“ Eu consegui...Eu consegui tudo. Tudo o que eu sempre quis.”
Um pequeno sorriso escapa dos meus lábios, e por um segundo eu acredito nisso.
Por um segundo, eu acredito que venci alguma coisa — mesmo sem saber o quê.
Mara. Mara.
Ouço meu nome ecoar dentro da cabeça, e quando abro os olhos, tudo parece confuso.
As paredes são estranhas, o teto é diferente, e por um instante não sei onde estou.
Mas as lembranças vêm... lentas, espaçadas, como se cada uma precisasse pedir permissão pra voltar.
Então eu vejo a senhora Glória, sentada ao meu lado, com aquele sorriso pequeno que transmite mais calma do que qualquer palavra.
— Bom dia, senhora Glória. — Sento-me na cama, ajeitando o lençol.
— Bom dia, querida. Como foi a sua noite? Conseguiu dormir? — Ela acaricia minhas costas com um gesto tão leve que chega a me assustar.
Não estou acostumada a esse tipo de toque. Gentileza sempre me pareceu algo raro demais.
— Eu dormi bem. Obrigada por me deixar passar a noite aqui.
— Não tem de quê, minha querida.
Ela se levanta devagar, ajeita a roupa.
— Eu queria poder ficar mais um pouco, mas preciso ir trabalhar. Então a gente se vê quando eu voltar.
Eu também me levanto.
— Obrigada, senhora, mas... eu não posso mais ficar.
— Como assim? Você ainda nem me contou o que aconteceu ontem.
— Eu não me sinto bem em ficar aqui. A senhora nem me conhece.
Ela ri baixinho, como se a minha resposta fosse doce demais pra ser levada a sério.
— E o que é que tem? A gente não precisa conhecer alguém pra ajudar.
Por algum motivo, as palavras dela me desarmam.
É estranho quando alguém fala com tanto coração, sem querer nada em troca.
— É verdade... a senhora tem razão.
Ela pega a bolsa e dá um suspiro.
— Eu realmente preciso ir agora. Tenho que arranjar alguém pra cuidar das crianças. — A voz dela se perde enquanto caminha até a cozinha.
Daqui do quarto, sinto o cheiro de café e pão fresco.
— Eu preparei o café da manhã pra você, está na geladeira.
— Obrigada, senhora Glória. A senhora tem filhos?
— Tenho um, mas já é adulto. Por quê? — pergunta, distraída, colocando algo na bolsa.
— É que a senhora disse que precisava arranjar alguém pra cuidar das crianças...
Ela sorri, e o rosto dela ganha uma doçura que eu não tinha percebido antes.
— Ah... você entendeu errado. Eu estava falando dos filhos dos meus patrões. Eles querem que eu encontre uma boa moça pra cuidar deles.
Sento no pequeno sofá da sala, e meus olhos seguem os movimentos dela — o jeito como organiza cada coisa com calma, como se nada no mundo precisasse ser apressado.
— E a senhora ainda não achou ninguém?
— O problema não é achar alguém. É confiar. — Ela se vira pra mim. — Eles querem que eu encontre uma moça em quem eu confie de verdade pra cuidar das crianças.
Fico em silêncio.
Ela ajeita o cabelo com os dedos, e por um instante, nossos olhares se encontram.
Desvio. Sempre desvio.
Olhar nos olhos das pessoas me dá a sensação de que elas podem ver tudo o que eu penso.
Mas ela continua olhando pra mim.
E de repente, seus olhos se iluminam.
— Mara! — diz o meu nome com tanta empolgação que eu quase dou um passo pra trás.
— Senhora Glória? — murmuro.
Ela caminha até mim e para bem na minha frente, com um sorriso tão largo que parece impossível que caiba num rosto só.
— Mara... acho que acabei de encontrar a babá perfeita.
Por um momento, eu não entendo.
Depois, o silêncio vem — aquele tipo de silêncio que apenas se estende, como um abraço que ainda não aconteceu.
— An! Mas a senhora acabou de dizer que ainda precisava encontrar alguém... — franzo a testa, confusa.
— É você, Mara. — Ela me olha com uma expressão esperançosa, como se de repente tudo fizesse sentido.
— Eu? Mas eu nem... — gaguejo, tentando entender. — A senhora nem me conhece. E a senhora mesma disse que precisava ser alguém de confiança.
Como é que ela pensou justo em mim? Ela nem sabe quem eu sou.
— É verdade, eu não te conheço. — Ela dá um pequeno sorriso, o tipo de sorriso que parece enxergar o que os olhos não veem. — Mas não me parece que você deixaria de cuidar bem de alguém. Ou estou errada?
Fico em silêncio por um instante.
As lembranças vêm — pequenas, fragmentadas — de quando eu ajudava minha mãe a cuidar da minha irmã.
De como eu gostava de vê-la dormir, e de como me sentia importante por ser útil em alguma coisa.
— Eu sempre gostei de ajudar a minha mãe com a minha irmã mais nova. — digo, com a voz mais baixa do que pretendia.
— Oh! Você tem uma irmã? — Os olhos dela se iluminam. — Tá vendo? Você tem jeito pra isso.
Ela se afasta um pouco, passa as mãos pela roupa, ajeita o cabelo com calma — e o sorriso dela não some nem por um segundo.
— É... talvez eu tenha jeito pra isso, sim. — murmuro, olhando pra ela.
— Então? O que me diz?
Meu peito aperta. É estranho quando a vida oferece algo bom sem exigir dor em troca.
— Eu... eu aceito. — respondo, quase num sussurro.
Por um instante, ela apenas me observa, como se estivesse tentando guardar aquele momento.
E eu também fico ali, parada, com a sensação de que acabei de aceitar mais do que um emprego — talvez um recomeço.