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1027 Words
CAPÍTULO 6 — TUBARÃO NARRANDO Cheguei ao pagode pouco depois das seis da tarde. Estacionei o carro não muito longe da entrada e, assim que desci, percebi aquele movimento de sempre. Alguns homens me reconheceram imediatamente. Uns fizeram um aceno respeitoso, outros simplesmente abriram espaço para eu passar. Não precisava dizer nada. Eu estava acostumado com aquilo. A Rocinha sabia quem eu era, e eu fazia questão de manter as coisas dessa maneira. Caminhei tranquilo, com as mãos nos bolsos do short, camiseta vermelha e chinelo branco, completamente básico, mas mesmo assim sentindo os olhares acompanharem meus passos. Não me importei. Fui direto para dentro, procurando Jorge no meio da multidão. O som do pagode estava alto, o ambiente cheio e o cheiro de bebida e comida misturado no ar. Cumprimentei alguns conhecidos pelo caminho e parei no bar antes de continuar procurando Jorge. Pedi uma cerveja e fiquei encostado no balcão, olhando distraidamente para o movimento. Foi quando meus olhos encontraram uma mulher diferente. Ela estava alguns metros distante, sozinha, encostada no balcão com uma bebida na mão. Vestia um vestido rosa-claro, curtinho, que destacava as pernas bronzeadas e deixava evidente o quanto ela cuidava do corpo. O cabelo preto, completamente liso, caía pelas costas. Ela tinha um rosto delicado, bonito pra c*****o, e um decote que chamava atenção sem precisar de esforço. Fiquei olhando por alguns segundos, sem nem perceber que tinha parado de prestar atenção na música. Gostosa. Foi a primeira palavra que passou pela minha cabeça. Ela tomou um gole da bebida e olhou para os lados, como se estivesse procurando alguém. Aquilo me fez sorrir de canto. Sozinha. Bonita. Parecia exatamente o tipo de mulher que normalmente chamaria minha atenção em qualquer lugar. E, naquela noite, eu estava sem compromisso. Bebi um gole da cerveja e me aproximei. — Tá procurando alguém? Ela virou o rosto rapidamente e me encarou. Por alguns segundos, simplesmente ficou olhando para mim. Eu conhecia aquele olhar. Era o mesmo que muitas mulheres tinham quando me reconheciam ou quando simplesmente percebiam que eu estava interessado. Mas havia alguma coisa diferente nela. Talvez fosse o jeito tímido. Talvez fosse o olhar. Talvez fosse o fato de ela parecer um pouco perdida naquele lugar. — Minhas amigas. A voz dela era suave. — Se perderam? Ela soltou uma risadinha. — Acho que sim. — Como é que alguém consegue se perder num lugar desses? — Você não está ajudando. Sorri. — Tô tentando ajudar. Ela me encarou por mais alguns segundos. — Você conhece muita gente aqui? — Conheço. — Então talvez consiga me ajudar a encontrar minhas amigas. — Talvez. — Talvez? — Depende. — Depende de quê? Apoiei o braço no balcão. — De como elas são. Ela franziu a testa. — Como assim? — Se eu souber como são, posso tentar procurar. Ela começou a explicar, mas naquele momento alguém passou entre nós e interrompeu a conversa. Esperei a pessoa passar e voltei a olhar para ela. — Então? — Uma é loira. A outra é morena. — E você? — Eu sou o quê? — Morena. Ela sorriu. — Então são três? — Sim. — Beleza. Vou procurar. — Você nem sabe meu nome. — Posso descobrir depois. Ela baixou os olhos, aparentemente sem saber se ria ou se ficava séria. — Você é sempre assim? — Assim como? — Atrevido. Soltei uma risada baixa. — Só quando a mulher merece. Ela balançou a cabeça, mas sorriu. — Eu sou Juju. O nome ficou na minha cabeça. Juju. Bonito. — Juju? — Sim. — Eu sou Tubarão. Ela levantou os olhos. — Tubarão? — É. Ela pareceu achar engraçado. — Esse é seu nome? — Pode chamar assim. Não expliquei nada. Ela também não perguntou muito. E, naquele momento, nenhum dos dois tinha qualquer interesse em contar que estava ali por causa de outras pessoas. Ela não disse que tinha vindo acompanhada de duas amigas. Eu não disse que estava esperando Jorge. Era apenas uma conversa entre dois desconhecidos. E talvez fosse justamente isso que tornava tudo tão interessante. — Você vem sempre aqui? — ela perguntou. — Às vezes. — Eu sou nova por aqui. — Percebi. — Como? — Você tem cara de quem ainda não conhece o lugar. Ela riu. — É tão óbvio assim? — Um pouco. Ela tomou outro gole da bebida. — Cheguei ontem. — Então acabou de chegar. — Sim. — E já veio pro pagode? — Minhas amigas quiseram. — Você não queria? Ela me olhou. — Talvez eu quisesse. — Talvez? — Talvez eu esteja começando a gostar. Sorri. — Ainda bem. Ela ficou em silêncio por um instante. A música mudou e a multidão começou a cantar junto. Juju acompanhou algumas palavras, mexendo o corpo discretamente no ritmo. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Não era só beleza. Tinha alguma coisa naquele jeito dela que me prendia. Ela parecia delicada. Mas não frágil. E eu gostava disso. — Quer alguma coisa? Ela olhou para mim. — O quê? — Outra bebida. — Acho que já bebi bastante. Olhei para o copo dela. — Isso aí? — Sim. — Não parece. Ela riu. — Você quer me embebedar? — Eu nem te conheço. — Então por que está me oferecendo bebida? — Porque quero conversar contigo. Ela ficou me encarando. — Você sempre fala assim com mulheres? — Só com as bonitas. Ela sorriu, desviando o olhar. Eu também sorri. Naquele momento, eu ainda não sabia absolutamente nada sobre aquela mulher. Não sabia de onde ela vinha. Não sabia que tinha acabado de se mudar para a Rocinha. Não sabia que ela era uma das donas de uma confeitaria que funcionava praticamente na minha área. Não sabia que ela tinha duas amigas esperando por ela. E, principalmente, não sabia que aquela mulher tinha um passado que ainda doía. Para mim, naquele momento, ela era apenas Juju. A mulher bonita de vestido rosa que eu tinha encontrado no bar. E eu era apenas Tubarão. O desconhecido que tinha decidido puxar conversa. Sem saber que, poucas horas depois, nenhum dos dois seria capaz de esquecer aquele encontro.
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