Capítulo 4

962 Words
“ Eu consegui...Eu consegui tudo. Tudo o que eu sempre quis.” Um pequeno sorriso escapa dos meus lábios, e por um segundo eu acredito nisso. Por um segundo, eu acredito que venci alguma coisa — mesmo sem saber o quê. Mara. Mara. Ouço meu nome ecoar dentro da cabeça, e quando abro os olhos, tudo parece confuso. As paredes são estranhas, o teto é diferente, e por um instante não sei onde estou. Mas as lembranças vêm... lentas, espaçadas, como se cada uma precisasse pedir permissão pra voltar. Então eu vejo a senhora Glória, sentada ao meu lado, com aquele sorriso pequeno que transmite mais calma do que qualquer palavra. — Bom dia, senhora Glória. — Sento-me na cama, ajeitando o lençol. — Bom dia, querida. Como foi a sua noite? Conseguiu dormir? — Ela acaricia minhas costas com um gesto tão leve que chega a me assustar. Não estou acostumada a esse tipo de toque. Gentileza sempre me pareceu algo raro demais. — Eu dormi bem. Obrigada por me deixar passar a noite aqui. — Não tem de quê, minha querida. Ela se levanta devagar, ajeita a roupa. — Eu queria poder ficar mais um pouco, mas preciso ir trabalhar. Então a gente se vê quando eu voltar. Eu também me levanto. — Obrigada, senhora, mas... eu não posso mais ficar. — Como assim? Você ainda nem me contou o que aconteceu ontem. — Eu não me sinto bem em ficar aqui. A senhora nem me conhece. Ela ri baixinho, como se a minha resposta fosse doce demais pra ser levada a sério. — E o que é que tem? A gente não precisa conhecer alguém pra ajudar. Por algum motivo, as palavras dela me desarmam. É estranho quando alguém fala com tanto coração, sem querer nada em troca. — É verdade... a senhora tem razão. Ela pega a bolsa e dá um suspiro. — Eu realmente preciso ir agora. Tenho que arranjar alguém pra cuidar das crianças. — A voz dela se perde enquanto caminha até a cozinha. Daqui do quarto, sinto o cheiro de café e pão fresco. — Eu preparei o café da manhã pra você, está na geladeira. — Obrigada, senhora Glória. A senhora tem filhos? — Tenho um, mas já é adulto. Por quê? — pergunta, distraída, colocando algo na bolsa. — É que a senhora disse que precisava arranjar alguém pra cuidar das crianças... Ela sorri, e o rosto dela ganha uma doçura que eu não tinha percebido antes. — Ah... você entendeu errado. Eu estava falando dos filhos dos meus patrões. Eles querem que eu encontre uma boa moça pra cuidar deles. Sento no pequeno sofá da sala, e meus olhos seguem os movimentos dela — o jeito como organiza cada coisa com calma, como se nada no mundo precisasse ser apressado. — E a senhora ainda não achou ninguém? — O problema não é achar alguém. É confiar. — Ela se vira pra mim. — Eles querem que eu encontre uma moça em quem eu confie de verdade pra cuidar das crianças. Fico em silêncio. Ela ajeita o cabelo com os dedos, e por um instante, nossos olhares se encontram. Desvio. Sempre desvio. Olhar nos olhos das pessoas me dá a sensação de que elas podem ver tudo o que eu penso. Mas ela continua olhando pra mim. E de repente, seus olhos se iluminam. — Mara! — diz o meu nome com tanta empolgação que eu quase dou um passo pra trás. — Senhora Glória? — murmuro. Ela caminha até mim e para bem na minha frente, com um sorriso tão largo que parece impossível que caiba num rosto só. — Mara... acho que acabei de encontrar a babá perfeita. Por um momento, eu não entendo. Depois, o silêncio vem — aquele tipo de silêncio que apenas se estende, como um abraço que ainda não aconteceu. — An! Mas a senhora acabou de dizer que ainda precisava encontrar alguém... — franzo a testa, confusa. — É você, Mara. — Ela me olha com uma expressão esperançosa, como se de repente tudo fizesse sentido. — Eu? Mas eu nem... — gaguejo, tentando entender. — A senhora nem me conhece. E a senhora mesma disse que precisava ser alguém de confiança. Como é que ela pensou justo em mim? Ela nem sabe quem eu sou. — É verdade, eu não te conheço. — Ela dá um pequeno sorriso, o tipo de sorriso que parece enxergar o que os olhos não veem. — Mas não me parece que você deixaria de cuidar bem de alguém. Ou estou errada? Fico em silêncio por um instante. As lembranças vêm — pequenas, fragmentadas — de quando eu ajudava minha mãe a cuidar da minha irmã. De como eu gostava de vê-la dormir, e de como me sentia importante por ser útil em alguma coisa. — Eu sempre gostei de ajudar a minha mãe com a minha irmã mais nova. — digo, com a voz mais baixa do que pretendia. — Oh! Você tem uma irmã? — Os olhos dela se iluminam. — Tá vendo? Você tem jeito pra isso. Ela se afasta um pouco, passa as mãos pela roupa, ajeita o cabelo com calma — e o sorriso dela não some nem por um segundo. — É... talvez eu tenha jeito pra isso, sim. — murmuro, olhando pra ela. — Então? O que me diz? Meu peito aperta. É estranho quando a vida oferece algo bom sem exigir dor em troca. — Eu... eu aceito. — respondo, quase num sussurro. Por um instante, ela apenas me observa, como se estivesse tentando guardar aquele momento. E eu também fico ali, parada, com a sensação de que acabei de aceitar mais do que um emprego — talvez um recomeço.
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