Capítulo 3

612 Words
“E agora... o que eu vou fazer? Não conheço nenhum lugar onde eu possa ir, nem ninguém que possa me ajudar.” Ainda não consigo acreditar que a minha mãe — a minha própria mãe — me abandonou. Sem saber para onde ir, caminho sem rumo. Ela disse para eu não perturbar ela nem a sua família. Mas e quanto a mim? Eu também não faço parte da sua família? Eu não sou a sua filha? As palavras não param de ecoar na minha cabeça. De repente começo a ouvir muito barulho. “Por que tanto barulho?” — Garota! — sou puxada com força para fora da estrada, a tempo de quase ser atropelada por um carro. — Você quer morrer, por acaso? — A voz vem alta e assustada. Estou tão imersa em pensamentos que nem percebo que já cheguei à cidade — uma cidade grande e movimentada. — Ei! Garota, você está me ouvindo? Estou falando com você! — Ainda meio em choque, demoro alguns segundos para entender o que a mulher à minha frente está dizendo. Respondo devagar: — Eu estou ouvindo, sim. — Você está bem? O que deu em você pra ficar no meio da estrada? — Ela me encara sem entender. — Eu estou bem, só preciso me sentar um pouco. — E é verdade. Minhas pernas estão fracas, e o mundo gira devagar ao meu redor. — Tá bom, vem comigo. Minha casa é aqui perto. Vou te dar um pouco de água, pra você se sentir melhor. — Ela passa um dos braços em volta da minha cintura e me ajuda a andar. Ainda me sinto tonta, mas deixo que ela me conduza. — Pronto, é aqui. Essa é a minha casa. — Ela abre a porta e me deixa entrar primeiro. Ouço o som da porta se fechando atrás de mim. — Senta aqui, não fica de pé. — Obedeço. O sofá é pequeno, mas incrivelmente confortável. Ela sai por um momento e volta com um copo d’água nas mãos. Entrego um sorriso tímido, aceito o copo e agradeço. Ela se senta ao meu lado, observando-me beber. Quando termino, ela respira fundo e começa a fazer perguntas. — Como você se chama? — ela pergunta com uma voz terna, que de alguma forma faz eu me sentir um pouco melhor. — Eu me chamo Mara — respondo, meio devagar. — Hmm... Mara. Nome bonito. E o que você fazia no meio da estrada, querida? — Eu não percebi que estava no meio da estrada. Não até a senhora me puxar. Obrigada. — Agradeço com um pequeno sorriso, porque depois do que aconteceu hoje, eu simplesmente não consigo rir. — Não precisa me agradecer. E não me chame de senhora — diz ela, com um sorriso leve. — Me chame de Gloria. A voz dela é tão carinhosa, tão diferente de tudo o que eu ouvi nas últimas horas. Talvez fosse disso que eu precisava... alguém que falasse comigo assim. — Eu já estou me sentindo bem. Acho que é melhor eu ir agora — digo, me levantando. — Mas você tem para onde ir? — ela pergunta, erguendo-se também. — Não. Eu não tenho para onde ir, mas eu posso me virar. — Como assim, se virar? — Ela franze o cenho. — Fica aqui esta noite. Amanhã a gente conversa. — Eu realmente não quero incomodar — murmuro. Ela já me salvou de um carro, e agora ainda quer me deixar dormir aqui. — Você não será incômodo algum, querida. Eu insisto. Olho para ela por um instante, sentindo um nó apertar o peito. — Está bem... — respondo baixinho.
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