CAPÍTULO 15 — TUBARÃO NARRANDO
Eu tinha acabado de sair do banho e estava tentando aproveitar alguns minutos de paz quando meu celular tocou. Olhei para a tela e, assim que vi o nome de Jorge, já sabia que vinha merda. Atendi sem muita vontade.
— Fala, p***a.
— Tá fazendo o quê?
— Nada. Por quê?
— Então se arruma.
Franzi a testa.
— Pra quê?
— Vou passar aí.
— Pra quê, c*****o?
— A gente vai sair pra jantar.
Soltei uma risada.
— Tu tá louco?
— Não.
— Jorge, eu passei o dia inteiro trabalhando. Não quero sair.
— Vai querer sim.
— Não vou.
— Vai.
— Vai tomar no cu.
Ele começou a rir do outro lado.
— Tu tá muito rabugento hoje, irmão.
— Eu tô cansado.
— Justamente por isso. Vamos comer alguma coisa.
— Come sozinho.
— Não vou sozinho.
— Então leva outra pessoa.
— Já vou levar.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— Quem?
— Umas meninas.
— Ah, não.
— Ah, sim.
— Jorge…
— As meninas novas.
Meu corpo ficou imediatamente mais atento.
— Que meninas?
— As amigas da Lili.
Fiquei parado por alguns segundos.
— Tu vai jantar na casa delas?
— Vou. A Lili chamou.
— E eu tenho que ir?
— Tem.
— Não tenho p***a nenhuma.
— Tem sim. Vou passar aí para te buscar.
— Eu prefiro ficar em casa.
— Mentira.
— Verdade.
— Tu tá querendo ficar sozinho.
— Exatamente.
— Então muda de ideia.
Soltei um suspiro.
— Tu é muito chato.
— Eu sei.
— E se eu não quiser ir?
— Eu vou aí te buscar do mesmo jeito.
Comecei a rir.
— Filho da p**a.
— Dez minutos.
— Jorge…
— Dez minutos, Tubarão.
Ele desligou.
Fiquei olhando para o celular por alguns segundos.
— Filho da p**a.
Eu realmente não queria sair.
Depois de um dia inteiro resolvendo problema, minha cabeça estava pesada. Eu tinha passado horas analisando pendências, conversando com comerciantes, resolvendo conflitos e tentando colocar ordem em coisas que pareciam se multiplicar sozinhas. Tudo que eu queria naquela noite era tomar outra ducha, comer alguma coisa em casa e dormir.
Mas conhecia Jorge.
Se ele tinha colocado uma coisa na cabeça, não desistiria.
E talvez fosse melhor sair mesmo.
Desde a madrugada, minha cabeça estava presa naquela mulher.
Juju.
Eu ainda não sabia onde ela morava.
Não sabia se tinha vindo sozinha para a Rocinha ou se estava acompanhada.
Não sabia praticamente nada.
Só sabia que queria vê-la outra vez.
Balancei a cabeça, irritado comigo mesmo.
— Esquece isso.
Fui até o quarto e me arrumei sem muita preocupação. Coloquei uma calça escura, camiseta preta e tênis. Peguei meu celular, carteira e chave do carro e desci.
Poucos minutos depois, Jorge apareceu.
Assim que entrou, já veio com aquele sorriso de quem tinha conseguido exatamente o que queria.
— Sabia que tu ia.
— Cala a boca.
Ele riu.
— Vai ser bom.
— Se for uma merda, eu vou embora.
— Relaxa.
Entramos no carro.
Enquanto dirigíamos, Jorge parecia estar de ótimo humor. Eu, ao contrário, estava encostado no banco, olhando pela janela e pensando que talvez aquela saída fosse realmente desnecessária.
— A Lili tá esperando a gente — ele comentou.
— Ela parece gostar de ti.
— E eu gosto dela.
— Já tá apaixonado?
— Não começa.
— Então tá.
Ele riu.
— A gente só tá se conhecendo.
— Sei.
— E tu não vai estragar a noite.
Olhei para ele.
— Eu nem falei nada.
— Mas tua cara fala.
— Minha cara é essa.
— Eu sei.
Continuei olhando pela janela.
Depois de alguns minutos, Jorge voltou a falar.
— As amigas dela também vão estar lá.
— Tá.
— Mah e Juju.
Meu olhar se desviou da janela por um instante.
Juju.
O nome ficou ecoando na minha cabeça.
Mas imediatamente descartei a possibilidade.
A Rocinha era enorme. Podia existir um monte de mulheres chamadas Juju. Não fazia sentido imaginar que seria justamente ela.
— Vai ser tranquilo — Jorge continuou. — A gente janta, conversa e depois decide o que faz.
— Beleza.
Quando chegamos à rua onde elas estavam morando, percebi o movimento dos comércios ao redor. Restaurantes, lanchonetes, pizzarias, gente passando, música vindo de alguns lugares. Era uma área bastante movimentada.
Jorge estacionou.
— Chegamos.
Desci do carro.
Ele fechou a porta e caminhou na frente.
— Vem, irmão.
— Já estou indo.
Subimos juntos até a casa.
Jorge tocou a campainha.
Eu fiquei alguns passos atrás, com as mãos nos bolsos.
Ouvi vozes do outro lado.
Risadas.
Passos se aproximando.
Jorge olhou para mim e sorriu.
— Relaxa.
— Eu tô relaxado.
— Parece que vai entrar numa reunião.
— Vai se ferrar.
Ele riu.
A porta continuava fechada.
Fiquei ali esperando.
Do outro lado, dava para ouvir uma das meninas falando alguma coisa que eu não consegui entender. Depois vieram mais risadas.
Meu olhar caiu sobre a porta.
Eu não sabia por quê, mas alguma coisa naquela situação me deixou estranhamente inquieto.
Talvez fosse apenas cansaço.
Talvez fosse a lembrança da noite anterior.
Ou talvez fosse aquele nome que Jorge tinha acabado de mencionar.
Juju.
Passei a língua pelos lábios e respirei fundo.
A porta começou a se abrir.
Jorge deu um passo para frente.
Eu permaneci exatamente onde estava.
Ainda do lado de fora.
Sem enxergar quem estava ali.
Sem imaginar o que estava prestes a acontecer.
E, pela primeira vez em muito tempo, tive a sensação de que alguma coisa estava prestes a mudar.