cap 01 preciso de trabalho
Jéssica
Minha vida nunca foi fácil, e depois que minha família descobriu o câncer do meu pai, as coisas só pioraram.
Sou nascida e criada no Morro do Alemão, mas confesso que não conheço muito bem cada canto daqui. E não é porque minha mãe me proibia de sair, mas sim porque eu sempre preferi ficar mais em casa, mesmo.
A notícia da doença do meu pai foi algo muito difícil de lidar... ele é tudo para mim, sabe? Quando eu soube, me senti completamente perdida e acabei me isolando no meu próprio canto.
Eu tinha acabado de começar a faculdade de Enfermagem — algo que eu queria muito — e minha mãe sempre me apoiou de todo o coração nas minhas escolhas. Mas infelizmente, não consegui continuar: a mensalidade era muito cara, e todo o dinheiro que tínhamos precisava ser usado para pagar as despesas do hospital onde meu pai estava internado.
Minha mãe trabalha feito uma louca, tem dois empregos, mas mesmo assim o dinheiro não é suficiente para cobrir todos os custos. Como optamos por um hospital particular, o valor do tratamento é altíssimo, e ela se recusou terminantemente a aceitar o dinheiro que meu irmão queria dar. Ela bate no peito e diz que jamais vai aceitar dinheiro "sujo" vindo dele.
A regra aqui é proibido sair do morro, mas minha mãe conversou com o dono e explicou toda a nossa situação. Ele acabou liberando a saída dela justamente por ela ser a mãe do Felipe — que é o meu irmão.
O posto de saúde daqui do morro é pequeno e não tem estrutura para tratar câncer, então foi a melhor decisão internar meu pai em um hospital fora da comunidade.
Como eu comentei, tenho um irmão, e nossa relação sempre foi ótima. Mas quando ele descobriu a doença do nosso pai, ele acabou tomando um caminho errado, entrando para a vida que minha mãe tanto abomina. Por causa disso, ela parou de falar com ele e ele acabou saindo de casa. Eu ainda mantenho contato, claro. Minha mãe não gosta nada dessa ideia, mas ele é meu irmão, e não vou deixá-lo de lado de jeito nenhum.
Minha mãe trabalha durante o dia em um lugar, e no outro emprego fica até às 19h da noite. Quando ela sai do serviço, às vezes passa aqui em casa rapidamente, mas na maioria das vezes vai direto para o hospital ficar com o meu pai.
Quando descobrimos o câncer, eu tinha 17 anos. Já se passaram mais de dois anos de luta, e é muito, muito difícil... Choro todas as noites, só querendo que meu pai volte logo para casa, como era antes.
Meu pai sempre foi muito amoroso comigo e com o meu irmão. Ele sempre foi um homem trabalhador, honesto, que fazia de tudo pela nossa família.
Às vezes, quando vou visitá-lo, percebo que cada vez ele parece mais cansado de lutar. Tenho um medo enorme de perdê-lo. E também fico pensando na minha mãe, em quanto ela vai sofrer se o pior acontecer... Dá para ver claramente no rosto dela o quanto ela está exausta, carregando o mundo nas costas sozinha.
Há alguns dias, estou correndo atrás de algum emprego, seja o que for, aqui mesmo no morro. Quero muito ajudar minha mãe, pelo menos um pouco, com as despesas do tratamento do meu pai.
Eu perguntei para o Jeh se ele sabia de alguma oportunidade disponível por aqui, qualquer serviço que aparecesse. O Jeh é um dos parceiros de "trabalho" do meu irmão, mas também é meu amigo de infância, crescemos todos juntos.
Ele disse que ia falar com o chefe dele — que é o dono do morro. Eu nunca vi ele pessoalmente, mas dizem que ele é muito bonito e ainda é novo. Eu jurava que ele era um senhor rabugento, daqueles que só ficam olhando para as meninas mais novas por aí...