Klara Narrando:
Castelo Asterfall
Antes do anoitecer.
O vento sempre chegava antes da noite.
Ele se infiltrava pelas frestas altas da torre, brincando com as cortinas de linho e espalhando o cheiro do jardim interna, lavanda, terra úmida e algo doce que em outras vidas talvez tivesse nome. Era o mais perto de liberdade que eu tinha, aquele sopro suave, quase tímido, que me lembrava que o mundo lá fora continuava girando mesmo que eu não pudesse acompanhá-lo.
Asterfall era enorme. Dizia-se que o reino crescia a cada ano, com novas aldeias, novos campos, novas histórias. Mas para mim, o mundo existia dentro desta torre. O resto… eu conhecia apenas através das janelas altas, das histórias que Elora me contava, e de livros que eu lia até as letras turvarem. Havia algo injusto em ver um horizonte inteiro e nunca poder tocá-lo.
Apoiei o caderno de desenhos na janela e tentei esboçar o céu do entardecer. As nuvens se esticavam como pinceladas rosadas, o sol se dissolvendo atrás das montanhas distantes. Eu gostava de desenhar o que não podia alcançar, dera a forma como minha mente fugia, mesmo que meu corpo não pudesse.
Mas naquele dia… minhas mãos tremiam mais do que o normal.
Eu já sentia, no fundo do corpo, do peito e da alma, o chamado silencioso que precedia a noite. Começava como um arrepio, depois um pulsar, uma ansiedade que eu tentava esconder de Elora, do rei, de mim mesma.
A lua estava subindo, e ela me queria.
-Você está desenhando de novo sem pausa. - Disse uma voz suave atrás de mim. Elora entrou na torre quase sem ruído, como sempre. Seus passos não faziam eco nas pedras, uma habilidade que eu suspeitava ser mais mágica do que humana. -Klara, sinto seu coração daqui e está acelerado. Você está bem?
Fechei o caderno devagar.
-Estou. - menti, ou tentei mentir. Meus dedos já tinham começado a latejar.
Elora ergueu uma sobrancelha, seus olhos violeta brilhavam como velas em noite sem lua. Ela sempre via além, além das cortinas, da dor, além das paredes. Às vezes eu me perguntava se sua magia conseguia ver até dentro da alma das pessoas.
Ela aproximou-se, tocando o meu pulso.
- Está começando cedo hoje.
Engoli seco. - Eu sei.}
Elora exalou, e seu rosto, sempre sereno, se contraiu por um segundo. Era raro vê-la preocupada e isso tornava tudo ainda pior.
- Vou reforçar as runas.
Ela afastou-se, puxando um pequeno frasco com ** lunar. O cheiro prateado se espalhou pela torre, enquanto ela traçava símbolos no chão, paredes e na pesada porta de ferro encantado.
Eu já deveria estar acostumada. Mas nunca estava.
Todos os dias eram iguais, até que chegava a noite.
- Há quanto tempo você está sentindo? - Elora perguntou sem olhar para mim, concentrada nas runas que ardialuminosas sob seus dedos.
-Desde o meio da tarde.
- Isso é cedo, Klara.
-Eu sei.
-E você não me chamou.
-Eu não queria atrapalhar.
Ela parou, virou-se lentamente e cruzou os braços, como uma mãe irritada com uma criança muito teimosa.
-Klara, você não atrapalha! Você nunca atrapalha, isso não é culpa sua, é uma maldição e não uma escolha.
Fechei os olhos, respirando fundo. A palavra sempre me cortava como lâmina.
Maldição. Como se fosse tudo o que eu era.
Antes que eu pudesse responder, um ruído grave ecoou no corredor de passos pesados. A torre sempre estremecia quando aquele passo se aproximava. O passo de alguém que carregava o peso de um reino sobre os ombros.
Meu pai.
O Rei Aldebran entrou antes mesmo de o guarda anunciar. Era grande, imponente, com aquela barba grisalha que fazia sombra no rosto marcado por batalhas e noites m*l dormidas. Seus olhos azuis, que um dia foram mais suaves, agora brilhavam com uma preocupação que ele tentava esconder.
-Klara. -Ele veio até mim rápido demais, como se precisasse garantir que eu ainda estava ali, humana. -Elora disse que os sintomas começaram.
Assenti. -É só… mais cedo hoje.
Ele tocou meu rosto com mãos grandes demais, quentes demais. Aquelas mãos que seguraram espadas, escudos, coroas… e tantas vezes seguraram meu corpo quando eu acordava cansada demais para me mover.
-Eu sinto muito, minha pequena. - O sussurro dele era quase um desmoronar. -Se eu pudesse tirar isso de você…
Eu desviei o olhar. Não havia nada que ele pudesse fazer. Ele sabia, que a lua ditava tudo.
-Pai…- Minha voz saiu fraca. -Não me deixe sozinha hoje.
Foi instintivo, uma súplica que escapou antes que eu pudesse evitar. Eu sabia que ele não podia ficar. Eu sabia o que acontecia quando a transformação chegava. Mas naquele instante, o medo era maior do que a razão.
Aldebran piscou devagar, como se aquelas palavras tivessem ferido mais do que qualquer golpe em batalha.
-Klara… é exatamente por isso que devo deixá-la.
Minha garganta fechou e Elora baixou a cabeça. Talvez para me dar privacidade, talvez porque também doía nela.
Meu pai se afastou, como se cada passo custasse. Parou diante da porta, observando Elora terminar as runas.
-Reforce tudo e não deixe ninguém se aproximar.- Sua voz mudou, tornou-se a do rei, não do pai. -Ninguém deve se ferir. Ninguém deve ver.
Ninguém deve saber. Ele não disse, mas estava escrito em seu rosto.
O mundo lá fora temia a criatura que rondava as noites. A Sombra da Noite. A b***a que rasgava cercas, devorava rebanhos, atacava viajantes. Eles não sabiam que a b***a dormia no castelo e que acordava dentro de mim.
A porta de ferro começou a se fechar.
-Pai! - dei um passo à frente, mas Elora me segurou pelo braço. Não por força, ela jamais me forçaria, mas pela dor no meu rosto. A mudança estava acelerando. O ar começava a arder nos meus pulmões.
Aldebran hesitou por um instante. Apenas um. Mas foi suficiente para eu ver o amor devastado em seus olhos.
- Eu voltarei quando o dia nascer.
E então a porta se fechou. As runas acenderam. As travas se fecharam com um estrondo que ecoou nas paredes como um trovão.
Eu fiquei parada ali, com o punho fechado no peito, tentando respirar. O quarto escurecia, engolido pela lua que subia devagar e c***l no céu lá fora.
Elora se aproximou, colocando a mão em meu ombro.
-Klara, sente-se e respire. Não lute agora, quanto mais você resiste, mais dói.
Eu sabia, mas nunca funcionava. Sentei-me no chão, apoiando a testa nos joelhos. O sangue pulsava como fogo líquido, meus sentidos vibravam a cada cheiro, cada som, cada batida do coração de Elora era forte demais.
-Vai passar, - ela sussurrou, mas sua voz já parecia distante. -Eu estou aqui.
O primeiro espasmo veio como uma onda fria subindo pela espinha, meu corpo arqueou involuntariamente e a dor era uma amiga antiga, uma sombra constante. A segunda onda veio com calor, como se meus músculos queimassem por dentro. A terceira foi a pior: meus ossos começaram a vibrar.
Elora recuou um passo, seus olhos brilhando com pena e medo. Não de mim, nunca de mim. Mas da coisa que viria depois.
O ar ficou pesado. Minhas mãos tremeram.
-Klara, olhe para mim, -Elora pediu. -Segure minha voz até que não possa mais. Vamos, respire com...
Eu gritei antes que ela terminasse. O grito ecoou pela torre, pelas paredes, pelas correntes. Não era humano, não mais.
E quando minhas mãos tocaram o chão, elas já não eram mãos. A lua me chamava, a fera despertava e eu… eu não tinha mais força para impedir.
Elora correu para trás das runas de p******o. Eu a vi, por um segundo, antes de a visão escurecer nas bordas.
- Perdão,- sussurrei, ou pensei que sussurrei.
Minha pele se rompeu em luz prateada. Minhas costas se curvaram e meus sentidos explodiram. E então…
Nada.
Nada humano, apenas o som distante de correntes, o cheiro de metal, e uma fome selvagem se espalhando pelos meus ossos.
A lua tomou tudo.