Capítulo 9

1301 Words
A chuva cai sem pressa, como se tivesse esquecido de parar. Está frio. Um frio que não vem só do tempo — vem de dentro, como se tivesse nascido em mim. As ruas continuam cheias, apesar da hora. Pessoas passam apressadas, os rostos escondidos por capuzes e guarda-chuvas. Ninguém se olha. Ninguém fala. E eu caminho, sozinha, tentando não sentir o peso da mala que balanço na mão. Dentro dela estão minhas roupas, minhas lembranças e o resto do que ainda me pertence. Paro diante de um bar. As luzes lá dentro são amareladas, mornas, quase convidativas. Há risadas, copos batendo, o som abafado de uma música antiga. Por um instante, penso em seguir andando. Mas não tenho mais para onde ir. Empurro a porta e entro. O ar quente me envolve, e por alguns segundos, sinto o contraste do corpo molhado com o calor do ambiente. O cheiro é uma mistura de álcool, madeira e perfume barato. — O que é que eu estou fazendo? — murmuro para mim mesma. Algumas pessoas me olham, outras fingem não ver. Caminho até o balcão e me sento num dos bancos altos. O atendente — um rapaz de avental preto — serve bebidas e conversa com um pequeno grupo ao fundo. — Aqui está a sua bebida, Kat — ele diz, colocando um copo à frente de uma mulher sentada ao meu lado. Ela tem o cabelo vermelho-escuro, quase vinho. Sob a luz fraca do bar, ele parece brilhar de um jeito que prende o olhar. Não sei por quê, mas não consigo parar de observá-la. Talvez seja o modo como ela mexe o copo, distraída, ou o jeito confiante de estar ali, como se nada pudesse atingi-la. — E você, moça? — o atendente me pergunta. — O que vai querer? Demoro alguns segundos pra responder. — Nada. Obrigada. — Tento parecer firme. Ele apenas concorda e se afasta. Volto a olhar para a mulher. Ela percebe. Vira-se devagar e me encara. — Oi — ela diz, com a voz tranquila, quase brincalhona. — Oi — respondo, um pouco sem jeito. Ela me observa por um instante, depois sorri. Um sorriso leve, preguiçoso, que me deixa um pouco mais à vontade. Sem saber por quê, acabo sorrindo também. — Eu sou Katy. E você? — pergunta, levando o copo à boca. — Mara. — Mara… — ela repete, pensativa. — É um nome simples. Não sei se foi um elogio ou uma provocação. Fico calada. — Nunca te vi aqui antes. — É a primeira vez que venho. — Quer provar minha bebida? — ela estende o copo, divertida. — Não, eu não bebo. — Tento sorrir. — Obrigada. — Ah, claro — ela responde, compreensiva. Por alguns segundos, ficamos em silêncio. Então, ela olha para minha bolsa encostada no chão. — E essa mala? Demoro um pouco pra responder. — Eu... não tenho pra onde ir. — Falo baixo, quase sussurrando. Ela não parece surpresa. Apenas assente, como quem já ouviu isso antes. Termina o resto da bebida e se vira pra mim. — Quantos anos você tem, Mara? — Dezoito. — Você quer ficar na minha casa? A pergunta sai simples, como se fosse algo natural. Eu a encaro, confusa. — O quê? — Pode ficar comigo na minha casa se quiser, já que você não tem para onde ir.— fala de forma calma. — Mas... você nem me conhece. Ela sorri. — Conheço. Você é a Mara, não é? — Sim, mas... a gente acabou de se conhecer. — E daí? — Ela dá de ombros. — Se quiser, pode vir. Fico em silêncio. Ela ainda é uma estranha, mas... não tenho outra escolha. A rua está fria demais pra recomeços lentos. — Eu aceito — digo, quase sem voz. — Aceito ficar na sua casa. — Ótimo. Mas tem uma condição. — Qual? — Você quer trabalhar? — Quero. — Qualquer tipo de trabalho? — Eu não terminei os meus estud... — Esse não exige isso. É um trabalho fácil. — Sério? — Sério — ela diz, sorrindo de um jeito que eu não entendo. — Então? — Eu aceito. Mas você tem que me dizer qual é o trabalho. — Claro. — Ela se levanta e deixa algumas notas sobre o balcão. — Vem comigo. Te explico no caminho. Levanto também. A chuva lá fora agora é só uma garoa. Corro um pouco pra alcançá-la. Ela passa o braço pela minha cintura, me puxando pra perto. — Vou te contar sobre o trabalho amanhã. Agora você precisa dormir. Está cansada. — A voz dela soa quase doce. — E você vai me contar de onde veio... e por que anda por aí com essa mala — ela acrescenta. — Está bem — respondo. O toque dela é quente. E só então percebo o quanto estou molhada. O cabelo, as roupas, a pele — tudo. Ela sente. — Você está encharcada — diz, sorrindo de leve. — Vamos te secar antes que pegue um resfriado. Sigo com ela pelas ruas. A cada passo, o vento parece mais leve. Depois de alguns minutos, paramos diante de um prédio simples, de fachada cinza e janelas pequenas. Katy tira uma chave do bolso e abre a porta. — É aqui. — A voz dela soa diferente agora. Menos segura. Mais real. Entramos. O corredor é estreito, as paredes descascadas. Subimos um lance de escadas. Os degraus rangem. No segundo andar, ela abre uma porta pintada de verde. O interior é pequeno — tão pequeno que quase consigo ver tudo de uma vez. Há um sofá gasto, uma mesa com duas cadeiras, uma cortina fina que se move com o vento e um tapete velho, mas limpo. Tudo é simples. Mas é organizado, como se cada coisa tivesse um lugar certo pra estar. — É o que eu posso chamar de casa — ela diz, tirando os sapatos. — Não é muito, mas é meu. Entro devagar. O ar tem cheiro de sabão e perfume barato. É acolhedor. — Senta. — Ela vai até a cozinha e fala por cima do ombro. — Vou pegar uma toalha pra você. Obedeço. Sento no sofá, sentindo o tecido úmido das minhas roupas grudar na pele. Katy volta com uma toalha nas mãos. — Aqui. Se seca um pouco. — Entrega-me com delicadeza. — Obrigada. — Seguro a toalha, meio sem jeito. — Pode usar o banheiro. É aquela porta ali. Entro. A luz é amarelada, fraca. No espelho, vejo meu rosto pálido e o cabelo colado na testa. Parece que o frio mora em mim. Me seco devagar. A toalha é áspera, mas quente. Quando termino, penduro-a e saio. Katy está sentada à mesa, com uma caneca nas mãos. — Fiz chá — diz, levantando o olhar. — Quer um pouco? — Quero. Ela me entrega a caneca. O calor atravessa meus dedos e chega até o peito. Por alguns segundos, ficamos em silêncio. — Amanhã eu te explico tudo sobre o trabalho — ela diz, com a voz baixa. — Hoje, só precisa descansar. Assinto. — Obrigada, Katy. Ela sorri. — Você vai ter uma vida diferente, Mara. Bebo um gole. O chá está doce demais, mas é bom sentir algo quente. Olho em volta: o chão limpo, as cortinas finas, os móveis gastos. Tudo ali parece calmo — calmo demais. Katy se levanta e abre a porta de um pequeno quarto. — Pode dormir aqui. É simples, mas é limpo. Entro. A cama é pequena, coberta por lençóis que cheiram a sabão. Há uma janela semiaberta, por onde entra o som da chuva voltando. Deito devagar. O corpo dói, mas o cansaço é maior. A última coisa que vejo é Katy parada à porta, observando-me em silêncio. Depois disso, tudo escurece.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD