O sonho veio quente demais para ser ignorado.
Isadora estava ali, diante dele, e tudo parecia mais próximo do que deveria. O olhar de Márcio não tinha pressa — tinha intenção. Ele se aproximava devagar, como quem sabe exatamente onde tocar sem tocar.
Os lábios dele encontravam os dela com uma firmeza que roubava o ar. Não era um beijo apressado. Era profundo, envolvente, daqueles que fazem o corpo esquecer o resto do mundo. O coração dela disparava, e as mãos tremiam sem saber onde se apoiar.
Ela sentia o calor da presença dele, o peso da proximidade, a respiração misturada à dela. O toque vinha lento, seguro, despertando algo que Isadora nunca tinha permitido sentir. O mundo diminuía. O corpo respondia.
Quando ela sentiu que já não tinha controle sobre o próprio fôlego, acordou.
Sentou-se na cama de uma vez, ofegante, o peito subindo e descendo rápido demais. A camisola grudava na pele, o rosto estava quente, o coração batia como se tivesse corrido.
— Que… que foi isso? — murmurou, passando a mão pelo colo, confusa.
Ficou alguns segundos tentando entender o próprio corpo, como se ele tivesse falado uma língua que ela nunca aprendeu.
— Eu não devia sonhar assim… — sussurrou, assustada consigo mesma. — Eu nunca fui assim.
Mas o corpo não mentia.
Mais tarde, quando Márcio apareceu, Isadora estava estranha demais para disfarçar. Ria sem motivo, desviava o olhar, derrubou a tampa da garrafa duas vezes.
— Você tá diferente — ele comentou, com um sorriso curioso.
— Eu? — ela respondeu rápido. — Nada… normal.
Não estava.
Ela m*l conseguia encará-lo sem lembrar do sonho. O jeito como ele se sentou perto demais. A voz calma. O cheiro.
Márcio percebeu o nervosismo e achou graça.
— Se eu te deixo assim só existindo, imagina se eu fizer alguma coisa — brincou.
Isadora engasgou com o ar. — Não brinca com isso!
Ele riu, achando adorável.
— Quer sair um pouco? — sugeriu. — Tomar um café. Sua vó tá bem, a gente respira.
Ela hesitou… e aceitou.
No café do centro, tudo parecia tranquilo — até não ser.
— Márcio?
A voz cortou o ambiente.
Cíntia.
O olhar dela passeou pelos dois com desprezo calculado.
— Então é isso? — disse alto. — A gente briga e você já aparece com outra?
As pessoas começaram a olhar.
— Traição não é briga — Márcio respondeu, frio.
Cíntia riu com nojo. — Olha pra ela. Pé-rapado. Interesseira. Caçadora de homem comprometido.
Os cochichos começaram.
— Olha essa roupa — continuou Cíntia. — Esse cabelo… credo. Você trouxe isso pra um café?
Isadora sentiu o chão desaparecer. Olhou para a própria roupa simples. Para os cachos soltos que tinham parecido bonitos horas antes.
Agora, não pareciam.
O velho pensamento voltou como um soco: eu não sou suficiente.
— Márcio… — ela disse baixo, sem conseguir levantar o olhar. — Vamos embora, por favor.
Ele se levantou imediatamente.
— Chega, Cíntia — disse firme. — Você traiu, mentiu e tentou me destruir. Não projeta sua sujeira nela.
Cíntia perdeu o sorriso.
Mas Isadora já não ouvia mais nada. Só o próprio coração, pesado, encolhido.
Márcio colocou a mão nas costas dela com cuidado.
— Vamos.
E enquanto saíam, ele soube:
o sonho dela tinha acordado algo bonito.
Mas Cíntia tinha tentado m***r isso com crueldade.
E ele não permitiria.