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994 Words
CAPÍTULO 19 — TUBARÃO NARRANDO Eu não consegui evitar um sorriso quando vi a cara de Juju depois que revelei quem eu era. A mulher simplesmente tinha parado. Ficou me encarando como se eu tivesse acabado de dizer que era dono da cidade inteira. Os olhos dela estavam arregalados, a boca ligeiramente aberta e, por alguns segundos, parecia que o cérebro tinha desligado. Eu conhecia aquela expressão. Era a mesma cara de quem estava tentando juntar todas as peças. A morena que tinha conhecido no pagode tinha acabado de descobrir que o cara com quem tinha passado a madrugada era justamente o homem que comandava o lugar onde ela agora morava. Jorge continuava conversando com Lili como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Mah ainda parecia curiosa com a minha resposta. Só Juju estava em completo estado de choque. Ela voltou devagar para o sofá e se sentou. Ficou quieta. Pensativa. Eu me sentei novamente, mantendo certa distância, mas não conseguia deixar de observá-la. Ela mexia no cabelo, depois ajeitava a saia, depois olhava para o próprio copo. Claramente estava tentando processar tudo. Eu quase ri. — Tá tudo bem? — perguntei. Ela levantou os olhos. — Está. Mentira. Aquela mulher estava tão nervosa que parecia que ia sair fumaça da cabeça. — Tem certeza? — Tenho. Mah olhou para nós dois. — Gente, eu vou descer comprar uma sobremesa. Não consigo jantar sem doce. — Tu acabou de comer metade do sushi — Jorge comentou. — E daí? — Nada. — Então pronto. Mah pegou a bolsa. — Alguém quer alguma coisa? Lili negou com a cabeça. — Só escolhe alguma coisa boa. — Pode deixar. Jorge se levantou. — Quer que eu vá? — Não. Você fica. Lili imediatamente segurou o braço dele. — Aliás, vem comigo conhecer o resto da casa. Jorge sorriu. — Agora? — Agora. — Fechou. Os dois começaram a sair. Mah passou por mim e apontou o dedo. — Não deixa a Juju sozinha. Eu ergui uma sobrancelha. — Eu? — É. — Por quê? — Porque você é visita. — Isso não faz sentido. — Não interessa. Ela saiu. Olhei para Jorge, que estava rindo. — Essas mulheres são malucas. — Tu ainda não viu nada. Ele saiu com Lili. A porta fechou. Silêncio. Finalmente. Fiquei sozinho com Juju. Ela estava sentada na outra ponta do sofá, inquieta. Olhou para mim. Desviou. Olhou novamente. Desviou de novo. Eu quase ri. — Vai arrancar o cabelo desse jeito. Ela franziu a testa. — Eu estou normal. — Tá nada. — Estou sim. — Tu mexeu nesse cabelo umas vinte vezes. Ela olhou para as próprias mãos. — Não mexi. — Mexeu. Ela soltou um suspiro. Depois se levantou. Começou a andar pela sala sem destino. Eu acompanhei com os olhos. Até que ela parou perto de mim. — Posso perguntar uma coisa? — Pode. Ela olhou para os lados, como se tivesse medo de alguém aparecer. Então se aproximou e falou bem baixinho: — Por que você não me disse isso ontem? Eu ergui uma sobrancelha. — O quê? — Que você era… você. Quase ri. — Não tive tempo. Ela me encarou. — Não teve tempo? — Não. — Passamos a madrugada juntos e você não teve cinco segundos para falar? — Tu também não perguntou. Ela abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. — Eu… Não conseguiu terminar. Eu sorri. — E outra coisa… Ela me olhou desconfiada. — O quê? Passei a língua rapidamente pelos lábios, segurando o sorriso. — Tu tá ainda mais gata desse jeito. Ela ficou completamente sem graça. — O quê? — Assim. — Assim como? Olhei para ela de cima a baixo, sem esconder a provocação. — Com essa sainha. Esse cropped. Esse piercing. Ela imediatamente levou a mão até a barriga. — Você viu? — Vi. — Eu nem lembrava que estava aparecendo. — Eu lembro. Ela ficou vermelha. — Para de olhar. — Tô tentando. — Então tenta mais. — Não tá fácil. Ela mordeu o próprio lábio para segurar uma risada. Falhou. Começou a rir baixinho. Eu também ri. — Tá vendo? Ela balançou a cabeça. — Você é muito convencido. — E tu tá rindo. — Porque você é engraçado. — Achei que eu era assustador. Ela ficou séria imediatamente. — Você é. — Então por que tá rindo? Ela ficou alguns segundos sem resposta. — Não sei. — Eu sei. — Sabe nada. — Sabe sim. Ela cruzou os braços. — E o que você acha que sabe? Inclinei um pouco o corpo na direção dela. — Que tu ainda lembra de ontem. O sorriso dela desapareceu aos poucos. Ela ficou me olhando. — Lembro. A resposta saiu tão baixinha que quase não ouvi. Meu sorriso também diminuiu. Por alguns segundos, o clima mudou completamente. Não era mais a brincadeira. Era aquela tensão que os dois conheciam muito bem. Aquela mesma tensão que tinha começado no pagode. Juju desviou o olhar. — Isso é muito estranho. — O quê? — Eu conhecer você daquele jeito e descobrir depois quem você é. — Também achei. Ela respirou fundo. — Eu não sabia. — Eu sei. — Se eu soubesse… — Tu não teria ido comigo? Ela ficou em silêncio. Depois olhou para mim. — Talvez. Eu ri baixo. — Talvez? Ela tentou manter a expressão séria, mas o canto da boca entregou um sorriso. — Não sei. — Eu sei. — Para de dizer que sabe. — Tá bom. Ficamos em silêncio novamente. Até que ouvimos passos no corredor. Juju rapidamente voltou para o outro lado do sofá. Eu me recostei como se nada tivesse acontecido. Jorge apareceu primeiro, seguido por Lili. — E aí? — ele perguntou. — Tudo tranquilo? Olhei para Juju. Ela estava séria. Olhei para Jorge. — Tudo tranquilo. Juju assentiu rapidamente. — Tudo. Mas eu já sabia. Depois daquela conversa, nada entre nós seria tão simples novamente.
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