Narrador:
Asterfall
Dia seguinte
Asterfall não era mais o mesmo reino que Adam deixara três meses antes.
O ar carregava um peso diferente, não era apenas o cheiro de fumaça das aldeias, nem o de terra molhada pelas últimas chuvas. Havia nervosismo no vento, um temor sussurrado, os olhares desconfiados e quando o cavalo dele cruzou os portões da capital, o burburinho parou por um instante, como se até o mercado segurasse o fôlego diante da figura do alfa que retornava.
Adam Draven, líder dos guerreiros reais, o mais jovem general do reino, o alfa supremo da linhagem Draven. Um homem que o próprio rei chamava de braço direito. Mas naquela tarde, enquanto descia da sela, Adam sentiu algo que nunca havia sentido ali:
Medo. Espalhado como poeira pelas ruas.
Uma mulher que vendia frutas apertou o filho contra o peito quando o viu. Um velho bateu três vezes no peito em sinal de p******o lunar. Um grupo de crianças cochichou, apontando na direção da muralha oeste, onde a floresta começava.
-General Draven? -Um guarda correu até ele. -O castelo o aguarda. O rei pediu que viesse direto da estrada.
O que quer que estivesse acontecendo, devia ser grave.
- Algum problema na fronteira?- Adam perguntou, pegando as rédeas e entregando o cavalo ao estábulo.
- Não, senhor. O problema é… interno.
Adam parou. Interno?
A palavra soou errada. Asterfall era pacífico por dentro. Guerras aconteciam nas fronteiras, não no coração do reino.
-Explique.
O guarda engoliu seco. - Há duas semanas, criaturas começaram a aparecer. Não sabemos o que é, rebanhos mortos, ataques em estradas e rastros de algo… grande.
-Lobos?
-Não como os que conhecemos.
Adam franziu o cenho. Os pelos de sua nuca se eriçaram e algo dentro dele, o lobo, ficou alerta. Era raro isso acontecer apenas com palavras.
-Quantas vítimas?
-Três viajantes, senhor. E… dois guardas do castelo.
Adam encarou o homem. Guardas do castelo? Como assim?
-Eles estavam patrulhando o lado leste, perto da muralha. Encontramos apenas… restos.
Um silêncio pesado caiu entre eles.
-E o rei?- , Adam perguntou.
-O rei não quer que o povo saiba que as mortes foram dentro das muralhas. Oficialmente, o ataque foi ‘perto’ da capital. -
Mentiras. Adam odiava mentiras.
-Entendi. Vou falar com ele.
O guarda assentiu e saiu apressado.
Adam respirou fundo, tentando afastar o desconforto crescente. Não conseguiu. Era como se algo grande, antigo e ameaçador, respirasse junto com o vento.
O castelo de Asterfall se erguia em torres brancas e muralhas prateadas, brilhando contra o céu alaranjado. Mas apesar da beleza, Adam sentiu algo estranho assim que cruzou os portões principais. O cheiro, um odor frio, metálico, misturado com algo selvagem, algo que não deveria estar ali. Ele parou, instintivamente analisando o ar.
Um guarda observava-o com tensão.
-Senhor?
-Há quanto tempo o castelo cheira assim?
O guarda pareceu confuso.
-Assim… como, general?
Adam estreitou os olhos. Eles não sentiam, mas ele sentia e o lobo dentro dele sentia. Era um cheiro lunar, antigo, raro e poderoso demais para estar no ar sem motivo. O cheiro de um ômega marcado. Mas diferente, era misturado com algo que beirava a fera.
-Há alguém novo no castelo? - Adam insistiu.
-Não, senhor. Tudo como sempre.
Mentira ou ignorância. Eles não sabiam.
O cheiro vinha de cima, das torres. Especificamente… da ala leste, a ala da princesa.
-Interessante - murmurou Adam.
Quando chegou à sala do trono, o rei estava de pé, não sentado, o que dizia muito. Ele falava com dois conselheiros que se calaram imediatamente quando Adam entrou. Aldebran virou-se, e por um segundo, seu rosto perdeu a máscara de rei e assumiu o alívio genuíno de um pai vendo um filho retornado da guerra.
-Adam. -Ele atravessou o salão em passos largos. -Graças à lua você voltou. Precisamos de você.
Adam inclinou a cabeça em respeito.
-Diga o que está havendo, majestade.
O rei respirou fundo.
-A criatura. A Sombra da Noite. - Ele se aproximou, falando baixo. -Ela atacou novamente ontem, dentro das muralhas.
-Eu ouvi. Por que esconder do povo?
-Porque o reino está à beira de pânico. E porque… ainda não sabemos do que se trata.
Adam cruzou os braços, avaliando cada movimento do rei, cada hesitação era uma peça do quebra-cabeça.
-O senhor sabe mais do que está dizendo.
Aldebran endureceu e os conselheiros trocaram olhares. Poucos ousavam falar assim com o rei, mas Adam sempre teve esse direito. Não por privilégio, e sim por confiança.
-General. - disse o rei por fim, com voz firme, - se eu soubesse o que é, já teria destruído.
Mentira. Adam percebeu. A voz do rei tremia no final e Aldebran nunca tremia.
-Quero patrulhar as torres esta noite. -Adam disse.
-Não. -A resposta foi rápida demais. -Principalmente a ala leste, não há necessidade. É segura.
Isso fez um alerta explodir na mente do alfa.
-Majestade, -Adam disse devagar, -por que a ala da princesa está sendo patrulhada por quatro vezes mais guardas do que qualquer outra parte do castelo?
Os conselheiros se entreolharam novamente. O rei ficou imóvel.
Adam continuou:
-Por que os guardas têm ordens para permanecer em silêncio absoluto sobre o que vêem ali? Por que ninguém, absolutamente ninguém, pode entrar na torre leste sem autorização direta do senhor?
Aldebran fechou os olhos por um momento. Como se o mundo estivesse esmagando seus ombros.
-Porque a minha filha… está doente. - Ele disse por fim.
Adam franziu o cenho.
-Doente? Então por que guardas? Por que isolamento? Por que runas?
O rei empalideceu. Adam viu. Os conselheiros suaram. A mentira, antes fina, agora cheirava a desespero.
- General Draven. - Disse Aldebran, recuperando a postura, -Sua missão é proteger o reino. Deixe a princesa fora disso.
Isso encerrou a conversa. Mas não as perguntas.
Adam saiu da sala do trono sem responder nada, sem olhar para trás. O cheiro lunar ainda queimava no ar, guiando-o como um fio invisível que puxava seu instinto alfa em direção à ala leste.
Ele atravessou corredores, ignorando cumprimentos, ignorando guardas tensos. Seu lobo crescia inquieto dentro dele, rosnando baixo, como se algo o chamasse. Quando dobrou o corredor que levava à ala da princesa, três guardas cruzaram lanças diante dele.
-Não pode passar, senhor.
Adam ergueu uma sobrancelha.
-E desde quando soldados do rei barram o próprio general do rei?
Os guardas hesitaram e hesitar era um erro.
Adam deu um passo à frente.
-O que há nessa torre?
-Ordens diretas de Sua Majestade. -Um deles disse, engolindo seco.
-Eu também recebo ordens diretas de Sua Majestade. E nenhuma delas diz que devo ignorar um cheiro de fera vindo de dentro do castelo.
Os guardas empalideceram. Eles não sabiam. Mas sentiram a verdade nas palavras dele.
-General… por favor… volte mais tarde.
-Por quê?
Os três permaneceram em silêncio. Até que um uivo, abafado, distante, doloroso ecoou pelas pedras.
Adam congelou, não era humano, não era lobo comum e não era fera de floresta. Era algo entre todos eles.
Os guardas empalideceram completamente, Adam, porém, sentiu o corpo inteiro reagir.
Um arrepio involuntário percorreu sua espinha. Seu lobo ergueu a cabeça, alerta, reconhecendo algo que Adam não conseguia explicar: Vínculo, ou ameaça. Ou ambos.
-Quem está aí dentro? -Adam perguntou, a voz baixa, carregada de poder alfa.
Os guardas recuaram um passo. O uivo se repetiu, mais fraco, mais distante. E então… silêncio.
Um silêncio pesado que dizia mais do que qualquer palavra.
Adam passou uma mão pelo cabelo, respirando fundo, tentando compreender o que aquilo significava.
A fera… estava dentro da torre da princesa. E o cheiro que percorria o castelo…
…era o mesmo que vinha da ala dela.
Alg, ou alguém estava escondido ali.
E Adam, pela primeira vez desde que chegara, soube que nada no reino estava sob controle e então ele sentiu. Por apenas um segundo, um cheiro suave que escapou por baixo da porta da torre.
Doce. Prateado. Lunar. Um perfume que o fez parar, que tocou seus instintos mais antigos, que era impossível ignorar.
Um perfume de ômega. Mas não qualquer ômega, aquele cheiro vinha marcado pela dor, pela solidão… e por algo ancestral.
Algo que chamava o alfa nele como um sussurro.
Adam fechou os olhos.
-Quem você é?
Mas a torre não respondeu. E a lua, lá fora, começava a subir.