Capítulo 2

1652 Words
"Ah por que o meu cabelo tem que me dar tanto trabalho? Por que ele não pode simplesmente facilitar a minha vida, só por um dia e ser mais obediente?" Eu olho para o espelho e tento entender o que ele quer de mim. Não sei se é crespo, cacheado ou alguma coisa entre os dois. Só sei que, por mais que eu tente, ele nunca parece satisfeito com o que eu faço. Apesar de eu não ser escura, ainda assim sou n***a — e o meu cabelo não deixou de ser rebelde. Como a minha mãe é branca, costumo pensar que esse cabelo veio do meu pai. Mas talvez ele seja só o reflexo da mistura que vive em mim. Eu gosto dele, de verdade. Mas, às vezes, queria que alguém me ensinasse a cuidar melhor. A minha mãe sempre diz que está ocupada quando peço ajuda. E eu entendo... mas dói um pouco, mesmo assim. — Ah... eu realmente não sei o que fazer com esse cabelo — murmuro para mim mesma. — Ah! Já sei. Vou fazer um coque. Pego o cabelo com uma das mãos e a escova com a outra. Escovo devagar, para trás, até sentir o couro cabeludo doer só um pouquinho. Depois prendo tudo em um coque baixo, o mais apertado que consigo. Olho para mim no espelho — e, por um instante, parece que está tu do sob controle. Eu encaro o espelho por mais tempo do que deveria. O coque está torto, mas eu finjo que não percebo.Respiro fundo e deixo escapar um suspiro cansado. Me sento na cama, o quarto está silencioso, só o som leve do vento entrando pela janela. De repente, ouço o som da porta se abrindo. Viro-me rápido, surpresa, e vejo minha mãe entrando no quarto, por um instante fico apenas olhando, tentando entender o que está acontecendo. Levanto-me da cama imediatamente. — Mamãe, a senhora precisa de alguma coisa? — pergunto, com a voz leve. O coração me aquece. Ela nunca vem até o meu quarto, e talvez... talvez hoje ela tenha vindo só pra falar comigo. Talvez queira saber como eu estou, ou passar um tempo ao meu lado. Faz tanto tempo que não conversamos direito. Mas ela não responde. Apenas caminha até a cama e coloca uma mala pequena sobre o lençol. — Coloque as suas roupas nesta mala. — diz, sem olhar muito pra mim. Eu franzo o cenho, confusa, mas sorrio. — Nós vamos a algum lugar, mamãe? A ideia me anima de imediato. Imagino nós duas viajando, ah também tem a minha irmã e o meu pai. Então eu imagino nós quatro conhecendo outra cidade, talvez até ficando num hotel. Ela respira fundo, como se estivesse impaciente. — Apenas faça o que eu mandei. E seja rápida. — E então sai, fechando a porta atrás de si. Eu continuo parada por alguns segundos, tentando entender. Ela parece apressada, mas deve estar preparando alguma surpresa. Ah, será que vamos viajar mesmo? Faz tanto tempo que não saímos juntos como uma família. Corro até o guarda-roupa e começo a pegar minhas roupas, uma por uma. Não tenho muitas, mas quero caprichar, escolher as melhores. Enquanto dobro cada peça, sinto o coração bater mais rápido — de tanta alegria que estou sentindo. É bom pensar que, por um instante, talvez ela finalmente esteja me vendo. Mas quando será que eles planejaram essa viagem? O papai tem estado tão cansado ultimamente por causa do trabalho... Talvez tenha sido ideia da mamãe. Ela sempre pensa em tudo. Deve ser uma surpresa, algo pra ele descansar um pouco. Termino de colocar as roupas na mala. Bem... não é exatamente uma mala — é mais como uma pasta preta, dessas cheias de bolsos e zíperes que vivem emperrando. Mesmo assim, tento ajeitar tudo direitinho. Depois me sento na cama, esperando. Meu coração bate acelerado, e um sorriso insiste em ficar no rosto. Faz tanto tempo que eu e ela não fazemos nada juntas. Alguns minutos depois, a porta se abre novamente. Ela entra com a mesma expressão séria de antes. Eu me levanto depressa e, sem pensar muito, corro pra abraçá-la. Eu amo tanto a minha mãe que às vezes nem sei como colocar isso em palavras. Mas ela não me abraça de volta. Fica imóvel, como se não soubesse o que fazer. Deve ter sido o susto, penso. Talvez não esperasse. Afrouxo o abraço, e ela me olha por um instante. — Já colocou as suas roupas na mala? — pergunta. — Sim, mamãe, eu já coloc... — — Ótimo. Então vamos. — Pego a mala e a sigo até a porta do quarto. Descemos as escadas, e o som dos nossos passos ecoa pela casa silenciosa. Quando nos aproximamos da porta da frente, eu paro por um instante. — Mamãe... e a Chloe? E o papai? Eles não vão com a gente? — — Não. Eles não vão conosco. — A resposta sai seca, quase impaciente. Ela parece sempre conter alguma coisa — raiva, talvez. — E onde é que eles estão? — insisto, ainda sorrindo. — Chega de perguntas. Vamos. — Ela abre a porta e faz um gesto para que eu passe primeiro. O vento frio entra pela fresta, já tá quase escurecendo. Dou um passo pra fora, sentindo o coração leve. — Mas onde será que o papai e a Chloe foram a esta hora? — murmuro, olhando pela janela. — E eu nem sequer reparei... Caminhamos até o carro. A mamãe pega a mala das minhas mãos e a coloca no banco de trás. Depois abre a porta da frente e entra. Eu a sigo logo em seguida, animada demais para questionar qualquer coisa. Ela dá partida no carro, e o som do motor quebra o silêncio da rua quase escura. Por um momento, penso em perguntar pra onde estamos indo, mas quando olho para o lado e vejo o rosto dela — sério, imóvel —, as palavras simplesmente não saem. Fico observando o reflexo das luzes passando pelo vidro, brincando com o meu próprio pensamento. Olho pra ela de vez em quando, tentando encontrar algum sinal de carinho, alguma resposta silenciosa, mas nada. Ela mantém os olhos fixos na estrada, como se estivesse fugindo de algo. Então eu apenas me recosto no banco e fico quieta. O carro segue em silêncio, e o som do vento lá fora parece mais alto do que nunca. Mesmo assim, dentro de mim, há uma estranha sensação de paz — como se eu estivesse prestes a viver algo bom, algo que eu esperei por muito tempo. Estou com sono... Vou só fechar os olhos por uns minutos. Quando os abro de novo, tudo está escuro. Por quanto tempo eu dormi? Olho para o lado e vejo a mamãe, ainda séria, com as mãos firmes no volante e o olhar fixo na estrada. O carro está parado. " Deve ser aqui o lugar", penso. Não sei onde estamos, mas ela deve saber. — Mamãe... por que a senhora parou? Já chegamos? — pergunto, ainda meio sonolenta, tentando entender. Ela não olha pra mim. — Pega a bolsa e sai do carro. Seus documentos estão dentro dela. — Fico confusa. — Como assim... sair do carro? — Forço um pequeno sorriso. — Nós não íamos viajar? — O coração começa a bater rápido, e por algum motivo que eu não entendo, o ar parece mais pesado. — Sai do carro, Mara. Você já é maior de idade. Já consegue criar a sua própria vida. — A voz dela é dura. Fria. Tão fria que parece nem vir do corpo que eu abracei há pouco tempo. — Mamãe... como assim? Eu nem conheço esse lugar. Por que está fazendo isso comigo? — As lágrimas começam a subir devagar, como se o corpo inteiro doesse antes mesmo de cair a primeira. — Sai do meu carro agora. Eu não quero te ver nunca mais. — — Mamãe... por que a senhora quer me tirar da sua vida? Eu não tenho pra onde ir... — As lágrimas escorrem, silenciosas. Eu sempre fui calma, mesmo quando tudo dentro de mim desmorona. — Mamãe, não me tira da sua vida. Eu te amo tanto... — Abraço-a com força, o rosto colado ao ombro dela. Sinto o tecido da roupa ficando úmido com o meu choro. Mas ela não se move. Não levanta os braços. Não retribui. — Me diz o que eu fiz de errado... eu prometo que não faço mais. — Ela me encara — e o que sai da boca dela corta mais fundo que qualquer faca. — O erro é você. — Eu me afasto, devagar, como se o ar ao redor tivesse ficado denso demais pra respirar. — E infelizmente não tem como consertar isso. Mas, se você for embora, eu vou estar mais aliviada. Não acredito. Não pode ser verdade. Como eu nunca percebi? Minha mãe... não gosta de mim. Fico parada ali, olhando pra ela, e cada segundo parece durar uma eternidade. Talvez... talvez seja melhor eu ir. Mas ir pra onde? — Mamãe... — O nome dela sai como um sussurro, quase um pedido. Ela não olha pra mim. Abro a porta do carro e saio. O vento frio me atinge o rosto, e o som das folhas se mistura ao barulho distante da estrada. Abro a porta de trás, pego a bolsa e, nesse momento, escuto a voz dela uma última vez: — Nunca mais volte pra minha casa. Nem perturbe a mim e à minha família. — Essas palavras me atravessam. Doem. Doem como se tivessem sido ditas dentro do meu peito. Fecho a porta devagar. O carro parte, e as luzes vermelhas desaparecem na curva. Fico ali, sozinha, segurando a bolsa, tentando entender como respirar de novo. E tudo o que consigo pensar é: "O que eu vou fazer sem você, mamãe?"
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