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711 Words
CAPÍTULO 18 — JUJU NARRANDO Eu estava começando a achar que ficar sentada ao lado de Tubarão tinha sido uma péssima ideia. Meu coração parecia ter esquecido como funcionava normalmente. Bastava ele se mexer ao meu lado, cruzar os braços ou falar alguma coisa com aquela voz grossa que eu imediatamente lembrava da madrugada. E o pior era que eu precisava fingir que não o conhecia. Na minha frente estavam Mah e Lili, e eu não fazia ideia de como conseguiria continuar naquela sala por muito tempo sem deixar escapar alguma coisa. Então, quando percebi que meu copo estava vazio, enxerguei aquilo como uma oportunidade perfeita para fugir por alguns segundos. — Vou pegar água. Levantei rapidamente. — Quer que eu vá com você? — Mah perguntou. — Não precisa. Fui em direção à cozinha tentando parecer tranquila, mas sentia os olhos de Tubarão acompanhando meus movimentos. Quando cheguei perto da bancada, respirei fundo. Eu precisava me recompor. Só precisava pegar a água e voltar. Atrás de mim, ouvi o sofá se mexer. Tubarão tinha levantado. Meu coração disparou. Só que, antes que ele pudesse dar qualquer passo, Mah chamou: — Ei, Tubarão. Parei na cozinha, segurando o copo. — Hm? — ele respondeu. — Posso te fazer uma pergunta? Ouvi a voz dele. — Pode. Mah riu. — Primeiro: qual é seu nome de verdade? Se você puder falar, claro. Fiquei imóvel. Eu já sabia que ele era Tubarão. Mas também não sabia seu nome verdadeiro. Naquela madrugada, eu não tinha perguntado praticamente nada. Ouvi uma risada baixa. — Posso falar, ué. Mah pareceu surpresa. — Então fala. — Heitor. Meu coração bateu tão forte que quase derrubei o copo. Heitor. Então aquele era o nome dele. Tubarão era apenas o apelido. Heitor. Segurei a bancada por um instante, tentando disfarçar o choque. — Heitor… — Mah repetiu. — Bonito. — Valeu. — Agora outra pergunta. — Manda. — O que você faz da vida? Ele soltou uma risada. — Trabalho. Mah gargalhou. — Isso eu imaginei, né? — É uma ocupação meio complicada. — Igual à do Jorge? Houve alguns segundos de silêncio. — Digamos que seja uma ocupação perigosa. Minha mão apertou o copo. Lili entrou na conversa. — Espera. Perigosa como? Tubarão respondeu com uma tranquilidade que me deixou ainda mais nervosa. — Parecida com a do Jorge. Lili pareceu entender alguma coisa. — Você também é subcomandante do morro? Meu corpo inteiro gelou. Fiquei parada na cozinha. Silêncio. Então ouvi a resposta dele. — Não. Lili perguntou: — Não? — Eu sou o dono do morro. O copo quase escapou da minha mão. Virei lentamente. — Como assim? As três palavras saíram da minha boca antes que eu conseguisse pensar. Voltei para a sala e parei no meio do caminho. Tubarão estava de pé. Ou melhor… Heitor estava de pé. E agora eu estava olhando para ele de uma maneira completamente diferente. Ele me encarou. Jorge parecia achar a situação perfeitamente normal. Lili também. Mah apenas levantou as sobrancelhas, como se estivesse tentando entender melhor. Eu, por outro lado, sentia que tinha acabado de descobrir que o homem com quem eu tinha passado a madrugada era alguém completamente diferente do que eu imaginava. — Você é… o dono do morro? Minha voz saiu baixa. Ele me encarou por alguns segundos. — Sou. Eu não consegui responder. Tubarão. O homem que eu tinha conhecido no pagode. O homem que tinha me feito esquecer de tudo por algumas horas. O homem que eu achava que era apenas um cara misterioso e extremamente atraente. Era o homem que comandava a Rocinha. Meu coração disparou. E, pela primeira vez desde que aquela porta tinha se aberto, eu entendi o tamanho da loucura que tinha sido aquela madrugada. Eu tinha entrado no carro de um desconhecido. Tinha passado horas com ele. Tinha ido embora sem saber quem ele era. E agora estava sentada na mesma sala que ele, na casa onde eu morava, descobrindo que aquele desconhecido era justamente o homem mais poderoso e temido daquele lugar. Mah me chamou: — Juju? Nem consegui responder. Eu só continuava olhando para ele. E Tubarão… Heitor… continuava olhando para mim como se estivesse esperando para descobrir o que eu faria depois daquela revelação.
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