CAPÍTULO 17 — TUBARÃO NARRANDO
Eu estava sentado naquele sofá tentando prestar atenção na conversa, mas estava ficando cada vez mais difícil. Juju tinha sentado um pouco afastada de mim, conversando com Mah e Lili como se aquela fosse a primeira vez que me via na vida. E, se eu não soubesse o que tinha acontecido entre nós algumas horas antes, talvez até acreditasse naquela atuação.
O problema era que eu sabia.
E agora eu conseguia reparar em cada detalhe dela.
Aquela saia curta, por exemplo.
Ela parecia ter escolhido aquela roupa sem imaginar o efeito que causaria em mim. As pernas ficavam à mostra e, toda vez que ela mudava de posição, meus olhos eram atraídos para ela. Eu desviava, tentava prestar atenção em Jorge, olhava para o celular, pegava minha bebida.
Dois segundos depois, estava olhando novamente.
O cropped preto também não ajudava. O decote chamava atenção e eu precisava me controlar para não ficar encarando. Na madrugada, dentro daquele carro, eu tinha estado tão envolvido com ela que não tinha reparado em todos aqueles detalhes. Agora, sentado naquela sala, parecia que eu estava descobrindo uma mulher que, ao mesmo tempo, eu já conhecia de uma maneira que ninguém ali imaginava.
Era uma situação completamente absurda.
Jorge falava alguma coisa sobre a comunidade, mas eu só conseguia responder com monossílabos.
— Hum.
— Pois é.
— Sei.
Ele me olhou de lado.
— Tu tá quieto pra c*****o.
— Tô ouvindo.
— Tá nada.
Ignorei.
Juju levantou os olhos por um instante e me pegou olhando.
Ela ficou vermelha.
Eu desviei na mesma hora.
Porra.
Aquilo estava ficando complicado.
Eu precisava lembrar que estávamos na frente das amigas dela. Não podia simplesmente agir como se conhecesse aquela mulher de antes. E, pelo jeito, ela também estava fazendo o possível para manter a mesma história.
Foi então que a campainha tocou.
Lili levantou rapidamente.
— O sushi chegou!
Ela foi até a porta, recebeu o pedido e voltou para a sala com algumas sacolas.
— Gente, ajuda aqui!
Juju se levantou para pegar parte das embalagens.
Foi automático.
Meus olhos acompanharam o movimento dela antes que eu conseguisse me controlar.
Ela percebeu.
Olhou rapidamente para mim.
Eu desviei.
Mah, que estava mais perto, arregalou os olhos.
— Juliana!
Juju parou na mesma hora.
— O quê?
— Não deixa a visita sozinha, não!
Juju fez uma cara de indignação.
— Eu só vou ajudar com o sushi.
— O sushi pode esperar. Senta aí.
Jorge começou a rir.
— c*****o, Mah, deixa a menina.
— Não deixo. A gente chamou vocês para jantar, não para ficar largando vocês sozinhos.
Juju bufou, mas acabou voltando.
E, para minha infelicidade — ou talvez felicidade — ela sentou exatamente ao meu lado.
Senti o perfume dela imediatamente.
Meu corpo ficou rígido.
Ela ficou quieta, mexendo nas mãos.
Eu olhei de canto.
Ela também estava nervosa.
Mah continuava organizando as embalagens sobre a mesa.
Jorge abriu uma delas e começou a escolher os primeiros pedaços.
— c*****o, isso aqui tá bonito.
Lili riu.
— Eu falei que era bom.
Peguei minha bebida e tentei agir naturalmente.
Juju continuava ao meu lado.
Perto demais.
O joelho dela quase encostava no meu.
E eu precisava fingir que aquilo não significava absolutamente nada.
Jorge olhou para as duas que ainda não conhecia direito.
— Agora eu quero saber uma coisa.
Mah levantou os olhos.
— O quê?
— Qual é o nome de vocês de verdade? Porque vocês ficam se chamando por apelido e eu já tô ficando perdido.
Lili começou a rir.
— Eu falei que ele ia perguntar.
Jorge apontou para Mah.
— Você eu já ouvi chamarem de Mah. Mas Mah é de quê?
Ela sorriu.
— Maria.
— Maria?
— Isso.
— Prazer, Maria.
— Prazer, Jorge.
Ele então virou o rosto para Juju.
— E você?
Juju pareceu ficar um pouco sem graça.
— Juju.
Jorge riu.
— Isso eu já sei. Quero saber seu nome.
Ela ajeitou uma mecha do cabelo atrás da orelha.
— Juliana.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
Juliana.
Então aquele era o nome dela.
Eu tinha passado a noite com uma mulher que conheci como Juju e nem sequer tinha perguntado o nome completo.
Jorge assentiu.
— Juliana. Agora sim.
Ela sorriu discretamente.
— Mas pode continuar me chamando de Juju.
— Fechado.
Eu permaneci em silêncio, olhando para ela de canto.
Juliana.
O nome combinava com ela.
Só que eu não podia demonstrar que aquele simples nome tinha acabado de me atingir daquele jeito.
Jorge voltou a conversar com Lili, completamente alheio à situação.
Eu respirei fundo e peguei um pedaço de sushi.
Juju fez o mesmo.
Nossas mãos quase se tocaram.
Nós dois paramos por um instante.
Ela me olhou.
Eu olhei para ela.
Nenhum dos dois falou nada.
Mas agora eu sabia.
Juju era Juliana.
E, pela primeira vez desde aquela madrugada, eu tinha mais do que um apelido para procurar.
Eu tinha um nome.
E alguma coisa dentro de mim dizia que eu ainda descobriria muito mais sobre aquela mulher.