Capítulo 04: Luz da Manhã

1024 Words
Narrador: Asterfall. A luz da manhã atravessa lentamente as janelas altas da torre, tocando o rosto de Klara como dedos tímidos. A dor em seu corpo diminuiu o suficiente para que ela se sentasse na cama, mas não o bastante para que pudesse se levantar sem queimar por dentro. Mesmo assim, ela força os músculos cansados, respirando fundo em cada movimento. Hoje, ela pensa, eu tento de novo. Elora ainda não voltara com as ervas para dor. O rei havia sido convocado para o conselho com os guerreiros do norte e não a veria por horas. Era a única brecha que Klara teria antes que outro guardião fosse colocado no corredor. A torre estava silenciosa, como se o próprio castelo segurasse o fôlego. Klara se apoia na parede fria e se ergue com dificuldade. O corpo protesta, mas ela ignora. Viver como prisioneira era pior do que dor. A cada passo, algo estala. Costelas talvez quebradas, talvez apenas deslocadas. A fera deixava sempre uma marca, um lembrete de que não havia como escapar de si mesma. Mas pela primeira vez em semanas, sua determinação era mais forte que seu medo. Caminha até o espelho grande no canto do quarto, segurando o suporte de madeira para não cair. Observa a si mesma por um momento longo demais. A pele ainda marcada. Os olhos ainda sombrios. A alma, sempre cansada. — Eu não posso viver assim para sempre — sussurra para o próprio reflexo. E o reflexo não a contradiz. Quando finalmente consegue respirar fundo sem sentir o peito arder, ela se vira e caminha até a porta. A porta runica. A porta que nunca se abre para ela. Ela apoia as mãos sobre a madeira escura, sentindo as runas pulsarem como se fossem um coração. É uma magia viva, antiga, que reconhece sua presença… e a bloqueia. — Por favor… — ela murmura, como se a madeira pudesse ter pena. Não tem. Mas Klara aprendeu a ler as trancas com o tempo. Pequenas falhas nos padrões das runas. Pontos onde a magia é mais fraca quando a lua está baixa. Ela coloca a mão sobre uma delas. Uma faísca a percorre. Arde até o fundo da alma. Mas a runa brilha — quase cedendo. — Só preciso atravessar o corredor — diz para si mesma. — Só quero ver o castelo… sentir o ar lá fora… ver o mundo que dizem que um dia será meu… mas que nunca toquei de verdade. Ela pressiona com força. Crack. Não vindo da madeira — mas de sua própria mão, ferida pelo impacto mágico. Klara recua com um gemido, o corpo tremendo, o cheiro de sangue fresco enchendo o ar. A mão lateja, mas… ela percebe algo. A runa apagou. Por um instante, apenas um único batimento de coração — a porta enfraquece. Os olhos de Klara se arregalam. É agora. É agora ou nunca. Ela passa os dedos pela tranca. Engole seco. E pressiona. A madeira range. As runas piscam. O ar treme. E então, com um suspiro quase humano, a porta… abre. Só alguns centímetros. Mas o suficiente. A luz do corredor invade o quarto. O cheiro do castelo. O som distante de passos. O vento leve vindo das janelas do corredor sul. O mundo. Klara cobre a boca, sentindo lágrimas queimarem nos olhos. Era tão raro ver algo além da janela. Tão raro sentir-se humana. Ela empurra mais um pouco. O corpo inteiro treme. O corredor está ali, tão perto. Tão perto… Ela dá um passo. E então — um som. Passos pesados. Firmes. Ritmo de guerreiro. Klara congela. — Maldita sorte… — ela sussurra, recuando instintivamente. A sombra aparece primeiro no chão. Alta. Larga. Líder de tropas. A mão repousada no cabo da espada. Um andar seguro, de quem domina todos os espaços que pisa. Klara sabe, sem precisar ver o rosto, que não é um dos guardas comuns. Não é Elora. Não é seu pai. Não é nenhum dos conselheiros. Há algo diferente naquele passo. Algo quase… primitivo. Então a figura chega até a porta entreaberta. Klara prende a respiração. O corpo implora para fugir — mas não há para onde ir. E a porta, enfraquecida pelas runas quebradas, range alto de repente. Ele para. Bem ali. A centímetros dela. A voz vem primeiro. Grave. Baixa. Um timbre que vibra como aço contra pedra. — Quem abriu esta porta? Klara fecha os olhos com força, tentando calar a respiração. Sabe que não pode responder. Sabe que, se ele a vir… tudo acaba. O rei sempre avisou: um alfa jamais poderia descobrir o que ela realmente é. Mas então… Ela sente. Um impacto invisível. Um choque. Como um campo de energia atravessando a madeira. O alfa está farejando. Sentindo. Percebendo. A fera dentro dela desperta automaticamente, mesmo exausta, mesmo fraca. Um rosnado vibra em seu peito — involuntário, primal. O silêncio no corredor se torna absoluto. Adam inspira fundo. Devagar. Profundo. Como quem tenta entender um cheiro impossível. — Há alguém aí dentro — ele diz, a voz mais baixa agora. Klara recua até bater nas sombras do quarto. Sua mão sangra. Sua respiração falha. A porta pulsa, ainda aberta. Adam dá um passo. O coração dela dispara. A fera rosna de novo — mais forte. Adam para imediatamente, como se tivesse escutado. E a voz dele, agora quase um murmúrio, pergunta: — Quem… é você? Klara cobre a boca, sufocando um soluço. O momento dura um século. E então — uma explosão de luz. As runas, recuperando forças, se acendem de volta por conta própria. A porta se fecha com violência, trancando-se com todas as camadas de magia que ela tentou romper. BAM. O som ecoa pelo quarto. Klara cai de joelhos, a respiração entrecortada, o corpo em chamas. Lágrimas caem sem controle. No corredor, ela ouve Adam recuar um passo… e ficar ali, parado. Ele não vai embora. Ele fica. Ouvindo. Sentindo. Tentando decifrar o que estava atrás daquela porta. E Klara, exausta, destruída, fraca demais para qualquer coisa, afunda no chão. Pela primeira vez, alguém sentiu que ela estava ali. E isso assusta mais do que a própria maldição.
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