O convite não foi planejado.
Ele saiu quase sem pensar, como se o silêncio entre eles pedisse continuação.
— Se você quiser… a gente pode tomar um café — Márcio disse, a voz baixa. — Nada demais. Só conversar.
Isadora demorou alguns segundos para responder. Olhou para o chão, depois para ele. Dentro dela, o instinto gritava para não criar vínculos. Mas havia algo diferente ali. Não pressão. Não interesse escondido.
— Sem expectativas — ela respondeu, com firmeza. — Eu não tô pronta pra nada além de conversar.
— Eu também não — ele garantiu. — De verdade.
Caminharam até o café em silêncio. Não era constrangedor. Era aquele tipo de silêncio que respeita o cansaço do outro. O lugar era simples, com mesas pequenas e cheiro de café passado na hora.
Sentaram-se um de frente para o outro.
Isadora segurou a xícara com as duas mãos, como se precisasse daquele calor para se manter inteira.
— Eu trabalho numa farmácia — começou, devagar. — Não era o que eu sonhava… mas é o que paga as contas.
Márcio assentiu. — Trabalho numa imobiliária. Também não foi exatamente um sonho. Só aconteceu.
Ela sorriu de leve, surpresa. — Engraçado como quase ninguém vive exatamente o que imaginou.
— Acho que a maioria só aprende a sobreviver melhor — ele respondeu.
Isadora respirou fundo, sentindo que podia falar.
— Meu sonho mesmo é cursar enfermagem — disse. — Cuidar das pessoas. Acho que… cuidar é a única coisa que eu sei fazer direito.
— Isso diz muito sobre você — Márcio comentou, sincero.
Ela abaixou os olhos. — Eu aprendi cedo. Moro com a minha avó desde sempre. Ela é tudo que eu tenho.
Ele percebeu a pausa. — E seus pais?
Isadora não se fechou. Não daquela vez.
— Minha mãe não mora comigo. Nunca foi presente de verdade. E meu pai… eu não conheço. Nunca soube quem ele é.
Não havia choro. Só verdade.
Márcio sentiu o peito apertar. — Deve ter sido solitário crescer assim.
— Foi — ela confirmou. — Mas a gente aprende a não esperar. Quando não se espera nada, dói menos.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou, como quem confessa algo que ainda machuca.
— Eu esperava demais.
Isadora levantou o olhar.
— Eu tinha um relacionamento longo. Planos. Certezas. — Ele respirou fundo. — Descobri que a pessoa que eu mais amava me traía… com alguém que eu chamava de amigo.
Isadora sentiu um aperto no coração. — Isso… destrói a confiança.
— Destrói a gente — ele corrigiu. — Fiquei com raiva, nojo, tristeza. E depois… vazio.
Ela assentiu, entendendo mais do que gostaria. — A pior parte é perceber que a dor não some rápido.
— Não — ele concordou. — Mas falar ajuda.
Isadora deu um pequeno sorriso. — Ajuda.
Ficaram ali por mais tempo do que imaginaram. Falaram do trabalho, das dificuldades, do cansaço que ninguém vê. Não havia flerte. Não havia promessa. Apenas escuta.
— Engraçado — Márcio disse. — Eu não costumo falar da minha vida assim.
— Nem eu — Isadora respondeu. — Mas com você… não parece perigoso.
Ele concordou. — Parece um lugar seguro pra deixar a dor descansar um pouco.
Quando pagaram a conta, nenhum dos dois tentou prolongar o momento além do necessário.
Na porta do café, Isadora respirou fundo. — Obrigada por ouvir sem tentar consertar nada.
— Obrigado por confiar — ele respondeu. — Mesmo sem me conhecer.
Eles se despediram com um aceno simples.
Cada um seguiu seu caminho.
Não havia amor ali.
Não havia desejo.
Mas havia algo raro:
duas pessoas feridas encontrando apoio sem cobranças.
E, às vezes, é exatamente assim que a cura começa.
Sem expectativas.
Sem promessas.
Apenas presença.