CAPÍTULO 5 — JUJU NARRANDO
Amanhecemos muito melhor do que eu esperava. Depois da correria da mudança, nós três apagamos completamente e dormimos como se tivéssemos passado uma semana carregando móveis. Quando abri os olhos, por alguns segundos fiquei tentando lembrar onde estava. O quarto ainda tinha algumas caixas empilhadas no canto, mas logo reconheci o teto novo, o cheiro diferente e o silêncio do andar de cima. Sorri sozinha. Era estranho pensar que aquela era nossa casa agora. Nossa casa na Rocinha. Estiquei os braços, peguei o celular na mesa de cabeceira e vi que já era quase hora do almoço. Levantei, tomei um banho demorado e fui para a cozinha, encontrando Mah já acordada, com o cabelo preso de qualquer jeito e uma caneca de café na mão.
— Bom dia, Bela Adormecida.
— Bom dia — respondi, pegando outra caneca. — Cadê a Lili?
— Dormindo.
— Ainda?
— Ela chegou tarde no celular ontem. Ficou conversando com o príncipe encantado.
Revirei os olhos.
— Jorge.
— O próprio.
Não demorou muito para ouvirmos a porta de um quarto abrir e Lili aparecer no corredor, ainda com cara de sono.
— Vocês estão falando de mim?
Mah olhou para ela.
— Sempre.
— Duas fofoqueiras.
— Dormiu bem? — perguntei.
— Muito.
— Sonhou com o Jorge?
Ela abriu um sorriso.
— Talvez.
Começamos a rir. Depois do café, voltamos para a missão que tínhamos deixado pela metade na noite anterior. A casa ainda tinha caixas, roupas e algumas sacolas espalhadas, mas dessa vez estávamos descansadas e conseguimos terminar tudo muito mais rápido. Organizamos a sala, guardamos o restante das coisas da cozinha, limpamos os banheiros, arrumamos os armários e deixamos cada cômodo praticamente pronto. Os quartos ainda eram a parte mais complicada, porque tínhamos roupas e objetos pessoais demais, mas pelo menos já era possível enxergar o chão.
Quando terminamos, parei no meio da sala e olhei ao redor.
— Agora sim.
Mah colocou as mãos na cintura.
— Nossa casa.
Lili se jogou no sofá.
— Nossa casa.
Sentei ao lado dela e sorri. Era uma sensação boa. Depois de tudo que passamos, ter um lugar que era realmente nosso parecia uma conquista enorme. Não precisávamos pedir autorização para ninguém, não precisávamos depender de ninguém. Éramos três mulheres que tinham saído de um orfanato e construído uma empresa com as próprias mãos.
E agora estávamos ali.
Na Rocinha.
Prontas para começar outra fase.
Depois do almoço, quando já tínhamos descansado um pouco, Lili apareceu na sala com o celular na mão.
— Gente.
— O quê? — perguntei.
— Precisamos decidir nossas roupas.
Mah imediatamente levantou do sofá.
— Finalmente uma discussão importante.
Começamos a rir e fomos para os quartos. Em poucos minutos, a casa parecia ter voltado ao caos. Roupas sobre a cama, cabides espalhados, sapatos no chão e nós três trocando de roupa na frente do espelho, dando opiniões umas nas outras.
Eu escolhi um vestidinho rosa-claro, curto, leve e delicado. Era simples, mas valorizava meu corpo e deixava minhas pernas à mostra. Para completar, coloquei uma rasteirinha brilhosa que tinha pequenos detalhes que refletiam a luz. Soltei o cabelo, deixando os fios lisos caírem pelas costas, fiz uma maquiagem leve e passei um perfume que eu adorava.
Quando saí do quarto, Mah me olhou de cima a baixo.
— Você está linda.
— Você também vai ficar.
Ela apareceu logo depois usando um short jeans curto e uma blusa azul decotada que combinava perfeitamente com ela. Deixou o cabelo solto e colocou uma maquiagem que destacava seus olhos.
— E aí?
— Gostosa — Lili respondeu.
Mah fez uma pose.
— Eu sei.
— Convencida.
— Realista.
Lili foi a última a aparecer. Ela tinha escolhido uma saia jeans curtinha e uma blusa preta decotada. O conjunto ficava lindo nela, e o cabelo escuro solto deixava tudo ainda mais bonito. Ela passou na nossa frente como se estivesse desfilando.
— E eu?
Olhei para Mah.
Mah olhou para mim.
— Perigosa.
Lili abriu um sorriso.
— Hoje o Jorge vai cair para trás.
— Só espero que ele saiba levantar — Mah respondeu.
As três começaram a rir.
A verdade era que estávamos realmente lindas. Não era apenas vaidade. Nós gostávamos de nos cuidar, de nos sentir bonitas e de sair juntas. Depois de tantos anos vivendo apertadas, trabalhando e lutando para construir nossa vida, tínhamos aprendido a aproveitar os pequenos momentos.
Peguei minha bolsa.
— Vamos?
— Vamos.
Saímos de casa e descemos para a rua. O pagode aconteceria ali perto, então decidimos ir andando. O movimento já era intenso e parecia aumentar a cada minuto. Música podia ser ouvida de longe, pessoas caminhavam em direção ao local e os estabelecimentos estavam cada vez mais cheios.
Assim que chegamos, senti aquela energia gostosa de festa. Música alta, gente conversando, risadas, mesas cheias e uma multidão reunida para aproveitar a noite. Lili estava claramente nervosa, embora tentasse fingir que não.
— Ele está aqui? — perguntei.
Ela pegou o celular.
— Ainda não respondeu.
— Respira — Mah falou.
— Eu estou respirando.
— Não parece.
— Eu estou nervosa, tá?
Passei o braço pelo ombro dela.
— Vai dar tudo certo.
Pouco depois, Lili recebeu uma mensagem e abriu um sorriso.
— Ele está chegando.
— Então pronto.
Mah segurou a mão dela.
— Vamos ficar juntas.
Começamos a circular pelo lugar. Encontramos um espaço mais próximo do bar e ficamos ali conversando. Eu pedi uma caipirinha. Depois outra. A bebida estava gelada, doce e perigosa daquele jeito que faz você esquecer que está bebendo rápido demais.
Mah olhou para meu copo.
— Juju, devagar.
— Estou bebendo devagar.
— Você tomou metade em dois minutos.
— Exagerada.
Lili estava distraída olhando para o celular.
— Ele disse que está chegando.
— Então fica com ela — falei para Mah.
— E você?
— Vou pegar outra bebida.
— Juju…
— Mah, eu estou bem.
Ela me olhou desconfiada.
— Você promete?
— Prometo.
Fui até o bar e pedi outra caipirinha. Fiquei ali sozinha por alguns minutos, observando o movimento. Eu conseguia ouvir a música, sentir o cheiro de comida vindo das barracas e ouvir as pessoas rindo ao meu redor. Tomei um gole e senti uma sensação estranha de liberdade.
Talvez fosse exatamente aquilo que eu precisava.
Uma noite sem pensar.
Sem lembrar.
Sem sentir culpa por estar tentando seguir em frente.
Olhei para o meu celular e não havia nenhuma mensagem das meninas.
Levantei os olhos e procurei por elas.
Nada.
Virei para um lado.
Nada.
Para o outro.
Também nada.
Franzi a testa.
— Onde essas duas foram parar?
Peguei o celular e mandei uma mensagem para Mah.
Eu: Onde vocês estão?
Esperei.
Nada.
Mandei para Lili.
Eu: Sumiram?
Nenhuma resposta.
Olhei novamente para o movimento ao meu redor. Tanta gente, tanta música e tantas pessoas circulando que, em poucos minutos, eu já não conseguia mais enxergar onde tinha deixado minhas amigas.
Suspirei e tomei mais um gole da caipirinha.
— Perfeito.
Eu tinha conseguido me perder no primeiro pagode da minha vida na Rocinha.
Sozinha.
Com uma bebida na mão.
E sem fazer a menor ideia de que, naquela mesma noite, eu estava prestes a conhecer um homem que mudaria completamente a minha vida.