V. A Miséria e Suas Faces

1324 Words
Bangu, Rio de Janeiro — Pois é, senhores… tudo acontece com uma normalidade tão estranha em Bangu, que, após uma cena de faroeste na minha casa, eu saí com toda normalidade… para o baile! — ri. A minha sexta-feira caótica virou texto, claro. Ricardo conseguiu que eu abrisse o show de um famosinho no sábado e lá estava eu testando o novo texto. Foi um dos poucos textos tão baseados na realidade, que pouco precisei florear. A maior parte eram situações reais, envolvendo a sexta-feira ou dias iguais, em forma de piada. No fim, todos aplaudiram bastante e eu anunciei o comediante. Trocamos meia dúzia de piadas no palco e desci. Claro que precisei lidar com a cara emburrada de Ricardo, mas mantive o meu melhor sorriso, tentando burlar aquilo. — Oi, amor… o que achou? — Eu o beijei. — Sempre maravilhosa. — Ele envolveu minha cintura. — Tem um negócio para uns amigos… devem dar um barão. Arregalei os olhos e até me engasguei. — U-um barão!? — Não conseguia acreditar. — Não é um lugar certo, mas imaginei que gostaria de saber e… talvez… queria fazer uma paradinha — deu de ombros. — Coisa do movimento, ‘né!? — Levantei uma sobrancelha. Ele assentiu com a cabeça. — Vai ser suave… sem gente com arma na mão, nem nada disso. É uma parada mais de elite, já que um pessoal do colarinho branco deve estar misturado com gente normal lá. — Onde? — Padre do Prazer… — Ele riu. Olhei para ele, pensando se ele estava me zoando. Padre do Prazer era uma casa de swing, conhecida como inferninho. Diferenciado, a fachada tinha uma silhueta de uma freira ajoelhada olhando para um padre segurando seu cabelo. — Não, eu não ‘tô zoando. — Ele riu de novo. — Okay… mil reais mudaria minha vida agora. — Sei… por isso, aceitei falar contigo. — Ah, obrigada! — sorri largo, abraçando-o. — Quando? — Amanhã… vai ser oito da noite, mais ou menos. Irei, mas não posso te acompanhar… já que estarei na segurança. — Entendi. — Assenti com a cabeça. — Conta comigo! Ele beijou o canto da minha boca e tirou meus cem reais de cachê do bolso. Tirou outros cem da própria carteira. Aquela era uma forma descarada de lavar dinheiro, mas eu não podia negar, já que precisava muito de dinheiro! — ‘Tá liberada, minha linda! — sorriu. — Vou correr em casa… tenho que deixar tudo ajeitado para não me atrasar… Não preciso… não, ‘né!? — Fiquei acanhada com a ideia de precisar vestir algo mais… chamativo. — Não… seu trabalho será apenas como comediante. — Como isso funcionaria, RD? — Franzi o cenho. — É, tipo assim… lá dentro, tem algumas áreas… nem todas elas têm gente pelad* — riu. — Você vai ficar numa espécie de lobby, sacou? Onde o pessoal fica sentado, conversando. — Okay, entendo… prepararei algo ‘pra isso! — ri. — Tem tanto na minha cabeça que isso vai ficar, no mínimo, hilário. — Gosto do quanto gosta do que faz. — Bom, vou para casa. — Tem uns amigos lá fora… pede para alguém te levar… assim você economiza seu dinheiro. — Ele voltou a me beijar. Retribuí, claro, e saí do teatro. Não precisei andar muito para encontrar um dos meninos que eu já conhecia e ele parecia esperar por mim. Sorriu e se aproximou com a moto, gesticulando para eu subir. Evitando a fadiga, sentei afastada, sem nem encostar nele. Foi uma viagem rápida e, chegando, fui direto ao banho. No quarto da mãe, ela descansava. Dei uma olhada em seus remédios e atestei que ela tomou os remédios certinho. No quarto de Matheus, ele estava deitado no chão, dormia sobre seu material de estudo. Acabei rindo, mas me aproximei. — Amor, vai ‘pra cama… — Ele acabou se assustando. — Calma… você dormiu ao chão… vai ‘pra cama… — A vó já tomou os remédios — falou sonolento. — Eu já vi… obrigada! — Beijei sua testa. Ele levantou, ajudei a recolher seu material de estudo e ele foi à cama. O dia não estava tão quente, então o cobri. Cozinhei o jantar e, no início da noite, sentei no portão de casa com meu caderno para trabalhar no texto do dia seguinte. Pensei em algo bem exclusivo, já que o cachê era enorme! — Cadê o Daniel!? — Andressa acabou com meu momento. Olhando, ela já estava com a mão na cintura, pronta para um barraco. Suspirei, voltei a olhar o caderno e respondi: — Não vejo há um tempo. Se achar, diz que ele tem mãe. — Não vê há um tempo? Duvido! Deve estar escondendo esse filho da put*! — Ela deu um passo na direção de casa. Levantei e a peguei pelo cabelo, intimando: — Não quero problema, Andressa… Rala! Eu era mais baixa que ela — que todo mundo, ‘né!? —, mas não estava num dia bom sim e fui de zero a cem rápido. Andressa era uma preta muito bonita, cabelão bem cacheado e corpão — nem precisava do traste do meu irmão. Convenhamos, meu irmão era só um Zé Droguinha. — Put* é o seu passado… lava a boca quando falar da minha mãe! — Aumentei o tom de voz, enquanto a arrastava até o meio da rua, que, em instantes, já estava cheia de gente. — Parou, parou! — Meu irmão chegou de moto. — Parou o caralh*, Daniel. Cadê meu dinheiro!? — Andressa trocou o foco para ele, se ajeitando. — Onde ‘cê ‘tava!? — Que isso, amor… ‘tá nervosa? Abaixa a bola… Meu irmão tinha fala mansa. Era alto como o pai, tinha dreadlocks e o corpo sarado — um sucesso entre as meninas. — Essa vagab*nda da tua irmã- Bastou ela levantar o dedo para ele desmontar ela no tapa. Suspirei, peguei minha cadeira e entrei com meu caderno. Enquanto eles se comiam, seu filho estava no quarto e eles nem pareciam se lembrar. O dinheiro devia ser da tal pensão que ela recebia sem nunca nem olhar para o garoto. — Andressa ‘tá lá fora, mãe? — Matheus estava chegando na sala quando entrei. — Ouvi a voz dela… não sei se sonhei. — Não — suspirei —, foi só um sonho… vamos subir! Não mentirei, foi bem amargo, mas fui até ele e pus a mão em seu ombro para guiá-lo ao quarto. Fechei a porta e liguei o ventilador, pensando em abafar o som da confusão lá fora. Perdi totalmente a vontade de trabalhar no texto. Só vasculhei por entre os textos velhos para recortar e colar trechos diferentes… o resto seria no improviso. Até sairia com David, meu amigo, mas o dia era daqueles que a gente espera que tudo dê errado, preferi ficar em casa. A mãe reclamou um pouco de dor, então a acompanhei em seu banho e a guiei até a sala para jantarmos em família. Foi agradável, conseguimos conversar sobre Matheus e seus dias de aula. A mãe até deu risada de algumas situações vividas por ele e quase parecemos só uma família feliz. Ao fim da refeição, acompanhei a mãe ao seu quarto. Ajudei com seus remédios e ela se deitou. Esperei que ela dormisse para ir até o quarto de Matheus. — A senhora mentiu, não é? — Ele me perguntou, rindo. Assenti com a cabeça, sentando ao seu lado. Ele deitou e se cobriu, virou em minha direção, me olhando. — Descansa… amanhã é domingo. Trabalharei de noite, mas ficarei em casa quase o dia inteiro. Seu pai e sua mãe estavam brigando lá fora… se prepara para amanhã. — Entendi… obrigado, mãe! — sorriu amarelo. Beijei sua testa e segui ao meu quarto. A vida era irônica. Eu era uma comediante que vivia chorando por dentro ou chorando sozinha no quarto.
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