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1049 Words
CAPÍTULO 13 — TUBARÃO NARRANDO Eu não tinha conseguido tirar aquela mulher da cabeça nem por cinco minutos, mas trabalho era trabalho. E, quando eu entrava na boca, não existia Juju, não existia pagode, não existia p***a nenhuma além dos problemas da comunidade. Jorge continuava sentado na minha frente, com uma pasta aberta sobre a mesa e o celular na mão, enquanto eu encarava uma lista de pendências que parecia não ter fim. Era cedo, mas a minha paciência já tinha acabado fazia tempo. — Começa pelos comércios — falei, passando os olhos pelos papéis. — Quero saber o que está pendente e o que já foi resolvido. Jorge puxou a cadeira para mais perto. — Já organizei por bairro e por prioridade. — Ótimo. Ele começou a me passar as informações sobre os estabelecimentos da região: mercados, academias, lojas, restaurantes, bares e outros comércios que dependiam da movimentação da comunidade. Eu acompanhava tudo com atenção, fazendo perguntas quando alguma coisa não fechava. Eu podia ser explosivo pra c*****o, mas não era burro. Se tinha uma coisa que eu não admitia era bagunça dentro do meu território. — Esse mercado aqui está atrasado de novo? — Está. — Há quanto tempo? — Algumas semanas. Bati a caneta sobre a mesa. — Resolve isso sem confusão desnecessária. Jorge assentiu. — Já falei com o responsável. Ele disse que teve problema no caixa. — Então verifica a situação e me traz a resposta. Não quero ninguém inventando história e também não quero ninguém criando problema onde não precisa. Continuei passando a lista. Academia. Mercado. Bar. Oficina. Restaurante. Era sempre a mesma coisa. Números, pendências, problemas de moradores, comércio reclamando, gente querendo resolver briga, gente querendo favor. Todo mundo achava que ser o dono da p***a toda significava ficar sentado em casa, tomando bebida cara e mandando nos outros. Ninguém via as horas que eu passava resolvendo merda. Meu celular vibrou. Olhei a tela. Bruna. Ignorei. Dois minutos depois, vibrou de novo. Ignorei outra vez. Jorge percebeu. — Não vai atender? — Não. — É a mulher de ontem? Olhei para ele. — Não enche. O celular vibrou novamente. Dessa vez, perdi a paciência. — Essa mulher tá de s*******m comigo. Jorge riu. — Ela quer saber se vocês vão se ver de novo. — Problema dela. — Tu deixou ela esperando alguma coisa? — Não prometi p***a nenhuma. O aparelho vibrou outra vez. Peguei e atendi. — Fala. A voz de Bruna veio do outro lado, insistente. — Tubarão, eu só queria conversar… — Bruna, eu tô trabalhando. — Mas você sumiu ontem. Fechei os olhos e respirei fundo. — Eu não sumi. Eu fui embora. — E aquela mulher? Meu maxilar travou. — Que mulher? — A que estava com você. Olhei para Jorge. Ele já estava segurando o riso. — Não é assunto seu. — Eu só queria saber se… — Bruna, chega. Minha voz saiu tão seca que ela ficou em silêncio. — Eu tenho trabalho pra resolver. Não vou ficar discutindo minha vida pessoal agora. Desliguei. Joguei o celular sobre a mesa. — c*****o! Jorge começou a rir. — Tu tá nervoso pra c****e hoje. — Estou. — Por causa dela? — Por causa de tudo! Levantei da cadeira e comecei a andar pela sala. A manhã m*l tinha começado e eu já estava puto com os números, com as pendências, com os problemas e, principalmente, comigo mesmo. Porque no fundo eu sabia exatamente por que estava daquele jeito. Eu queria encontrar Juju. Só que não sabia onde procurar. E aquilo me deixava mais irritado do que deveria. Voltei para a mesa. — Continua. Jorge abriu outra folha. Passamos boa parte da manhã resolvendo pendências. Eu fazia ligações, Jorge verificava informações, recebíamos pessoas e tentávamos colocar ordem na quantidade absurda de problemas que apareciam. Quando uma questão parecia finalmente resolvida, surgiam outras duas. Perto do meio-dia, eu já estava com fome e sem paciência nenhuma. — Vamos comer. Jorge levantou. — Finalmente. Fomos para uma sala reservada e comemos rapidamente. Eu praticamente não conversei. Minha cabeça continuava trabalhando. Depois do almoço, voltei para a boca. A tarde foi ainda pior. Um comerciante apareceu preocupado com uma situação envolvendo o estabelecimento dele. Depois veio uma discussão entre moradores. Em seguida, uma questão envolvendo uma entrega atrasada. Nada parecia simples. Eu resolvia uma coisa e outra aparecia. Às quatro da tarde, eu estava sentado na mesma cadeira havia tempo demais, com os cotovelos apoiados na mesa e as mãos entrelaçadas. — Eu vou enlouquecer. Jorge soltou uma risada. — Tu já é meio maluco. — Não ajuda. — Tô tentando. — Então fica quieto. Ele levantou as mãos. — Tá bom, chefe. Olhei novamente para os papéis. — Amanhã a gente termina essa parte. Jorge concordou. — Fechou. Encostei na cadeira e finalmente respirei. O sol começava a baixar quando saí da sala. Caminhei pela boca e observei o movimento da comunidade. Crianças voltando da escola, moradores conversando, comerciantes trabalhando, motos passando, música vindo de algum lugar. Era aquela rotina que eu conhecia desde moleque. Eu tinha crescido ali. Perdido meus pais ali. Aprendido a sobreviver ali. E, mesmo depois de tantos anos, ainda carregava aquela responsabilidade nas costas. À noite, voltei para casa. Tomei um banho demorado e fiquei alguns minutos parado debaixo da água, tentando relaxar os músculos. Quando saí, coloquei uma bermuda e fui até a varanda. A Rocinha estava iluminada. Milhares de pontos de luz espalhados pelo morro. Normalmente aquela visão me acalmava. Naquela noite, não. Peguei o celular. Nenhuma mensagem dela. Abri a conversa que eu tinha com Jorge e fiquei olhando para a tela por alguns segundos antes de bloqueá-la. Que p***a eu estava fazendo? Eu nem sabia quem aquela mulher era. Mesmo assim, estava esperando alguma coisa. Talvez uma mensagem. Talvez um reencontro. Talvez simplesmente a chance de olhar para aqueles olhos outra vez. Soltei uma risada sem humor. — Tá ficando maluco, Tubarão. Entrei em casa e deixei o celular sobre a mesa. Eu precisava esquecer aquela mulher. Era isso. Só precisava. O problema era que, naquela mesma noite, sem que eu soubesse, Juju estava a poucos minutos de distância. E o destino parecia estar preparando uma maneira muito filha da p**a de colocar nós dois frente a frente outra vez.
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