CAPÍTULO 19 — TUBARÃO NARRANDO
Eu não consegui evitar um sorriso quando vi a cara de Juju depois que revelei quem eu era. A mulher simplesmente tinha parado. Ficou me encarando como se eu tivesse acabado de dizer que era dono da cidade inteira. Os olhos dela estavam arregalados, a boca ligeiramente aberta e, por alguns segundos, parecia que o cérebro tinha desligado.
Eu conhecia aquela expressão.
Era a mesma cara de quem estava tentando juntar todas as peças.
A morena que tinha conhecido no pagode tinha acabado de descobrir que o cara com quem tinha passado a madrugada era justamente o homem que comandava o lugar onde ela agora morava.
Jorge continuava conversando com Lili como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Mah ainda parecia curiosa com a minha resposta. Só Juju estava em completo estado de choque.
Ela voltou devagar para o sofá e se sentou.
Ficou quieta.
Pensativa.
Eu me sentei novamente, mantendo certa distância, mas não conseguia deixar de observá-la.
Ela mexia no cabelo, depois ajeitava a saia, depois olhava para o próprio copo. Claramente estava tentando processar tudo.
Eu quase ri.
— Tá tudo bem? — perguntei.
Ela levantou os olhos.
— Está.
Mentira.
Aquela mulher estava tão nervosa que parecia que ia sair fumaça da cabeça.
— Tem certeza?
— Tenho.
Mah olhou para nós dois.
— Gente, eu vou descer comprar uma sobremesa. Não consigo jantar sem doce.
— Tu acabou de comer metade do sushi — Jorge comentou.
— E daí?
— Nada.
— Então pronto.
Mah pegou a bolsa.
— Alguém quer alguma coisa?
Lili negou com a cabeça.
— Só escolhe alguma coisa boa.
— Pode deixar.
Jorge se levantou.
— Quer que eu vá?
— Não. Você fica.
Lili imediatamente segurou o braço dele.
— Aliás, vem comigo conhecer o resto da casa.
Jorge sorriu.
— Agora?
— Agora.
— Fechou.
Os dois começaram a sair.
Mah passou por mim e apontou o dedo.
— Não deixa a Juju sozinha.
Eu ergui uma sobrancelha.
— Eu?
— É.
— Por quê?
— Porque você é visita.
— Isso não faz sentido.
— Não interessa.
Ela saiu.
Olhei para Jorge, que estava rindo.
— Essas mulheres são malucas.
— Tu ainda não viu nada.
Ele saiu com Lili.
A porta fechou.
Silêncio.
Finalmente.
Fiquei sozinho com Juju.
Ela estava sentada na outra ponta do sofá, inquieta.
Olhou para mim.
Desviou.
Olhou novamente.
Desviou de novo.
Eu quase ri.
— Vai arrancar o cabelo desse jeito.
Ela franziu a testa.
— Eu estou normal.
— Tá nada.
— Estou sim.
— Tu mexeu nesse cabelo umas vinte vezes.
Ela olhou para as próprias mãos.
— Não mexi.
— Mexeu.
Ela soltou um suspiro.
Depois se levantou.
Começou a andar pela sala sem destino.
Eu acompanhei com os olhos.
Até que ela parou perto de mim.
— Posso perguntar uma coisa?
— Pode.
Ela olhou para os lados, como se tivesse medo de alguém aparecer.
Então se aproximou e falou bem baixinho:
— Por que você não me disse isso ontem?
Eu ergui uma sobrancelha.
— O quê?
— Que você era… você.
Quase ri.
— Não tive tempo.
Ela me encarou.
— Não teve tempo?
— Não.
— Passamos a madrugada juntos e você não teve cinco segundos para falar?
— Tu também não perguntou.
Ela abriu a boca.
Fechou.
Abriu de novo.
— Eu…
Não conseguiu terminar.
Eu sorri.
— E outra coisa…
Ela me olhou desconfiada.
— O quê?
Passei a língua rapidamente pelos lábios, segurando o sorriso.
— Tu tá ainda mais gata desse jeito.
Ela ficou completamente sem graça.
— O quê?
— Assim.
— Assim como?
Olhei para ela de cima a baixo, sem esconder a provocação.
— Com essa sainha. Esse cropped. Esse piercing.
Ela imediatamente levou a mão até a barriga.
— Você viu?
— Vi.
— Eu nem lembrava que estava aparecendo.
— Eu lembro.
Ela ficou vermelha.
— Para de olhar.
— Tô tentando.
— Então tenta mais.
— Não tá fácil.
Ela mordeu o próprio lábio para segurar uma risada.
Falhou.
Começou a rir baixinho.
Eu também ri.
— Tá vendo?
Ela balançou a cabeça.
— Você é muito convencido.
— E tu tá rindo.
— Porque você é engraçado.
— Achei que eu era assustador.
Ela ficou séria imediatamente.
— Você é.
— Então por que tá rindo?
Ela ficou alguns segundos sem resposta.
— Não sei.
— Eu sei.
— Sabe nada.
— Sabe sim.
Ela cruzou os braços.
— E o que você acha que sabe?
Inclinei um pouco o corpo na direção dela.
— Que tu ainda lembra de ontem.
O sorriso dela desapareceu aos poucos.
Ela ficou me olhando.
— Lembro.
A resposta saiu tão baixinha que quase não ouvi.
Meu sorriso também diminuiu.
Por alguns segundos, o clima mudou completamente.
Não era mais a brincadeira.
Era aquela tensão que os dois conheciam muito bem.
Aquela mesma tensão que tinha começado no pagode.
Juju desviou o olhar.
— Isso é muito estranho.
— O quê?
— Eu conhecer você daquele jeito e descobrir depois quem você é.
— Também achei.
Ela respirou fundo.
— Eu não sabia.
— Eu sei.
— Se eu soubesse…
— Tu não teria ido comigo?
Ela ficou em silêncio.
Depois olhou para mim.
— Talvez.
Eu ri baixo.
— Talvez?
Ela tentou manter a expressão séria, mas o canto da boca entregou um sorriso.
— Não sei.
— Eu sei.
— Para de dizer que sabe.
— Tá bom.
Ficamos em silêncio novamente.
Até que ouvimos passos no corredor.
Juju rapidamente voltou para o outro lado do sofá.
Eu me recostei como se nada tivesse acontecido.
Jorge apareceu primeiro, seguido por Lili.
— E aí? — ele perguntou. — Tudo tranquilo?
Olhei para Juju.
Ela estava séria.
Olhei para Jorge.
— Tudo tranquilo.
Juju assentiu rapidamente.
— Tudo.
Mas eu já sabia.
Depois daquela conversa, nada entre nós seria tão simples novamente.