A noite que mudou tudo.

489 Words
O hospital nunca dorme. As luzes brancas continuavam acesas, indiferentes ao cansaço de quem esperava. Isadora permanecia sentada, os braços cruzados sobre o próprio corpo, como se tentasse se manter inteira à força. A avó dormia no quarto, ligada a aparelhos que faziam sons ritmados, quase hipnóticos. Márcio estava ali. Não fazia perguntas demais. Não tentava distrair. Apenas estava. — Você quer um café? — perguntou, depois de um longo silêncio. Isadora negou com a cabeça. — Não desce. Ele assentiu, respeitando. O corpo dela começou a dar sinais de exaustão. Os ombros caídos. O olhar distante. Márcio percebeu antes mesmo dela. — Encosta um pouco — disse, apontando para o encosto da cadeira. — Você vai acabar passando m*l também. Ela obedeceu, sem discutir. O cansaço tinha vencido. — Eu não tô acostumada a ter alguém por perto nessas horas — confessou, a voz baixa. — Sempre fui eu por mim… e pela minha vó. — Eu sei — ele respondeu. — Dá pra ver. Isadora fechou os olhos por alguns segundos. — Quando vi você na porta da minha casa… achei que tava imaginando — disse. — Ninguém nunca apareceu assim por mim. Márcio sentiu o peso daquelas palavras. — Eu não sabia exatamente por quê… só senti que precisava vir. Ela respirou fundo. — E veio. Isso… isso muda muita coisa. Ele não respondeu. Não precisava. O tempo passou lento. O relógio marcava horas que pareciam não andar. Em certo momento, Isadora percebeu que tremia de frio. Sem alarde, Márcio tirou o casaco e colocou sobre os ombros dela. — Não precisa — ela murmurou. — Precisa, sim — ele respondeu, simples. Ela aceitou. Aquele gesto pequeno fez algo se soltar dentro dela. Não era paixão. Era permissão. Permissão para não ser forte o tempo todo. — Eu tenho medo — Isadora confessou, de repente. — Medo de amar errado. Medo de depender. Medo de perder. Márcio ficou em silêncio por alguns segundos. — Eu também. Mas hoje… hoje eu só tô aqui. Sem pensar no depois. Ela abriu os olhos e o encarou. — Obrigada por não tentar ser nada além disso. — Companheiro já é muito — ele respondeu. Quando a enfermeira apareceu dizendo que Dona Alzira estava estável, Isadora deixou escapar um choro silencioso. Márcio ficou ao seu lado, firme. — Você pode ir pra casa descansar — ele disse depois. — Eu fico aqui. — Não — ela respondeu, quase automaticamente. — A gente fica. Ele sorriu de leve. Pela primeira vez em muito tempo, Isadora não se sentiu sozinha diante do medo. Naquela noite, sentados lado a lado, sem promessas, sem toque desnecessário, algo mudou. Isadora baixou a guarda. Não porque confiava plenamente. Mas porque estava cansada demais para lutar contra o cuidado. E Márcio entendeu que algumas noites não aproximam pessoas pelo amor… mas pelo respeito silencioso de permanecer. E isso, sem que nenhum dos dois percebesse, já era muito.
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