Padre Miguel, Rio de Janeiro
Foi o pior domingo da vida, mas consegui chegar ao show com certa antecedência. A fachada toda preta com a freira e o padre tornavam entrar ali extremamente desconfortável.
Uma moça simpática me recebeu. Nunca vi e ela me levou a uma sala com algumas poltronas e aparência aconchegante.
Tinha um bistrô num canto da sala e o microfone.
A moça me levou lá e me ajudou a testar o microfone.
O primeiro momento da vergonha — que eu citaria no show — foi a dificuldade de lidar com um banco tão alto!
O bom é que testei as piadas com o pessoal. Deixei o banco no palco porque seria ótimo para ilustrar a cena.
Alguns conhecidos do morro chegaram com Carlos, ele era o chefe, fundou a segunda maior facção carioca. Cuidava do morro como parte da família, conhecia todo mundo pelo nome.
— Baixinha… onde chegamos, hein! — Ele riu.
— ‘Pra você ver! — ri. — Obrigada pela oportunidade, tio… Não decepcionarei. — Aproximei-me para abraçá-lo.
— Se soubesse que era você, tinha aumentado o cachê. Como está a mãezona? — perguntou, beijando minha testa.
— Complicado, ‘né!? — dei de ombros. — A saúde não tem mostrado nenhum sinal de melhora… agora está esquecida.
— Vai melhorar… vai melhorar! — Ele sorriu largo.
Assenti e segui ao meu lugar. Serviram-me água e perguntaram o que eu comeria e beberia pelo resto da noite.
Foi até chique montar meu cardápio.
Em seguida, tirei meu caderno para fazer minhas anotações. Um novo texto nasceu para falar daquele dia, isso exigiria muito mais improviso, mas poderia ficar bom!
Pouco antes de abrir, um grupo de riquinhos entrou.
Eram oito: seis nerds, um possível valentão com a namorada. O valentão era o típico stronda dos anos 2000, branquinho, alto, vestido como rico, tinha cabelo médio castanho-claro, meio loiro, olhos claros… até fortinho.
A namorada era linda. Ruiva, devia ter minha altura, mas um corpão invejável. A maquiagem e a roupa eram para provocar. Eles foram recepcionados pela moça simpática.
Foram levados a um dos sofás e servidos. Os namorados sentaram afastados, estranhei, mas segui com meu trabalho.
— Boa noite, senhoras e senhores — sorri-lhes ao iniciar o show. — É um prazer recebê-los em nosso humilde lar.
Sorri de canto de boca, olhando-os e isso já foi suficiente para rirem, mas retomei minha introdução:
— Sou Sofia, a arlequina baixinha, por motivos óbvios, né!? — dei de ombros. — Hoje trago reflexões antes de relaxarem.
Um casal mais animado do canto puxou as poucas palmas.
— É difícil dizer como foi receber a notícia de um stand-up numa casa de swing — ri. — Pensei até que estaria de lingerie…
O pessoal riu.
— Não sei quantos de vocês estão acostumados com o ambiente, mas eu nunca vim num lugar assim — ri. — Achei fino e muito chique! — Levantei para andar pelo palco.
Com essa frase, identifiquei quem nunca foi numa casa de swing, como eu. Segui com o show mirando nessas pessoas e, desse ponto, consegui brincar um pouco com todo mundo.
Era estranho, alguns casais chegavam com suas moças nervosas e após um papo com o companheiro, eles se juntavam para conversar e depois saíam, entrando num corredor.
Gente veio e foi; mas o grupo de riquinhos continuou.
Em dado momento, o valentão se levantou sozinho e foi ao corredor. O resto do pessoal pareceu estar curtindo e tive a certeza que a namorada do valentão gostava de menina quando ela deu em cima de uma moça que chegou sozinha.
Ousada, ela arrastou a moça para o corredor com a mão em sua cintura — fiquei chocada, mas segui meu show.
Seriam cerca de duas horas de show.
Na metade, uns conhecidos passaram com certa pressa e isso me deixou nervosa, mas consegui seguir o baile.
Em dado momento, Ricardo entrou e se aproximou.
— Entra… ‘tá tranquilo! — falou para mim.
Franzi o cenho, mas ele deu as costas e saiu… apenas.
O primeiro estalo do lado de fora me fez seguir ao corredor por onde todo mundo seguia. Alguns dos rapazes do movimento deixavam as portas, indo para fora.
— Baixinha, entra! — Carlos me pegou no ombro e me empurrou para dentro de um cômodo.
Não entrou, mas ouvi a porta trancar.
— Merd*! — xinguei, dando um soco na porta.
Não era possível que a noite do maior cachê da minha vida seria estragada por um maldito conflito — eu só pensava que não deveria ter pensado que tudo daria certo assim.
— Parecia mais divertida no palco. — Alguém falou às minhas costas. — Baixinhas são bem nervosas mesmo — riu.
Odiei o tom de voz. Virando, avistei o tal valentão sentado.
Aparentemente bebia uísque e estava recostado de pernas cruzadas numa espécie de divã. A garrafa de uísque estava na metade e ele deu um generoso gole para encher o copo.
— Haha… já pode pegar o meu cachê da noite! — ironizei.
— Senta… Só tenho uísque. — Ele deu de ombros. — Muito próxima do Carlos? — perguntou, levantando para me servir.
— Não tanto… — suspirei, indo ao outro sofá para sentar.
— O que há de tão r**m na sua vida? — Ele perguntou ao se sentar. — Arlequins deviam ter uma vida mais sorridente.
— Se a vida fosse boa, eu não fazia piada! — dei de ombros, dando um generoso gole no uísque. — Do contrário, estaria ocupada usufruindo do quão f*da ela seria — suspirei.
— Um bom ponto! — Ele riu.
A troca de tiros começou lá fora e eu fechei os olhos para respirar fundo. Rezava para que as coisas não agravassem, que Matheus estivesse em casa, que nada ocorresse com a mãe.
— Parece muito nervosa… — Ele falou.
— Minha família — suspirei. — Essa semana só piora!
— O lado bom é que está acabando, linda — sorriu.
Conhecia aquele sorriso e não fiquei feliz em vê-lo.
— Olha, eu tenho um namorado e ele é muito ciumento! — reclamei, meneando a cabeça. — Não quero te dar um fora, nem nada disso… mas, eu não mereço mais estresse.
— Que coincidência, eu também namoro — riu.
— Nossa! Essa foi sua melhor? — gargalhei.
— Te fiz rir… funcionou, não? — deu de ombros.
— Pedreiros também me fazem rir e nem por isso eu saio por aí dando mais moral para eles — ironizei.
Ele apenas riu com um ar bem arrogante e se recostou para continuar bebendo o uísque, como se não tivesse estourado a terceira guerra lá fora.
— A namorada deve ficar chateada… domingo à noite e você procurando r**o de saia numa casa de swing — provoquei.
— Estou aqui a trabalho… conseguir uma f*da é uma tentativa que pode ou não frutificar… depende de você.
— É muito mauricinho. — Revirei os olhos, suspirando.
De novo, sua resposta foi: rir. Dessa vez, ele ficou me olhando até terminar o copo de uísque, se serviu de novo e recostou a cabeça, respirando fundo.
Quando a garrafa acabou, ele se levantou para ir à porta — deu para perceber o volume na cintura… não era gente boa!
— O tio trancou — falei.
— Ótimo… acabou meu uísque! — suspirou.
Meneando a cabeça, ele foi a mesinha no canto onde tinha um cooler com duas garrafas de vodca e algumas cervejas.
— Servida? — Ele ergueu uma vodca.
— Se quer me embebedar, não vai funcionar.
— Isso é um sim? — Olhou sobre os ombros.