Quando o desejo da medo.

563 Words
O sonho veio quente demais para ser ignorado. Isadora estava ali, diante dele, e tudo parecia mais próximo do que deveria. O olhar de Márcio não tinha pressa — tinha intenção. Ele se aproximava devagar, como quem sabe exatamente onde tocar sem tocar. Os lábios dele encontravam os dela com uma firmeza que roubava o ar. Não era um beijo apressado. Era profundo, envolvente, daqueles que fazem o corpo esquecer o resto do mundo. O coração dela disparava, e as mãos tremiam sem saber onde se apoiar. Ela sentia o calor da presença dele, o peso da proximidade, a respiração misturada à dela. O toque vinha lento, seguro, despertando algo que Isadora nunca tinha permitido sentir. O mundo diminuía. O corpo respondia. Quando ela sentiu que já não tinha controle sobre o próprio fôlego, acordou. Sentou-se na cama de uma vez, ofegante, o peito subindo e descendo rápido demais. A camisola grudava na pele, o rosto estava quente, o coração batia como se tivesse corrido. — Que… que foi isso? — murmurou, passando a mão pelo colo, confusa. Ficou alguns segundos tentando entender o próprio corpo, como se ele tivesse falado uma língua que ela nunca aprendeu. — Eu não devia sonhar assim… — sussurrou, assustada consigo mesma. — Eu nunca fui assim. Mas o corpo não mentia. Mais tarde, quando Márcio apareceu, Isadora estava estranha demais para disfarçar. Ria sem motivo, desviava o olhar, derrubou a tampa da garrafa duas vezes. — Você tá diferente — ele comentou, com um sorriso curioso. — Eu? — ela respondeu rápido. — Nada… normal. Não estava. Ela m*l conseguia encará-lo sem lembrar do sonho. O jeito como ele se sentou perto demais. A voz calma. O cheiro. Márcio percebeu o nervosismo e achou graça. — Se eu te deixo assim só existindo, imagina se eu fizer alguma coisa — brincou. Isadora engasgou com o ar. — Não brinca com isso! Ele riu, achando adorável. — Quer sair um pouco? — sugeriu. — Tomar um café. Sua vó tá bem, a gente respira. Ela hesitou… e aceitou. No café do centro, tudo parecia tranquilo — até não ser. — Márcio? A voz cortou o ambiente. Cíntia. O olhar dela passeou pelos dois com desprezo calculado. — Então é isso? — disse alto. — A gente briga e você já aparece com outra? As pessoas começaram a olhar. — Traição não é briga — Márcio respondeu, frio. Cíntia riu com nojo. — Olha pra ela. Pé-rapado. Interesseira. Caçadora de homem comprometido. Os cochichos começaram. — Olha essa roupa — continuou Cíntia. — Esse cabelo… credo. Você trouxe isso pra um café? Isadora sentiu o chão desaparecer. Olhou para a própria roupa simples. Para os cachos soltos que tinham parecido bonitos horas antes. Agora, não pareciam. O velho pensamento voltou como um soco: eu não sou suficiente. — Márcio… — ela disse baixo, sem conseguir levantar o olhar. — Vamos embora, por favor. Ele se levantou imediatamente. — Chega, Cíntia — disse firme. — Você traiu, mentiu e tentou me destruir. Não projeta sua sujeira nela. Cíntia perdeu o sorriso. Mas Isadora já não ouvia mais nada. Só o próprio coração, pesado, encolhido. Márcio colocou a mão nas costas dela com cuidado. — Vamos. E enquanto saíam, ele soube: o sonho dela tinha acordado algo bonito. Mas Cíntia tinha tentado m***r isso com crueldade. E ele não permitiria.
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