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790 Words
CAPÍTULO 16 — TUBARÃO NARRANDO Fiquei parado na frente da porta ao lado de Jorge, esperando alguém abrir. Eu já estava começando a perder a paciência, porque não gostava de ficar plantado em lugar nenhum, muito menos esperando. Jorge parecia tranquilo, mexendo no celular enquanto batia de leve na porta outra vez. — Calma, irmão. Já vão abrir. — Estou calmo. — Tua cara não diz isso. — Minha cara é essa. Ele riu baixo. — Chato pra c*****o. Eu ia responder quando ouvimos passos do outro lado. A maçaneta girou. E, no segundo em que a porta se abriu, tudo dentro de mim simplesmente parou. Era ela. Juju. Porra. Fiquei completamente sem reação. Ela também. Os olhos dela encontraram os meus e, por uma fração de segundo, pareceu que o mundo inteiro tinha ficado em silêncio. Aquele olhar eu conhecia. Tinha visto exatamente aqueles olhos horas antes, no meio da madrugada, quando tudo entre nós tinha acontecido. Só que agora ela estava diferente. Ou talvez eu simplesmente tivesse prestado atenção em coisas que não tinha conseguido notar naquela noite. A saia curtinha deixava as pernas dela à mostra, e o cropped preto revelava parte da barriga. Meu olhar desceu por instinto e parou no pequeno piercing no umbigo. Eu não tinha visto aquilo no carro. Como diabos eu não tinha visto? Talvez porque naquela madrugada minha atenção estivesse completamente presa nela. Então percebi outra coisa. Um chupão próximo ao peito. O mesmo que eu tinha deixado. Meu maxilar travou. Juju rapidamente puxou um pouco o tecido do cropped, tentando esconder a marca, e desviou os olhos. Jorge, completamente alheio ao terremoto que tinha acabado de acontecer na minha cabeça, sorriu. — Oi! Ela olhou para ele e respirou fundo. — Oi. Você é o Jorge, certo? — Sou eu. — Prazer. Eu sou a Juju. Sou a outra amiga que você não conheceu ontem. Eu quase soltei uma risada. Outra amiga. Ela estava tentando fingir que não me conhecia. E eu entendi imediatamente. Ela não queria que ninguém soubesse. Jorge sorriu e estendeu a mão. — Prazer, Juju. Finalmente conheci você. — Prazer. Ela apertou a mão dele. Então veio a minha vez. Juju olhou para mim. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Eu precisava fingir. Ela também. — E você? A voz dela saiu mais baixa. Jorge respondeu por mim. — Esse é meu parceiro. Tubarão. Ela assentiu lentamente. — Prazer. Olhei para ela. — Prazer. Minha voz saiu firme, como se eu nunca tivesse visto aquela mulher na vida. Por dentro, porém, eu estava lembrando de tudo. Ela ficou um pouco tímida e abriu espaço para nós entrarmos. — Podem entrar. Passei por ela. Quando fiquei perto o suficiente, senti o perfume dela. O mesmo. Meu corpo reconheceu antes da minha cabeça. Porra. Entrei na sala sem demonstrar nada. Jorge veio logo atrás de mim. — Cadê a Lili? — Está ali na cozinha. Lili apareceu quase imediatamente. — Jorge! Ela foi até ele e deu um beijo nele, sorrindo. — Você veio mesmo. — Eu falei que vinha. Ela passou o braço pelo dele e olhou para mim. — E você trouxe o amigo. Jorge apontou para mim. — Tubarão. Lili sorriu. — Prazer. Eu sou a Lili. — Prazer. — Finalmente conhecendo o homem que o Jorge vive mencionando. — Espero que ele não tenha falado merda. Jorge soltou uma gargalhada. — Falei nada. Lili riu. — Até agora. Mah apareceu logo depois. — Oi, gente! Jorge cumprimentou Mah e, em seguida, todos nós acabamos sentados na sala. Eu fiquei em uma das pontas do sofá. Juju sentou mais afastada. Só que eu não conseguia parar de olhar para ela. Discretamente, claro. Ela conversava com Lili e Mah como se nada tivesse acontecido. Ria, mexia no cabelo, pegava o celular. Mas eu conhecia aquele jeito. Ela estava nervosa. Assim como eu. A diferença era que ninguém naquela sala fazia ideia do motivo. Jorge parecia completamente à vontade, com Lili ao lado dele. — Então, Juju, você trabalha com elas na confeitaria? Ela assentiu. — Sim. Nós três somos sócias. — Maneiro. — A gente começou juntas. Eu fiquei em silêncio, observando. Então Juju olhou para mim por um instante. Nossos olhos se encontraram. Ela desviou imediatamente. Eu quase sorri. Aquilo estava ficando interessante. Porque, algumas horas antes, eu tinha saído daquele carro sem saber absolutamente nada sobre ela. Agora eu sabia o nome. Sabia onde ela morava. Sabia que era sócia da Doce Maju. E sabia que ela estava sentada a poucos metros de mim, tentando desesperadamente agir como se nunca tivesse me visto. Só que havia um problema. Eu também precisava fingir. E eu nunca fui bom em fingir por muito tempo.
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