Capítulo 7

1525 Words
Um mês depois... “Oh, como o tempo passa rápido.” Aliso com as minhas mãos o meu vestido floral — simples, mas lindo. Ele tem pequenas flores brancas e azuis que se movem quando eu respiro. Dou uma última olhada no pequeno espelho pendurado na parede e ajeito o cabelo atrás da orelha, tentando parecer mais desperta do que realmente estou. O sol ainda não apareceu por inteiro, e o ar da manhã entra pela janela com um frio leve que arrepia a pele. A casa está silenciosa, mas logo vai acordar. Todos os dias eu preciso levantar cedo para ajudar a arrumar o Nathaniel para a escola. É o momento que mais gosto. Ele sempre reclama do sono, mas no fim acaba sorrindo, e esse sorriso é o suficiente para iluminar o dia inteiro. Nunca me senti tão feliz em toda a minha vida; pela primeira vez, sinto que sou útil. Que faço parte de algo bom. Subo as escadas devagar, ouvindo o ranger suave da madeira. Paro em frente à porta do quarto dele e bato de leve, esperando ouvir algum sinal. Nada. Abro com cuidado, apenas o suficiente para espiar. O quarto está meio escuro, com as cortinas ainda fechadas. O ar parece pesado, diferente. Dou alguns passos até a cama. Nathaniel está todo coberto, só o topo do cabelo aparece por entre as cobertas. Sorrio, achando que ele está fingindo dormir, e abaixo a voz: — Vamos, preguiçoso… já está na hora de levantar. Puxo devagar o lençol e o sorriso morre antes de se formar. O rosto dele está quente, corado demais, e a respiração sai mais pesada que o normal. Inclino-me, encosto a mão na testa dele e sinto o calor. — Meu Deus… — sussurro, o coração apertando — ele está com febre. — Então, é isso. Já deixei a receita da medicação do Nathaniel, Sr. Gideon. Quando comprarem o remédio, é só administrar conforme eu orientei. É uma virose leve, nada grave. A febre deve começar a ceder ainda hoje. Vivian solta o ar que parecia prender havia minutos e sorri, aliviada. — Graças a Deus... — diz ela, abraçando o filho com mais ternura. — Apenas mantenham ele hidratado e em repouso — continua o médico, guardando os papéis na pasta. — Logo ele estará bem, correndo por aí de novo. Gideon agradece com um aperto de mão firme. — Muito obrigado, doutor. O médico sorri, recolhe os instrumentos e sai do quarto. O som dos passos dele desaparece no corredor, e o silêncio volta, mas agora é um silêncio leve, quase calmo. Vivian ajeita o travesseiro do menino e cobre-o até os ombros. Gideon fica observando de pé, os olhos fixos nos dois — um olhar de pai e marido, cheio de cuidado. Eu permaneço perto da janela, vendo a cortina se mover suavemente com o vento. O quarto cheira a lençóis limpos e remédio recém-aberto. Nathaniel respira tranquilo agora, adormecido nos braços da mãe. Por um momento, tudo parece em paz. E eu fico ali, quieta, só observando — como se aquele instante fosse uma lembrança que quero guardar para sempre. — Mara. — A voz do Sr. Gideon é tão tranquila que parece acalmar o ar do quarto. Ele é uma boa pessoa, eu penso. Sempre fala baixo, como se tivesse medo de ferir o silêncio. — Sim, Sr. Gideon? — respondo, virando-me para ele. Ele se aproxima com passos lentos, o olhar sereno. — Pode deixar que hoje nós vamos cuidar de Nathaniel. — Enquanto fala, passa levemente uma das mãos pelo meu ombro. O toque é breve, respeitoso, mas transmite confiança. — Está bem, Sr. Gideon. — Sorrio de leve. Antes de sair, olho uma última vez para Nathaniel. Vivian continua sentada ao lado dele, passando a mão nos cabelos do filho. Ela tem aquele tipo de amor que preenche o espaço — protetor, inteiro. Quando está com os filhos, parece que nada mais no mundo existe. Saio do quarto em silêncio, caminhando devagar pelo corredor. O som dos meus passos ecoa baixo no chão de madeira. A casa ainda está calma, envolta por uma luz suave de manhã. Quase no fim do corredor, vejo Clara saindo do quarto dela. Está sorrindo, o cabelo preso de qualquer jeito e o rosto leve, como se o dia ainda não tivesse tocado nela. — Bom dia, Mara. — A voz dela é alegre, quase cantada. — Bom dia, senhorita Clara. — Sorrio de volta. Nesse tempo em que trabalho aqui, nós nos aproximamos muito. Desde a primeira vez que a vi, tive a sensação de que ela era uma boa garota — gentil, curiosa, sincera. Às vezes, me faz lembrar da minha irmãzinha Chloe. Penso nela constantemente... como será que ela está agora? Clara é a princesa da Sra. Vivian. Todo mundo na casa sabe disso. Ela é o orgulho, o encanto, a menina dos olhos da mãe. E, de alguma forma, é impossível não perceber o amor que as duas compartilham — aquele amor natural, fácil, que parece ter nascido junto com elas. Sempre que vejo as duas juntas, sinto algo dentro de mim se apertar. Não é inveja... é só um tipo de vazio que não sei nomear. — Pode me chamar só de Clara. — Ela ri, ajeitando o cabelo atrás da orelha. — E você ainda não arrumou o Nathaniel para ir à escola? — Ele não está muito bem hoje. — Respondo. — Então vai ficar em casa. O Sr. e a Sra. Bennett estão com ele. Clara franze levemente a testa, preocupada, mas o sorriso continua no canto dos lábios. — Tudo bem, então. Eu vou ver como ele está. Ela passa por mim e segue em direção ao quarto de Nathaniel. Fico observando por alguns segundos, até vê-la desaparecer pela porta. Clara é tão parecida com a Sra. Vivian. Os mesmos cabelos escuros, a mesma pele pálida e suave. Linda do mesmo jeito — mas com algo no olhar que lembra pureza, uma doçura que o tempo ainda não levou. Por um momento, fico parada ali, no meio do corredor, ouvindo o som distante das vozes vindo do quarto. Depois respiro fundo e continuo andando, sentindo o cheiro do café que vem da cozinha e o calor tímido do sol que começa a atravessar as janelas. — Você é mesmo uma gracinha, Miles. — sussurro, limpando com o guardanapo. A cada risada dele, sinto algo dentro de mim se acalmar. Ele é tão fofo… tão puro. A casa toda parece diferente quando ele está por perto. Mais leve. Mais viva. De vez em quando, penso em como seria ter alguém me olhando assim, com esse tipo de amor que não pede nada em troca. Termino de dar a papa e limpo o rostinho dele. Então o som dos passos ecoa pelo corredor. Reconheço o perfume antes de vê-la. A Sra. Vivian entra. O mesmo cheiro de lavanda, de flores e algo caro. O mesmo que preenche a casa inteira. Ela não olha muito para mim. Quase nunca olha. Apenas se aproxima de Miles e passa a mão nos cabelos dele. — Já comeu tudo, querido? — pergunta, com aquela voz calma, doce demais para alguém que nunca usa esse tom comigo. — Sim, Sra. Bennett. — digo, tentando soar tranquila. . Ela apenas faz um aceno breve com a cabeça. Nem me olha direito. E então se vira e sai, com Miles nos braços. O som dos passos dela ecoa pelo corredor, firme, até desaparecer completamente. Fico parada ali, no meio da cozinha, sentindo o perfume que ficou no ar. O cheiro doce e caro de lavanda — o mesmo que está nas roupas dela, nas cortinas, em tudo o que ela toca. Eu respiro fundo. Gosto desse cheiro. Sempre gostei. Ele me lembra alguma coisa antiga, algo da infância, mas que a memória já não sabe descrever. Talvez uma lembrança inventada, talvez um abraço que nunca existiu. A cozinha agora está vazia. A luz do sol entra pelas janelas, e o vapor que sai da pia desenha linhas no ar. Pego a tigela de papa, levo até a pia e começo a lavar, devagar. A água morna escorre pelos meus dedos e, por algum motivo, me dá vontade de chorar. Vivian é uma mulher que nunca me trata com grosseria — mas também não me trata igual aos outros empregados. As palavras dela são medidas, exatas. Os olhares, rápidos demais. É como se ela evitasse se demorar em mim. Mesmo assim, há algo nela que me puxa. O jeito sereno. A voz calma. Aquele perfume... Às vezes, quando Dona Heloísa leva as roupas dela para lavar, eu ajudo a dobrá-las. E, quando ninguém está por perto, fico alguns segundos com o tecido entre as mãos. Aproximo devagar o rosto e inspiro o perfume. Aquele mesmo cheiro que agora está no ar. Fecho os olhos. É quase como voltar pra casa. Mas eu nunca tive uma casa de verdade. Abro os olhos devagar e continuo lavando a louça. O som da água e o eco do silêncio são as únicas coisas que me fazem companhia.
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