O hospital nunca dorme.
As luzes brancas continuavam acesas, indiferentes ao cansaço de quem esperava. Isadora permanecia sentada, os braços cruzados sobre o próprio corpo, como se tentasse se manter inteira à força.
A avó dormia no quarto, ligada a aparelhos que faziam sons ritmados, quase hipnóticos.
Márcio estava ali.
Não fazia perguntas demais. Não tentava distrair. Apenas estava.
— Você quer um café? — perguntou, depois de um longo silêncio.
Isadora negou com a cabeça. — Não desce.
Ele assentiu, respeitando.
O corpo dela começou a dar sinais de exaustão. Os ombros caídos. O olhar distante. Márcio percebeu antes mesmo dela.
— Encosta um pouco — disse, apontando para o encosto da cadeira. — Você vai acabar passando m*l também.
Ela obedeceu, sem discutir. O cansaço tinha vencido.
— Eu não tô acostumada a ter alguém por perto nessas horas — confessou, a voz baixa. — Sempre fui eu por mim… e pela minha vó.
— Eu sei — ele respondeu. — Dá pra ver.
Isadora fechou os olhos por alguns segundos.
— Quando vi você na porta da minha casa… achei que tava imaginando — disse. — Ninguém nunca apareceu assim por mim.
Márcio sentiu o peso daquelas palavras. — Eu não sabia exatamente por quê… só senti que precisava vir.
Ela respirou fundo. — E veio. Isso… isso muda muita coisa.
Ele não respondeu. Não precisava.
O tempo passou lento. O relógio marcava horas que pareciam não andar. Em certo momento, Isadora percebeu que tremia de frio.
Sem alarde, Márcio tirou o casaco e colocou sobre os ombros dela.
— Não precisa — ela murmurou.
— Precisa, sim — ele respondeu, simples.
Ela aceitou.
Aquele gesto pequeno fez algo se soltar dentro dela. Não era paixão. Era permissão.
Permissão para não ser forte o tempo todo.
— Eu tenho medo — Isadora confessou, de repente. — Medo de amar errado. Medo de depender. Medo de perder.
Márcio ficou em silêncio por alguns segundos. — Eu também. Mas hoje… hoje eu só tô aqui. Sem pensar no depois.
Ela abriu os olhos e o encarou. — Obrigada por não tentar ser nada além disso.
— Companheiro já é muito — ele respondeu.
Quando a enfermeira apareceu dizendo que Dona Alzira estava estável, Isadora deixou escapar um choro silencioso. Márcio ficou ao seu lado, firme.
— Você pode ir pra casa descansar — ele disse depois. — Eu fico aqui.
— Não — ela respondeu, quase automaticamente. — A gente fica.
Ele sorriu de leve.
Pela primeira vez em muito tempo, Isadora não se sentiu sozinha diante do medo.
Naquela noite, sentados lado a lado, sem promessas, sem toque desnecessário, algo mudou.
Isadora baixou a guarda.
Não porque confiava plenamente.
Mas porque estava cansada demais para lutar contra o cuidado.
E Márcio entendeu que algumas noites não aproximam pessoas pelo amor…
mas pelo respeito silencioso de permanecer.
E isso, sem que nenhum dos dois percebesse, já era muito.