Capítulo 10

1422 Words
" Tem buracos que nem o tempo preenche." Estou parada diante de um prédio que parece brilhar com uma vida própria. Luzes violetas e vermelhas se misturam no ar, piscando devagar, como se zombassem de mim. As letras de néon tremem: Elite Parlor. O nome é bonito. Bonito demais para um lugar que parece respirar pecado. O vento é frio. Sinto o cheiro de perfume doce vindo lá de dentro, misturado a fumaça e risadas. É um cheiro pesado, que gruda na pele, como um toque que eu não pedi. — Katy... você tem certeza que é aqui? — pergunto, sem conseguir tirar os olhos do letreiro. — É aqui — ela responde. — Eu também trabalho aqui. A voz dela é baixa, cansada. Como se cada palavra fosse uma lembrança que ela não quer reviver. — Eu não quero esse tipo de trabalho — digo, firme, mesmo que o coração pareça desabar por dentro. — Por que você não me contou antes? Dou um passo para trás, mas ela agarra meu braço. — Eu devia ter contado, eu sei — sussurra. — Mas achei que, se soubesse, você não viria. — E você achou que não me contando, mudaria a minha maneira de pensar? — minha voz sai mais fria do que eu gostaria. — Eu vi que você estava precisando de ajuda e eu só quis ajudar, Mara. — Eu vi você com fome, tremendo de frio. Eu só queria te ajudar. — Ajudar? Me jogando aqui dentro? — pergunto, sem grita. — Quando a gente está na pior, aceita o que aparece. — ela diz, olhando para o chão. — Eu também lutei contra isso no começo. Mas a fome vence a dignidade. Fico quieta. Ela está certa, e é isso que dói mais. Eu já fiquei duas vezes vagando pelas ruas, sentindo frio. A solidão era a minha única companhia. As pessoas desviavam o olhar quando eu passava. E talvez... talvez esse lugar seja o último refúgio de quem o mundo esqueceu. Olho outra vez para o letreiro. As luzes piscam devagar, como se o tempo estivesse zombando de mim. — Eu tenho medo, Katy — confesso. — Medo de quê? — ela pergunta, a voz suave, quase materna. — Dos homens. Eles vão me tocar. E eu não vou poder reclamar. — Sinto a garganta fechar, o coração acelerar. — Eu não sei se consigo suportar isso. Ela dá um passo à frente e segura minha mão. — Eu vou cuidar de você, como se fosse minha irmã. Irmã. A palavra pesa. É a primeira vez que alguém me chama assim. — Eu aceito — digo, num sussurro. Ela sorri, e o sorriso dela é triste, quase um pedido de desculpa. — Então vamos. Vou te apresentar à dona do Elite. Entramos. O salão é escuro, iluminado por tons de roxo e vermelho. O som é abafado, o riso é falso, os cheiros são fortes. O ar parece vivo, cheio de histórias que ninguém quer contar. Homens e mulheres se misturam em gestos lentos, em toques silenciosos. Subimos as escadas. O chão é coberto por um tapete que não faz barulho, quase como se absorvesse cada passo. As paredes são cobertas por papel dourado, antigo, mas brilhante o suficiente para refletir as luzes do salão em pequenos lampejos. Não é um lugar sujo ou descuidado, mas há algo nele que parece congelado no tempo, como se cada objeto, cada detalhe, tivesse sido cuidadosamente posicionado para esconder o que está por baixo — o cansaço, o segredo, o peso que ninguém quer ver. Katy bate na porta. — Entrem — diz uma voz feminina, firme, vinda lá de dentro. A mulher atrás da mesa levanta o olhar dos papéis. Tem olhos frios, experientes, e um perfume forte que preenche o ar. — Boa noite, senhora Odette — diz Katy, com um respeito quase infantil. — Essa é a Mara. Ela quer trabalhar aqui. Odette me observa como se estivesse escolhendo um objeto. — Quer trabalhar aqui? — pergunta, sem expressão. — Quero — respondo, mesmo que a voz me denuncie. — O que sabe fazer? Hesito. Olho para Katy. — Ela ainda não tem experiência — Katy responde rápido. — Mas aprende rápido. Odette se inclina um pouco para frente. — Eu não gosto de clientes insatisfeitos, Katy. Você sabe. — Pode confiar em mim — diz ela. Odette pensa por alguns segundos antes de dizer: — Ela começa hoje. Depois eu falo com vocês, agora podem ir. Sinto o coração afundar. Descemos. O salão está mais cheio agora, mais barulhento. Luzes piscam, copos se chocam, corpos se tocam... — Toma — diz Katy, entregando-me um vestido preto. — Usa esse. O tecido brilha. É leve, frio, indecente. — É curto demais. — Todos são — ela responde. — É assim que funciona aqui. Visto o vestido. Ele gruda na pele, moldando o corpo como se quisesse me apagar por dentro. O espelho diante de mim reflete uma estranha. Uma menina com olhos perdidos e alma cansada. — Aja naturalmente — diz Katy. — Pode ficar sentada, só não demonstre medo. Se parecer assustada, Odette vai se irritar. Eu apenas aceno. O salão parece menor agora que estou no meio dele. Cada passo ecoa como uma confissão. Katy se afasta para atender um homem, e eu fico sozinha. Tento parecer invisível. O vestido arranha a pele. O ar cheira a perfume e arrependimento. Penso em sair. Penso em correr. Penso em todas as vezes que prometi a mim mesma que não seria como elas. E então vejo um homem de terno escuro, parado do outro lado do salão. Ele parece deslocado, como se também não pertencesse a esse lugar. O paletó está amassado, a gravata frouxa. Ele me observa por alguns segundos. O olhar dele é calmo, quase piedoso. Eu desvio, mas sinto quando ele começa a se aproximar. — Posso me sentar? — a voz dele é grave, tranquila. Apenas aceno. Ele se senta ao meu lado, mantendo distância. — É sua primeira noite aqui? — É. Ele pede duas taças de vinho, mas não toca na dele. — Não parece o tipo de lugar pra você — diz, observando o copo. — Talvez eu tenha deixado de ser o tipo de pessoa que tem um lugar — respondo. Ele me olha por alguns segundos, e por algum motivo, esse olhar me desmonta. E os olhos... os olhos dele carregam uma tristeza antiga, daquelas que não se curam com o tempo. — Qual o seu nome? — pergunta. — Mara. — Bonito. — E o seu? Ele demora antes de responder. — Pode me chamar de senhor, se quiser. Há um silêncio. E é estranho, porque não é um silêncio que incomoda. É um silêncio de quem entende a dor do outro sem precisar perguntar. — Não precisa fazer nada que não queira — ele diz, calmo, sem me olhar diretamente. — Eu só... queria conversar um pouco. O jeito como ele fala soa verdadeiro. Como se o mundo também tivesse arrancado algo dele. — Conversar — repito, quase sem voz. Ele sorri de leve, e pela primeira vez penso que há bondade escondida ali. Ficamos algum tempo assim. Ele fala pouco, pergunta pouco. “De onde você é?” “Por que veio parar aqui?” Respondo o que posso. Invento o resto. O olhar dele muda. Não há luxúria, há compaixão. — Quer subir? — ele pergunta, depois de um silêncio longo demais. Meu peito se aperta. Olho para Katy. Ela me observa de longe, e apenas acena, como quem diz vai. — Tudo bem — respondo. Ele se levanta, deixa uma nota sobre a mesa e me oferece a mão. Eu hesito. A mão dele é quente, firme, mas não me prende. Subimos as escadas em silêncio. O corredor é estreito, as luzes são fracas. Cada passo soa como um segredo. Ele abre uma das portas. O quarto é simples: cama grande, espelho na parede, perfume demais no ar. Fico parada, sem saber onde colocar as mãos. Ele tira o paletó e o dobra com cuidado sobre a cadeira. — Não precisa ter medo — diz, a voz quase um sussurro. Eu acredito. Não sei por quê, mas acredito. Ele dá um passo em minha direção, devagar, como se o tempo estivesse prestes a parar. E, por um instante, penso que talvez ele tenha buracos que o tempo não conseguiu preencher. Fecho os olhos. E o silêncio do quarto parece me engolir por dentro.
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