“E agora... o que eu vou fazer?
Não conheço nenhum lugar onde eu possa ir, nem ninguém que possa me ajudar.”
Ainda não consigo acreditar que a minha mãe — a minha própria mãe — me abandonou.
Sem saber para onde ir, caminho sem rumo.
Ela disse para eu não perturbar ela nem a sua família.
Mas e quanto a mim? Eu também não faço parte da sua família?
Eu não sou a sua filha?
As palavras não param de ecoar na minha cabeça. De repente começo a ouvir muito barulho.
“Por que tanto barulho?”
— Garota! — sou puxada com força para fora da estrada, a tempo de quase ser atropelada por um carro.
— Você quer morrer, por acaso? — A voz vem alta e assustada.
Estou tão imersa em pensamentos que nem percebo que já cheguei à cidade — uma cidade grande e movimentada.
— Ei! Garota, você está me ouvindo? Estou falando com você! —
Ainda meio em choque, demoro alguns segundos para entender o que a mulher à minha frente está dizendo.
Respondo devagar:
— Eu estou ouvindo, sim.
— Você está bem? O que deu em você pra ficar no meio da estrada? —
Ela me encara sem entender.
— Eu estou bem, só preciso me sentar um pouco. —
E é verdade. Minhas pernas estão fracas, e o mundo gira devagar ao meu redor.
— Tá bom, vem comigo. Minha casa é aqui perto. Vou te dar um pouco de água, pra você se sentir melhor. —
Ela passa um dos braços em volta da minha cintura e me ajuda a andar. Ainda me sinto tonta, mas deixo que ela me conduza.
— Pronto, é aqui. Essa é a minha casa. —
Ela abre a porta e me deixa entrar primeiro. Ouço o som da porta se fechando atrás de mim.
— Senta aqui, não fica de pé. —
Obedeço. O sofá é pequeno, mas incrivelmente confortável.
Ela sai por um momento e volta com um copo d’água nas mãos.
Entrego um sorriso tímido, aceito o copo e agradeço.
Ela se senta ao meu lado, observando-me beber.
Quando termino, ela respira fundo e começa a fazer perguntas.
— Como você se chama? — ela pergunta com uma voz terna, que de alguma forma faz eu me sentir um pouco melhor.
— Eu me chamo Mara — respondo, meio devagar.
— Hmm... Mara. Nome bonito. E o que você fazia no meio da estrada, querida?
— Eu não percebi que estava no meio da estrada. Não até a senhora me puxar. Obrigada. — Agradeço com um pequeno sorriso, porque depois do que aconteceu hoje, eu simplesmente não consigo rir.
— Não precisa me agradecer. E não me chame de senhora — diz ela, com um sorriso leve. — Me chame de Gloria.
A voz dela é tão carinhosa, tão diferente de tudo o que eu ouvi nas últimas horas. Talvez fosse disso que eu precisava... alguém que falasse comigo assim.
— Eu já estou me sentindo bem. Acho que é melhor eu ir agora — digo, me levantando.
— Mas você tem para onde ir? — ela pergunta, erguendo-se também.
— Não. Eu não tenho para onde ir, mas eu posso me virar.
— Como assim, se virar? — Ela franze o cenho. — Fica aqui esta noite. Amanhã a gente conversa.
— Eu realmente não quero incomodar — murmuro. Ela já me salvou de um carro, e agora ainda quer me deixar dormir aqui.
— Você não será incômodo algum, querida. Eu insisto.
Olho para ela por um instante, sentindo um nó apertar o peito.
— Está bem... — respondo baixinho.