Capítulo 5

1097 Words
Aceitei a ideia da senhora Glória de cuidar dos filhos de seus patrões porque…bem, porque eu não queria ficar parada, sem fazer nada — e talvez, no fundo, quisesse entender como é ter um emprego, sentir que posso sustentar a mim mesma. A senhora Glória me deu abrigo, e, de certa forma, sinto que devo algo a ela. Mesmo tentando ocupar a cabeça, eu ainda penso na minha mãe. Não consigo deixá-la pra trás. Por mais que ela me afaste, por mais que diga que não quer me ver, é nela que penso toda vez que respiro. E sei, lá no fundo, que vou procurá-la daqui a alguns dias. Mesmo que ela não queira. O ônibus freia com um solavanco leve e eu saio dos meus pensamentos. — Vamos, Mara. — A senhora Glória se levanta rápido e segura minha mão. Descemos juntas. O vento da manhã é frio, e o céu parece limpo demais para um dia comum. Seguimos pela calçada; o passo dela firme, o meu ligeiramente apressado. Gosto de caminhar com ela. A senhora Glória é o tipo de pessoa que parece conhecer o caminho de qualquer lugar. Sempre segura, sempre sabendo o que vem depois. As ruas mudam lentamente enquanto caminhamos. As casas pequenas ficam para trás, e o silêncio começa a crescer. Os portões são maiores, os jardins mais cuidados. Há algo diferente no ar — como se o tempo aqui passasse devagar, sem pressa de acabar. Quando chegamos ao portão do condomínio, o segurança se adianta. Ele é alto, de uniforme impecável, e sorri discretamente. — Bom dia, dona Glória. — — Bom dia, Robert. — O jeito como fala mostra que já a conhece há anos. Ele me observa de relance, sem desconfiança, apenas curiosidade. — Vai a pé até lá hoje? — — Vou sim. O dia está bonito, e é bom caminhar um pouco. — Robert abre o portão, acena e sorri de leve. — Bom dia, então, pras duas. — Bom dia, Robert. — Glória agradece, e seguimos. O condomínio é tranquilo. As ruas são largas, alinhadas por árvores que parecem ter sido plantadas sob a mesma regra. Algumas crianças passam de bicicleta, um homem caminha com o cachorro, o cheiro de grama molhada invade o ar. As casas são grandes, mas não opressoras. Todas têm uma beleza discreta — fachadas claras, janelas amplas, jardins floridos. O tipo de lugar onde nada parece urgente. A senhora Glória anda no mesmo ritmo de sempre, e eu observo tudo, como quem tenta memorizar. Ela me contou que “a família precisa de alguém para cuidar das crianças. O Sr. Gideon pediu que eu encontrasse alguém de confiança, já que a senhora Vivian não tem estado bem.” Quando paramos diante de uma das casas, sinto um aperto no peito. Não sei explicar o motivo. O muro é baixo, coberto por heras verdes; o portão de ferro preto, simples, bonito. O jardim é cheio de vida — rosas, lavandas, um banco de madeira embaixo de uma árvore. Tudo parece guardar histórias que eu não conheço. A senhora Glória abre o portão com naturalidade. Ela conhece o código de cor, a rotina do condomínio. Isso me faz entender, sem precisar perguntar, que ela trabalha aqui há muito tempo. — Vamos, querida. — Caminhamos pelo caminho de pedras até a porta principal. Quando Glória toca a campainha, não espero ouvir passos, mas o som da casa chega até mim: uma panela batendo, uma voz distante, algo caindo no andar de cima. A porta se abre. Uma mulher de avental branco aparece, enxugando as mãos num pano. — Senhora Glória! — Ela sorri, surpresa, mas sem estranhamento. — Achei que pela hora talvez não viesse, já que a senhora é sempre tão pontual. — É, querida, os dias são diferentes. — Glória devolve o sorriso. — Está tudo bem? — Tudo sim. — — A senhora Vivian está acordada? — a Sra Glória pergunta a outra mulher, hesitando por um instante. — Está sim. Sempre acorda cedo. Glória faz um gesto para que eu entre, e seguimos até a cozinha. O lugar é amplo, claro, bonito — mas de um jeito que não é frio. Cheira a pão recém-assado e chá. — Fique aqui, Mara. Eu já volto. — Ela ajeita o lenço no pescoço, lança um olhar tranquilo para mim e desaparece pelo corredor. Fico parada, tentando não tocar em nada, observando cada detalhe com cuidado, como se um movimento brusco pudesse quebrar o silêncio perfeito da casa. Os móveis de madeira escura brilham à luz da manhã. Quadros pequenos nas paredes mostram paisagens suaves, crianças sorrindo. Tudo aqui parece cuidadosamente pensado para não incomodar ninguém. O tempo passa devagar. Uns minutos, talvez mais. Então, ouço passos no corredor. Um par de saltos leves, ritmados, aproxima-se da cozinha. Quando a senhora Glória retorna, ela não está sozinha. Atrás dela, uma mulher de pele clara e expressão cansada, mas firme. O olhar dela é intenso, atravessa a gente sem pressa. Ela para na porta da cozinha e observa em silêncio antes de falar. — Glória. — — Senhora. — É ela? — Sim, senhora Vivian. — Ela dá um passo à frente, a luz da janela toca o rosto dela. É bonita. Serena. Elegante, mas há um cansaço que a torna real. — Essa é a Mara. — Glória coloca a mão nas minhas costas, mas de forma leve, quase protetora. — Ela é de confiança, pensei que poderia ajudar com as crianças. Vivian continua me observando, sem pressa. — Quantos anos tem? — — Dezoito. — — Já trabalhou antes? — — Não em casas, senhora. Mas sei cuidar. Ela cruza os braços, avaliando cada detalhe: minha postura, o olhar, o jeito que me mantenho em silêncio. — E por que quer trabalhar aqui? Respiro fundo, mantendo a calma. — Porque vocês precisam de alguém que cuide das crianças… e eu sei fazer isso. Ela não responde de imediato. Suspira, olha para Glória e finalmente diz, com a voz calma e firme: — Mostre as crianças a ela, Glória. Quero ver como reagem. Antes de se afastar, acrescenta: — E, por favor, mantenham a casa em silêncio. Eu preciso de silêncio. O som dos saltos desaparece pelo corredor. A senhora Glória solta o ar devagar, como quem vinha prendendo desde o início. — Vamos, Mara. — Balanço a cabeça e a sigo. Subimos as escadas. O ar parece mais leve, mas só um pouco. E enquanto subo, penso que talvez o silêncio daquela mulher seja o som mais alto que já ouvi.
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