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1219 Words
CAPÍTULO 7 — JUJU NARRANDO Eu não sabia exatamente quanto tempo estava conversando com aquele homem, mas uma coisa eu já tinha certeza: Tubarão era gato demais. E não era apenas bonito. Era o tipo de homem que fazia você perceber a presença dele antes mesmo de olhar. Alto, moreno, musculoso, completamente tatuado e com um jeito de ficar parado que já parecia uma ameaça. Ele não precisava levantar a voz, não precisava fazer esforço para chamar atenção. As pessoas simplesmente olhavam. Eu também estava olhando, embora tentasse fingir que não. A camiseta vermelha simples marcava os braços fortes e o peito largo, e aquele sorriso de canto que aparecia vez ou outra me deixava ainda mais sem saber como agir. Eu tinha passado dois anos sem sequer beijar outro homem e, de repente, estava ali, conversando com um desconhecido que parecia ter saído de algum daqueles romances absurdos que Mah gostava de ler escondida no celular. — Você está me olhando muito — ele comentou. Senti meu rosto esquentar. — Não estou. — Está sim. — Você também está me olhando. — Não neguei. Revirei os olhos, tentando esconder o sorriso. — Convencido. — Só estou falando a verdade. Ele tomou um gole da bebida e continuou me encarando. Eu devia estar desconfortável, mas não estava. Pelo contrário. Havia alguma coisa estranhamente confortável naquela conversa. Talvez justamente porque ele não sabia nada sobre mim. Não sabia que eu tinha sido noiva. Não sabia que Caio existira. Não sabia do acidente. Não sabia que eu tinha passado os últimos dois anos evitando homens. Para ele, eu era apenas uma mulher que tinha conhecido naquele pagode. E eu gostava disso. — Você mora aqui? — perguntei. — Moro. — Há muito tempo? — Minha vida inteira. — Então conhece todo mundo. — Quase todo mundo. — Deve ser estranho conhecer tanta gente. — Depende. — De quê? — Da pessoa. — E eu? Ele inclinou a cabeça. — Você eu ainda estou conhecendo. Meu coração bateu um pouco mais rápido. — E qual é a sua primeira impressão? Ele demorou alguns segundos para responder. — Que você não parece ser daqui. — E isso é bom ou r**m? — Bom. Sorri. — Minha amiga vai achar engraçado se souber que você disse isso. — Por quê? — Porque nós acabamos de chegar. — Vocês? Percebi meu erro e fiquei em silêncio por um instante. — Eu e minhas amigas. — Ah. Ele não perguntou mais nada, e eu agradeci por isso. Não queria explicar naquele momento que estava procurando Mah e Lili. Eu já tinha mandado mensagens e provavelmente elas estavam bem. Além disso, eu estava começando a esquecer completamente que tinha ido ao pagode acompanhada. A música estava alta, as pessoas dançavam ao nosso redor e a bebida começava a deixar tudo mais leve. Eu não estava bêbada, mas já sentia aquela tontura gostosa que fazia as preocupações parecerem um pouco mais distantes. Tubarão se aproximou um pouco mais. — Está gostando? — Do pagode? — Da noite. Olhei para ele. — Estou. — Ainda bem. — Você sempre fala pouco? — Quando não tenho o que falar. — E comigo? Ele sorriu. — Com você estou falando bastante. Ri baixinho. — Então devo me sentir especial? — Talvez. Balancei a cabeça, divertindo-me com aquela resposta. Foi quando tudo aconteceu. Um homem que passava atrás de Tubarão esbarrou em alguém e, tentando se equilibrar, acabou derrubando parte da cerveja que segurava diretamente na camiseta vermelha dele. O sorriso de Tubarão desapareceu na mesma hora. Ele olhou para a própria camiseta molhada. Depois levantou lentamente os olhos para o homem. — Tá maluco, p***a? O rapaz imediatamente começou a pedir desculpas. — Foi sem querer, irmão. Desculpa mesmo. Tubarão respirou fundo, claramente irritado. — Presta atenção por onde anda, c*****o. — Foi m*l. O homem saiu rapidamente, e eu fiquei olhando para Tubarão. A mudança tinha sido instantânea. Até segundos antes, ele estava sorrindo para mim. Agora, parecia outra pessoa. A expressão fechada, o maxilar travado, o corpo tenso. Ele passou a mão pela camiseta molhada e soltou um palavrão. — Vou trocar essa merda. — Onde? — No carro. Ele apontou discretamente para onde tinha estacionado. — Eu vou com você. Ele me olhou. — Tem certeza? — Tenho. Na verdade, eu queria ir. Talvez a bebida estivesse influenciando minhas decisões. Talvez fosse a curiosidade. Talvez fosse simplesmente aquele homem. Começamos a caminhar juntos. Eu sentia um pouco de tontura, então em determinado momento precisei diminuir o passo. — Está bem? — Estou. — Bebeu demais? — Só um pouquinho. Ele soltou uma risada. — Eu percebi. — Não ri. — Não estou rindo. — Está sim. — Tá bom. Chegamos ao carro. Tubarão abriu a porta e pegou uma camiseta limpa que estava no banco traseiro. — Espera aqui. Eu fiquei parada ao lado do carro. Ele tirou a camiseta molhada. E eu simplesmente esqueci como se respirava. Não havia sido a primeira vez que eu tinha visto um homem sem camisa. Mas, depois de dois anos sem permitir sequer um beijo, aquela visão mexeu comigo de um jeito que eu não esperava. Tubarão era ainda mais impressionante sem a camiseta. O corpo musculoso era coberto por tatuagens que desciam pelos braços e atravessavam parte do peito. Ele percebeu meu olhar e arqueou uma sobrancelha. — Que foi? — Nada. — Tá olhando. — Não estou. — Tá sim. Fiquei completamente sem graça. — Desculpa. — Pelo quê? Eu nem sabia. Talvez por estar olhando. Talvez por sentir aquele calor estranho no peito. Talvez porque, naquele momento, alguma coisa dentro de mim simplesmente cansou de ter medo. Olhei para ele novamente. Pensei em Caio. Pensei em tudo que tinha perdido. Pensei nos dois anos em que eu não tinha permitido que ninguém me tocasse. E, pela primeira vez, não senti culpa por querer viver. Dei um passo na direção dele. — Desculpa. — Pelo quê? Não respondi. Apenas me aproximei e o beijei. Foi impulsivo. Rápido. Eu mesma quase não acreditei no que tinha acabado de fazer. Quando me afastei, meus olhos se arregalaram. — Meu Deus. Levei a mão à boca, completamente sem graça. — Eu… desculpa. Eu não sei por que fiz isso. Tubarão ficou me encarando. Eu queria desaparecer. — Esquece. Dei um passo para trás. — Foi a bebida. Ele continuou olhando para mim. — Juju. — O quê? Ele se aproximou. Meu coração disparou. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele segurou delicadamente meu rosto e me beijou novamente. Dessa vez, eu não consegui fugir. Fechei os olhos e correspondi. E naquele instante alguma coisa dentro de mim mudou. Não havia Caio. Não havia acidente. Não havia chuva. Não havia passado. Só existia aquele momento. Aquele homem. Aquele beijo. E a sensação assustadora de que, depois de dois anos tentando proteger meu coração, eu finalmente estava permitindo que alguém chegasse perto. Quando nos afastamos, fiquei alguns segundos sem conseguir olhar diretamente para ele. Tubarão sorriu de canto. — Ainda vai dizer que foi a bebida? Eu mordi o lábio, tentando esconder o sorriso. — Talvez. Ele riu. E eu também. Sem saber que aquele beijo, aparentemente tão simples, seria o começo de uma confusão que nenhum de nós estava preparado para enfrentar.
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