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RAÍZES DO ALEMÃO

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Jéssica é uma jovem nascida e criada no Morro do Alemão, que vê sua vida mudar completamente quando o pai descobre um câncer grave. Com o sonho interrompido de cursar Enfermagem por falta de dinheiro, ela vê sua mãe se desdobrar em dois empregos para pagar o tratamento em um hospital particular, recusando ajuda do filho mais velho — Felipe, irmão de Jéssica — que entrou para o mundo do crime após a doença do pai e passou a ser desprezado pela mãe. Mesmo afastado de casa, Felipe é muito importante para Jéssica, que mantém contato com ele e se preocupa com seu sumiço repentino. Ele trabalha para Grego, um homem que perdeu os pais na infância, vingou a morte deles e hoje é o dono de todo o território, respeitado e temido por todos. Grego, que cria sozinho a irmã mais nova, Fernanda, lida diariamente com problemas de negócio e estresse, sempre contando com a ajuda de seu amigo de infância, TH. É TH quem ajuda Jéssica a conseguir um emprego em um salão, a sua forma de tentar ajudar nas despesas de casa. No caminho do trabalho, Jéssica conhece justamente Fernanda, irmã de Grego, e as duas criam uma amizade rápida e sincera. Fernanda a convida para ir ao baile da comunidade, um evento que Jéssica nunca teve coragem de frequentar, mas que pode ser o início de uma nova fase, onde ela tenta equilibrar o medo de perder o pai, a lealdade ao irmão e a própria felicidade em meio à realidade dura do morro.

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cap 01 preciso de trabalho
Jéssica Minha vida nunca foi fácil, e depois que minha família descobriu o câncer do meu pai, as coisas só pioraram. Sou nascida e criada no Morro do Alemão, mas confesso que não conheço muito bem cada canto daqui. E não é porque minha mãe me proibia de sair, mas sim porque eu sempre preferi ficar mais em casa, mesmo. A notícia da doença do meu pai foi algo muito difícil de lidar... ele é tudo para mim, sabe? Quando eu soube, me senti completamente perdida e acabei me isolando no meu próprio canto. Eu tinha acabado de começar a faculdade de Enfermagem — algo que eu queria muito — e minha mãe sempre me apoiou de todo o coração nas minhas escolhas. Mas infelizmente, não consegui continuar: a mensalidade era muito cara, e todo o dinheiro que tínhamos precisava ser usado para pagar as despesas do hospital onde meu pai estava internado. Minha mãe trabalha feito uma louca, tem dois empregos, mas mesmo assim o dinheiro não é suficiente para cobrir todos os custos. Como optamos por um hospital particular, o valor do tratamento é altíssimo, e ela se recusou terminantemente a aceitar o dinheiro que meu irmão queria dar. Ela bate no peito e diz que jamais vai aceitar dinheiro "sujo" vindo dele. A regra aqui é proibido sair do morro, mas minha mãe conversou com o dono e explicou toda a nossa situação. Ele acabou liberando a saída dela justamente por ela ser a mãe do Felipe — que é o meu irmão. O posto de saúde daqui do morro é pequeno e não tem estrutura para tratar câncer, então foi a melhor decisão internar meu pai em um hospital fora da comunidade. Como eu comentei, tenho um irmão, e nossa relação sempre foi ótima. Mas quando ele descobriu a doença do nosso pai, ele acabou tomando um caminho errado, entrando para a vida que minha mãe tanto abomina. Por causa disso, ela parou de falar com ele e ele acabou saindo de casa. Eu ainda mantenho contato, claro. Minha mãe não gosta nada dessa ideia, mas ele é meu irmão, e não vou deixá-lo de lado de jeito nenhum. Minha mãe trabalha durante o dia em um lugar, e no outro emprego fica até às 19h da noite. Quando ela sai do serviço, às vezes passa aqui em casa rapidamente, mas na maioria das vezes vai direto para o hospital ficar com o meu pai. Quando descobrimos o câncer, eu tinha 17 anos. Já se passaram mais de dois anos de luta, e é muito, muito difícil... Choro todas as noites, só querendo que meu pai volte logo para casa, como era antes. Meu pai sempre foi muito amoroso comigo e com o meu irmão. Ele sempre foi um homem trabalhador, honesto, que fazia de tudo pela nossa família. Às vezes, quando vou visitá-lo, percebo que cada vez ele parece mais cansado de lutar. Tenho um medo enorme de perdê-lo. E também fico pensando na minha mãe, em quanto ela vai sofrer se o pior acontecer... Dá para ver claramente no rosto dela o quanto ela está exausta, carregando o mundo nas costas sozinha. Há alguns dias, estou correndo atrás de algum emprego, seja o que for, aqui mesmo no morro. Quero muito ajudar minha mãe, pelo menos um pouco, com as despesas do tratamento do meu pai. Eu perguntei para o Jeh se ele sabia de alguma oportunidade disponível por aqui, qualquer serviço que aparecesse. O Jeh é um dos parceiros de "trabalho" do meu irmão, mas também é meu amigo de infância, crescemos todos juntos. Ele disse que ia falar com o chefe dele — que é o dono do morro. Eu nunca vi ele pessoalmente, mas dizem que ele é muito bonito e ainda é novo. Eu jurava que ele era um senhor rabugento, daqueles que só ficam olhando para as meninas mais novas por aí...

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