Aceitei a ideia da senhora Glória de cuidar dos filhos de seus patrões porque…bem, porque eu não queria ficar parada, sem fazer nada — e talvez, no fundo, quisesse entender como é ter um emprego, sentir que posso sustentar a mim mesma.
A senhora Glória me deu abrigo, e, de certa forma, sinto que devo algo a ela.
Mesmo tentando ocupar a cabeça, eu ainda penso na minha mãe.
Não consigo deixá-la pra trás.
Por mais que ela me afaste, por mais que diga que não quer me ver, é nela que penso toda vez que respiro.
E sei, lá no fundo, que vou procurá-la daqui a alguns dias.
Mesmo que ela não queira.
O ônibus freia com um solavanco leve e eu saio dos meus pensamentos.
— Vamos, Mara. — A senhora Glória se levanta rápido e segura minha mão.
Descemos juntas.
O vento da manhã é frio, e o céu parece limpo demais para um dia comum.
Seguimos pela calçada; o passo dela firme, o meu ligeiramente apressado.
Gosto de caminhar com ela.
A senhora Glória é o tipo de pessoa que parece conhecer o caminho de qualquer lugar.
Sempre segura, sempre sabendo o que vem depois.
As ruas mudam lentamente enquanto caminhamos.
As casas pequenas ficam para trás, e o silêncio começa a crescer.
Os portões são maiores, os jardins mais cuidados.
Há algo diferente no ar — como se o tempo aqui passasse devagar, sem pressa de acabar.
Quando chegamos ao portão do condomínio, o segurança se adianta.
Ele é alto, de uniforme impecável, e sorri discretamente.
— Bom dia, dona Glória. —
— Bom dia, Robert. —
O jeito como fala mostra que já a conhece há anos.
Ele me observa de relance, sem desconfiança, apenas curiosidade.
— Vai a pé até lá hoje? —
— Vou sim. O dia está bonito, e é bom caminhar um pouco. —
Robert abre o portão, acena e sorri de leve.
— Bom dia, então, pras duas.
— Bom dia, Robert. — Glória agradece, e seguimos.
O condomínio é tranquilo.
As ruas são largas, alinhadas por árvores que parecem ter sido plantadas sob a mesma regra.
Algumas crianças passam de bicicleta, um homem caminha com o cachorro, o cheiro de grama molhada invade o ar.
As casas são grandes, mas não opressoras.
Todas têm uma beleza discreta — fachadas claras, janelas amplas, jardins floridos.
O tipo de lugar onde nada parece urgente.
A senhora Glória anda no mesmo ritmo de sempre, e eu observo tudo, como quem tenta memorizar.
Ela me contou que “a família precisa de alguém para cuidar das crianças. O Sr. Gideon pediu que eu encontrasse alguém de confiança, já que a senhora Vivian não tem estado bem.”
Quando paramos diante de uma das casas, sinto um aperto no peito.
Não sei explicar o motivo.
O muro é baixo, coberto por heras verdes; o portão de ferro preto, simples, bonito.
O jardim é cheio de vida — rosas, lavandas, um banco de madeira embaixo de uma árvore.
Tudo parece guardar histórias que eu não conheço.
A senhora Glória abre o portão com naturalidade.
Ela conhece o código de cor, a rotina do condomínio.
Isso me faz entender, sem precisar perguntar, que ela trabalha aqui há muito tempo.
— Vamos, querida. —
Caminhamos pelo caminho de pedras até a porta principal.
Quando Glória toca a campainha, não espero ouvir passos, mas o som da casa chega até mim: uma panela batendo, uma voz distante, algo caindo no andar de cima.
A porta se abre.
Uma mulher de avental branco aparece, enxugando as mãos num pano.
— Senhora Glória! — Ela sorri, surpresa, mas sem estranhamento. — Achei que pela hora talvez não viesse, já que a senhora é sempre tão pontual.
— É, querida, os dias são diferentes. — Glória devolve o sorriso. — Está tudo bem?
— Tudo sim. —
— A senhora Vivian está acordada? — a Sra Glória pergunta a outra mulher, hesitando por um instante.
— Está sim. Sempre acorda cedo.
Glória faz um gesto para que eu entre, e seguimos até a cozinha.
O lugar é amplo, claro, bonito — mas de um jeito que não é frio.
Cheira a pão recém-assado e chá.
— Fique aqui, Mara. Eu já volto. —
Ela ajeita o lenço no pescoço, lança um olhar tranquilo para mim e desaparece pelo corredor.
Fico parada, tentando não tocar em nada, observando cada detalhe com cuidado, como se um movimento brusco pudesse quebrar o silêncio perfeito da casa.
Os móveis de madeira escura brilham à luz da manhã.
Quadros pequenos nas paredes mostram paisagens suaves, crianças sorrindo.
Tudo aqui parece cuidadosamente pensado para não incomodar ninguém.
O tempo passa devagar.
Uns minutos, talvez mais.
Então, ouço passos no corredor.
Um par de saltos leves, ritmados, aproxima-se da cozinha.
Quando a senhora Glória retorna, ela não está sozinha.
Atrás dela, uma mulher de pele clara e expressão cansada, mas firme.
O olhar dela é intenso, atravessa a gente sem pressa.
Ela para na porta da cozinha e observa em silêncio antes de falar.
— Glória. —
— Senhora.
— É ela?
— Sim, senhora Vivian. —
Ela dá um passo à frente, a luz da janela toca o rosto dela.
É bonita. Serena. Elegante, mas há um cansaço que a torna real.
— Essa é a Mara. — Glória coloca a mão nas minhas costas, mas de forma leve, quase protetora. — Ela é de confiança, pensei que poderia ajudar com as crianças.
Vivian continua me observando, sem pressa.
— Quantos anos tem? —
— Dezoito. —
— Já trabalhou antes? —
— Não em casas, senhora. Mas sei cuidar.
Ela cruza os braços, avaliando cada detalhe: minha postura, o olhar, o jeito que me mantenho em silêncio.
— E por que quer trabalhar aqui?
Respiro fundo, mantendo a calma.
— Porque vocês precisam de alguém que cuide das crianças… e eu sei fazer isso.
Ela não responde de imediato. Suspira, olha para Glória e finalmente diz, com a voz calma e firme:
— Mostre as crianças a ela, Glória. Quero ver como reagem.
Antes de se afastar, acrescenta:
— E, por favor, mantenham a casa em silêncio. Eu preciso de silêncio.
O som dos saltos desaparece pelo corredor.
A senhora Glória solta o ar devagar, como quem vinha prendendo desde o início.
— Vamos, Mara. —
Balanço a cabeça e a sigo.
Subimos as escadas.
O ar parece mais leve, mas só um pouco.
E enquanto subo, penso que talvez o silêncio daquela mulher seja o som mais alto que já ouvi.