio, eu tinha me permitido viver uma noite completamente diferente. Não queria pensar demais naquele momento. Talvez, se eu começasse a procurar explicações, acabasse encontrando culpa onde não deveria existir. Olhei para ele em silêncio. Dormindo, parecia até menos assustador. Durante a noite, eu tinha percebido o quanto ele era imponente, mas naquele momento havia alguma tranquilidade em seu rosto. Peguei meu vestido e me vesti com cuidado, tentando não fazer barulho. Procurei minha rasteirinha no chão, ajeitei o cabelo com as mãos e respirei fundo. Eu precisava ir embora antes que ele acordasse. Não porque tivesse me arrependido. Muito pelo contrário. Eu só não sabia o que fazer depois de uma noite como aquela. Não conhecia aquele homem. Não sabia de onde ele vinha, o que fazia ou sequer se aquele encontro significaria alguma coisa para ele. Meu olhar caiu sobre o celular dele, que vibrava silenciosamente em algum lugar próximo. A tela acendeu por alguns segundos com uma nova notificação. Não tentei descobrir quem era. Aquilo não era da minha conta. Eu apenas olhei mais uma vez para Tubarão e senti uma vontade estranha de guardar aquele momento comigo. Inclinei-me devagar e deixei um beijo carinhoso na bochecha dele. — Obrigada — sussurrei. Ele não se mexeu. Peguei minha bolsa, abri a porta do carro com cuidado e saí. Fechei sem fazer barulho e fiquei alguns segundos parada do lado de fora, respirando o ar fresco da madrugada. Olhei para o céu e percebi que estava quase amanhecendo. A noite tinha passado muito mais rápido do que eu imaginava. Caminhei alguns metros antes de pegar o celular e quase levei um susto com a quantidade de notificações. Havia mensagens e chamadas perdidas de Mah e Lili. — Meu Deus… Abri a conversa com Mah primeiro. Ela tinha mandado uma mensagem dizendo que estava indo sozinha para casa. Olhei o horário. Duas da manhã. Franzi a testa. — Caramba… Eu tinha perdido completamente a noção do tempo. Só então percebi que já eram quatro da manhã. Abri a conversa com Lili e havia ainda mais mensagens. Lili: Juju, onde você está? Lili: Você está bem? Lili: Me responde, por favor. Lili: Mah está comigo. Mordi o lábio, sentindo uma pontada de culpa. Eu precisava voltar imediatamente. Comecei a caminhar de volta para casa, mantendo o celular na mão. Ainda sentia o corpo cansado e a cabeça cheia de pensamentos. O estranho era que, apesar de tudo que tinha acontecido, eu não estava arrependida. Pela primeira vez em muito tempo, não sentia aquela culpa por querer viver. Talvez eu tivesse mesmo conseguido dar um pequeno passo para frente. Talvez aquela noite tivesse sido apenas uma noite. Um momento. Uma despedida do passado. Eu não precisava saber mais nada sobre ele. Eu só sabia que se chamava Tubarão. E talvez fosse melhor continuar assim. Cheguei em casa tentando fazer o mínimo de barulho possível. Abri a porta e entrei na sala escura. Tirei as sandálias e deixei a bolsa sobre o sofá. Olhei para o corredor, esperando encontrar alguma das meninas acordada, mas tudo estava silencioso. Fui direto para o meu quarto. Tomei um banho demorado, tentando organizar a cabeça enquanto a água caía sobre meu corpo. Depois coloquei um pijama confortável e deitei. Fechei os olhos. Não consegui dormir. Virei para um lado. Depois para o outro. Nada. Minha cabeça continuava voltando para ele. Para aquele sorriso. Para o jeito como ele me olhava. Para a sensação de ter beijado um homem novamente depois de tanto tempo. E, principalmente, para o fato de que eu não sabia absolutamente nada sobre ele. Tubarão. Era só isso que eu sabia. Não sabia o sobrenome. Não sabia onde morava. Não sabia o que fazia. Não sabia se tinha família. Não sabia se tinha namorada. Não sabia nem se aquele nome era verdadeiro. E, ainda assim, alguma coisa me fazia sorrir quando eu lembrava dele. Peguei o celular e olhei novamente para as mensagens. Nenhuma nova. Coloquei o aparelho sobre o criado-mudo e suspirei. Talvez amanhã eu acordasse e aquilo tudo parecesse apenas uma loucura. Uma história absurda para contar algum dia. Ou talvez nem contasse. Afinal, aquele homem era um desconhecido. E eu não pretendia procurá-lo. Não precisava. Eu tinha acabado de chegar à Rocinha para começar uma vida nova. Tinha uma empresa para cuidar. Duas amigas para proteger. Uma casa para organizar. Uma nova unidade da Doce Maju para colocar de pé. Eu tinha coisas demais para fazer. Não tinha espaço para um homem desconhecido na minha vida. Principalmente depois de tudo que aconteceu com Caio. Fechei os olhos novamente. Mas, antes de conseguir dormir, uma pergunta atravessou minha cabeça: Quem, afinal, era Tubarão? Eu não fazia ideia. E talvez fosse justamente isso que tornasse aquela noite tão perigosa.
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