Narrador:
Asterfall, manhã.
A primeira sensação que Klara tem ao despertar é o peso.
Não o peso do corpo que está esgotado, dolorido e latejante, mas o peso invisível da culpa, que sempre desaba sobre ela quando a lua finalmente se põe. A escuridão da torre ainda permanece, tingida por um leve cinza azul de amanhecer, e o ar tem cheiro de pedra fria… e sangue. Ela fecha os olhos com força, tentando não recordar, mas as memórias vêm; sempre vêm.
O rugido, o impacto contra as paredes, a fome, o descontrole e, por fim, o vazio.
Klara inspira devagar, sentindo o gosto metálico na boca, e tenta mover o braço. Um gemido quase inaudível escapa quando a dor percorre todo o lado direito do corpo. Costelas quebradas, talvez. Sempre quebradas, sempre se quebrando para se refazer.
A maldição nunca tinha piedade.
— Alteza? — a voz de Elora soa hesitante, contida. — Posso entrar?
Klara tenta responder, mas a garganta arde. Só consegue emitir um som rouco, baixo. Deve ter sido o suficiente, porque a tranca runica brilha, desfazendo-se, e a porta abre com um estalo leve.
Elora entra devagar, como se receasse encontrar monstros ainda ali dentro e talvez, de certa forma, encontrasse.
A serva deixa escapar um ar sufocado ao ver a princesa caída ao lado da cama, enrolada num cobertor rasgado, a pele marcada por hematomas azul-arroxeados, escoriações e marcas profundas das próprias garras.
— Deuses… Klara… — Elora deixa a bacia com água no chão, ajoelhando-se rapidamente ao lado dela. — Eu já disse ao rei que essa noite seria mais forte. A lua ficou mais alta… mais brilhante… Não devia ter ficado sozinha.
Klara abre os olhos aos poucos, vendo apenas a forma borrada da amiga. Sua voz sai falha:
— Eu sempre fico sozinha.
Elora engole a dor que sente ao ouvir aquilo e, cuidadosamente, passa o braço por baixo dos ombros da princesa, ajudando-a a se sentar. Klara solta um suspiro dolorido, o corpo trêmulo, suado e frio.
— Vou trazer mais cobertores — Elora diz, a voz trêmula. — Você está gelada.
— Estou sempre gelada depois — Klara murmura. — É como se… a lua levasse tudo de mim. Calor, energia, alma… tudo.
Elora não responde. Não há nada para dizer. Já tentou centenas de vezes oferecer palavras de conforto, mas Klara conhece a verdade melhor do que qualquer um: não havia cura. Não havia perdão. Não havia futuro.
A serva molha um pano na água morna e começa a limpar o sangue seco no rosto da princesa. Klara fecha os olhos, deixando-se cuidar como uma criança quebrada. A água escorre pelo queixo, e por um breve instante ela sente algo parecido com paz.
— Alguma lembrança da noite? — Elora pergunta com cautela.
Klara hesita. Sempre hesita., porque as lembranças da fera não são memórias lineares; são sensações misturadas com instintos, flashes de luz, cheiro de caça.
— Poucas — sussurra, a voz arranhada. — Só ruído… paredes… e… alguém lá fora. Acho que ouvi vozes.
Elora para por um segundo.
— Não houve incidentes no pátio interno — ela diz rapidamente. Rápido demais.
Klara abre os olhos, encarando-a.
— Elora… o que estão escondendo de mim agora?
A serva respira fundo, desviando o olhar.
— Nada que você precise carregar junto ao que já carrega — responde.
Era a mesma resposta de sempre.
Klara fecha os olhos, exausta demais para contestar. E quando tenta mudar de posição, o corpo inteiro protesta.
— O rei… já esteve aqui? — pergunta, sabendo a resposta.
Elora hesita.
— Veio antes do amanhecer. Mas… não quis acordá-la. Deixou isto.
A serva pega uma caixa pequena deixada sobre a mesa de madeira. Dentro, um par de pulseiras douradas com runas de contenção, fracas, mas belas. Um presente cheio de significado, mas também cheio de medo. Klara sente o velho aperto no peito.
— Mais correntes disfarçadas de presente — murmura, amargo.
Elora abaixa a cabeça, sem saber como responder.
O silêncio entre elas é quebrado por um novo som. Dedos batendo na porta, uma batida firme, autoritária, mas não agressiva.
Elora empalidece.
— É o rei — anuncia, levantando-se depressa.
Klara se encolhe instintivamente. O que seu pai viria dizer hoje? Que ela deve ficar ainda mais escondida? Que outra ala do castelo será interditada? Que mais aldeões estão com medo demais para saírem à noite?
A porta se abre. O Rei Aldebran entra, com olheiras profundas, expressão tensa e o manto pesado arrastando pelo chão. Ele parece ter envelhecido vinte anos em uma noite. O olhar dele percorre a filha… e se estilhaça um pouco mais.
— Klara…
Ela tenta se levantar, mas o rei ergue uma mão, impedindo.
— Não. Não faça esforço.
Se aproxima devagar, como quem se aproxima de algo sagrado e quebrado ao mesmo tempo. Ajoelha-se ao lado dela, ignorando completamente o peso da coroa.
— A lua foi c***l esta noite — diz, tocando o rosto dela com a ponta dos dedos. — Como todos os meses…
Klara fecha os olhos, cansada demais até para chorar.
— Quantas pessoas eu feri? — pergunta, sem rodeios.
O rei endurece o maxilar.
— Nenhuma. Como sempre, está segura. Eu te juro isso.
Ela sabe que ele mente. Não sobre ter ferido alguém, mas sobre o que “segura” realmente significa. Sobre quantas camadas de soldados e magia são necessárias para que ela exista sem destruir o mundo ao redor.
Aldebran inspira fundo.
— Hoje haverá reunião no grande salão. — Sua voz ganha uma gravidade diferente. — Os guerreiros do norte chegaram esta madrugada. Entre eles… o novo líder.
Klara ergue o rosto, não entendendo.
— E por que isso importa para mim?
O rei hesita e esse hesitar diz muito.
— Porque ele é um alfa poderoso, perspicaz… e já está fazendo perguntas demais.
Klara sente um arrepio subir pela espinha. Não de medo da fera dentro dela, mas de alguém de fora.
— O que ele quer saber?
O rei pressiona a mão sobre a dela.
— Tudo o que não pode saber.
Silêncio. Pesado. Ansioso.
E então Aldebran diz algo que faz o sangue gelado de Klara ficar ainda mais frio:
— Adam olhou para a ala da torre esta manhã… como se sentisse algo. Como se… farejasse o que está escondido aqui.
Elora estremece. O rei fecha os olhos e Klara fica em choque. Porque, por um instante, a fera dentro dela, mesmo enfraquecida, rosna, como se reconhecesse aquele nome, como se chamasse por ele.
Klara sente seu coração acelerar, mesmo exausto. E sussurra, assustada:
— Pai… eu acho que ele não deveria se aproximar de mim.
O rei aperta sua mão.
— Eu também acho. Mas alfas curiosos… nunca ficam longe por muito tempo.
Klara engole seco, sentindo a verdade pesar na alma. E pela primeira vez em anos… tem medo não da fera dentro dela.
Mas do que acontecerá quando Adam descobrir que ela existe.