Capítulo 8

1609 Words
A casa tem um silêncio bonito — daqueles que parecem guardar lembranças. O som dos passos de Vivian descendo as escadas é leve, quase delicado, como se ela tivesse medo de acordar o sol. Clara está sentada no tapete, lendo para Miles, que segura o livro de cabeça para baixo e ri de cada palavra como se todas fossem engraçadas. Nathaniel está perto, concentrado em construir uma torre de blocos. Ele leva o tempo dele, com o cuidado de quem acredita que tudo pode cair se a base não for firme o bastante. Vivian se abaixa entre eles, ajeita o cabelo de Clara atrás da orelha, beija o topo da cabeça de Nathaniel e passa a mão pelas costas de Miles. Ela não precisa dizer nada — o amor dela é visível no gesto, no olhar, no silêncio. E eu fico ali, parada na porta, só observando. Por algum motivo, essa imagem me prende. É bonita. Bonita de um jeito que dói. Eu queria que tivesse sido assim na minha casa. Queria lembrar da minha mãe rindo, do meu pai chamando a gente pra perto, de Chloe no colo dela, ouvindo histórias antes de dormir. Mas as lembranças que eu tenho são frias, cortadas pela pressa, pelo silêncio que sempre pareceu mais alto que qualquer palavra. Vivian nem percebe que estou ali. E talvez seja melhor assim. Porque, se ela visse, talvez notasse o quanto eu queria ser uma das crianças sentadas naquele tapete. Volto para a cozinha e me sento à mesa. Eu não quero nunca mais sair daqui. Mesmo sabendo que Dona Vivian não gosta de mim, ainda assim… aqui, eu me sinto em casa. E gosto de estar aqui. A campainha toca. Dona Glória se levanta para atender, e eu também me levanto, mas em vez de ir até a porta, sigo para o jardim nos fundos. O ar lá fora está leve, o cheiro de grama molhada me acalma. Respiro fundo. “Eu me sinto tão bem aqui.” Fico ali alguns minutos, observando o sol bater nas folhas, até decidir voltar. Quando entro na cozinha, o som do relógio é a única coisa que se ouve. Sento de novo, deixo o pensamento vagar — penso em tudo e em nada, na minha mãe, em Chloe, no que seria da vida se ela tivesse sido um pouco mais doce comigo. Dona Glória retorna apressada. — Mara! O Miles está chorando. Acho melhor você pegá-lo. — Claro! — respondo, já me levantando. Caminho rápido até a sala de estar. Miles está no colo da irmã, o rosto vermelho, soluçando baixinho. — Deixa que eu pego ele, Clara. Você precisa estudar. — Ah, obrigada, Mara. Ela me entrega o irmão e volta para o quarto, e eu fico ali, com o pequeno nos braços. — Vamos no jardim, pequeno? Vamos? — sorrio, tentando distraí-lo. Ele solta um som entre o choro e a risada. E é nesse instante, quando viro o corpo pra sair, que tudo para. Alguém está parada perto da porta. Por um segundo, penso que é uma visitante, alguém da casa. Mas não. O corpo dela, o jeito como segura a bolsa junto ao peito, o olhar... Eu reconheceria mesmo se tivesse apenas um vulto. A minha mãe. O tempo parece engasgar no ar. Sinto o coração bater forte, uma, duas, três vezes. O chão parece distante. Ela me encara — mas não há alegria, nem surpresa bonita. O rosto dela está rígido, o olhar duro, como se tivesse sido pega num lugar onde não devia estar. E, por um momento, penso que talvez eu tenha feito algo errado, que a culpa é minha, como sempre foi. A senhora Vivian surge logo atrás dela, parada, observando as duas como quem tenta decifrar um quadro antigo. O silêncio é tão pesado que até Miles parece sentir — ele para de chorar, apenas respira contra o meu ombro. — Mãe? — a palavra sai trêmula. Elizabeth não responde. Os olhos dela me percorrem de cima a baixo, como se me analisasse, como se quisesse ter certeza de que era mesmo eu. O rosto dela não muda. Nenhum músculo se move. Eu dou um passo à frente, hesitando. Sorrio, tentando trazer à tona o pouco de afeto que ainda imagino existir. — Mãe… a senhora veio me ver? Nada. O olhar dela passa por mim e vai até Vivian. Há algo entre elas — algo silencioso, tenso. Vivian mantém a postura calma, mas seus olhos não. — Vocês se conhecem? — pergunta ela, com a voz suave, mas firme. Eu rio, nervosa, sem entender. — Sim. Ela é minha mãe, senhora Vivian. Vivian franze levemente o cenho, desviando o olhar de mim para Elizabeth. Por um instante, parece que nenhuma das duas respira. Até que minha mãe fala, enfim, com a voz fria e distante: — Mara, nos deixe a sós. Demoro alguns segundos para processar. — Como assim, mãe? A senhora conhece a senhora Vivian? Ela é minha patroa… mam… — Mara — interrompe, num tom mais seco, sem me encarar — eu pedi pra você nos deixar a sós. A voz dela corta o ar. Não há raiva, mas também não há nada que se pareça com amor. É uma ordem — e, como sempre, eu obedeço. Aperto Miles contra o peito e dou um passo atrás. Vivian continua imóvel, observando. Nenhuma das duas diz mais nada. Saio devagar, o coração pesado. O sol do jardim parece diferente agora — mais pálido, quase frio. Sento no banco de pedra e balanço Miles, que já adormeceu. Dentro da casa, o silêncio é outro. Fechado. Denso. Como se escondesse algo grande demais pra ser dito. E, sem entender o porquê, sinto um arrepio atravessar meu corpo — como se algo dentro de mim tivesse acabado de mudar. Será que a minha mãe veio me ver? E como será que ela conhece a senhora Vivian? Essas perguntas não saem da minha cabeça. Elas andam em círculos, como se buscassem uma resposta que talvez nem exista. Caminho pelo jardim, de um lado para o outro, distraída com meus próprios pensamentos. Nem percebo o tempo passar. Só noto quando o peso nos meus braços muda — Miles adormeceu. Seu rostinho está sereno, alheio a tudo o que se move dentro de mim. Entro devagar para colocá-lo no berço. O silêncio da casa me parece diferente agora. Não é o mesmo silêncio bonito de antes. É um silêncio que pesa. Um silêncio que parece esconder alguma coisa. Deito Miles com cuidado, tentando não acordá-lo, e fico um instante observando a respiração leve dele. Depois desço as escadas. Meus passos soam altos demais. Vou até a cozinha, mas está vazia. Só o relógio na parede se ouve — e o barulho me irrita, porque parece zombar da minha incerteza. — Mara — a senhora Glória aparece na porta, com o avental amarrotado e os olhos preocupados. — A senhora Vivian está te chamando. Ela parece nervosa. Você fez alguma coisa de errado? — Não, senhora Glória. — Tento sorrir, mas minha voz falha. — Eu… eu não fiz nada. — É melhor você ir logo, querida — ela diz, e o jeito como me chama de “querida” soa como um presságio. Respiro fundo antes de sair. O corredor até o escritório parece mais longo do que nunca. O chão range sob meus pés. Não sei o que está acontecendo, mas o ar pesa como se algo estivesse prestes a cair sobre mim. Bato à porta, com o coração acelerado. — Senhora Vivian? A senhora me chamou? Ela está sentada atrás da mesa, com os cotovelos apoiados e o olhar fixo em mim. Quando fala, sua voz é tão fria que quase me corta: — Você está demitida, Mara. Seu pagamento está sobre a mesa. Por um instante, acho que não ouvi direito. Olho para o envelope — um envelope pálido, imóvel — e o mundo parece girar devagar. — Mas, senhora Vivian... eu fiz alguma coisa de errado? — minha voz sai num sussurro. Ela não responde. Apenas desvia o olhar, como se eu não existisse. E é nesse silêncio que tudo se encaixa. Foi ela. Minha mãe. Ela estava aqui. Ela deve ter dito alguma coisa. Veio até o lugar onde eu trabalho só pra... isso. A garganta fecha. Sinto um nó subindo, queimando. Minha própria mãe. Eu fiquei tão feliz em vê-la... tão feliz. E é isso que ela faz comigo. Vem até aqui só pra me machucar mais uma vez. Como se eu já não tivesse sangrado o suficiente. — Senhora Vivian... — minha voz sai pequena, quase um sussurro. — Você está demitida. — Ela fala sem titubear, sem levantar o tom. — Pegue o dinheiro e saia da minha casa. A voz dela é calma, mas é uma calma que fere. Uma calma contida, gelada — como se o controle fosse a única coisa impedindo-a de me empurrar porta afora. — Eu não quero o dinheiro, senhora Vivian. — dou um passo à frente, quase sem pensar. — Eu só queria entender o que aconteceu. Mas quando me aproximo da mesa, vejo o olhar dela. E é isso que me destrói. Repulsa. Ela me olha como se eu fosse algo que manchou o chão da casa dela. Como se o simples fato de eu estar ali fosse uma ofensa. — Saia. Agora. — a voz dela corta o ar, rápida, impaciente. E eu obedeço. Porque é o que sempre faço quando não sei o que mais posso fazer. Saio. Sem dizer nada. Sem olhar para trás. Mais uma vez, não sou bem-vinda em lugar nenhum.
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