Um café sem expectativa

628 Words
O convite não foi planejado. Ele saiu quase sem pensar, como se o silêncio entre eles pedisse continuação. — Se você quiser… a gente pode tomar um café — Márcio disse, a voz baixa. — Nada demais. Só conversar. Isadora demorou alguns segundos para responder. Olhou para o chão, depois para ele. Dentro dela, o instinto gritava para não criar vínculos. Mas havia algo diferente ali. Não pressão. Não interesse escondido. — Sem expectativas — ela respondeu, com firmeza. — Eu não tô pronta pra nada além de conversar. — Eu também não — ele garantiu. — De verdade. Caminharam até o café em silêncio. Não era constrangedor. Era aquele tipo de silêncio que respeita o cansaço do outro. O lugar era simples, com mesas pequenas e cheiro de café passado na hora. Sentaram-se um de frente para o outro. Isadora segurou a xícara com as duas mãos, como se precisasse daquele calor para se manter inteira. — Eu trabalho numa farmácia — começou, devagar. — Não era o que eu sonhava… mas é o que paga as contas. Márcio assentiu. — Trabalho numa imobiliária. Também não foi exatamente um sonho. Só aconteceu. Ela sorriu de leve, surpresa. — Engraçado como quase ninguém vive exatamente o que imaginou. — Acho que a maioria só aprende a sobreviver melhor — ele respondeu. Isadora respirou fundo, sentindo que podia falar. — Meu sonho mesmo é cursar enfermagem — disse. — Cuidar das pessoas. Acho que… cuidar é a única coisa que eu sei fazer direito. — Isso diz muito sobre você — Márcio comentou, sincero. Ela abaixou os olhos. — Eu aprendi cedo. Moro com a minha avó desde sempre. Ela é tudo que eu tenho. Ele percebeu a pausa. — E seus pais? Isadora não se fechou. Não daquela vez. — Minha mãe não mora comigo. Nunca foi presente de verdade. E meu pai… eu não conheço. Nunca soube quem ele é. Não havia choro. Só verdade. Márcio sentiu o peito apertar. — Deve ter sido solitário crescer assim. — Foi — ela confirmou. — Mas a gente aprende a não esperar. Quando não se espera nada, dói menos. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou, como quem confessa algo que ainda machuca. — Eu esperava demais. Isadora levantou o olhar. — Eu tinha um relacionamento longo. Planos. Certezas. — Ele respirou fundo. — Descobri que a pessoa que eu mais amava me traía… com alguém que eu chamava de amigo. Isadora sentiu um aperto no coração. — Isso… destrói a confiança. — Destrói a gente — ele corrigiu. — Fiquei com raiva, nojo, tristeza. E depois… vazio. Ela assentiu, entendendo mais do que gostaria. — A pior parte é perceber que a dor não some rápido. — Não — ele concordou. — Mas falar ajuda. Isadora deu um pequeno sorriso. — Ajuda. Ficaram ali por mais tempo do que imaginaram. Falaram do trabalho, das dificuldades, do cansaço que ninguém vê. Não havia flerte. Não havia promessa. Apenas escuta. — Engraçado — Márcio disse. — Eu não costumo falar da minha vida assim. — Nem eu — Isadora respondeu. — Mas com você… não parece perigoso. Ele concordou. — Parece um lugar seguro pra deixar a dor descansar um pouco. Quando pagaram a conta, nenhum dos dois tentou prolongar o momento além do necessário. Na porta do café, Isadora respirou fundo. — Obrigada por ouvir sem tentar consertar nada. — Obrigado por confiar — ele respondeu. — Mesmo sem me conhecer. Eles se despediram com um aceno simples. Cada um seguiu seu caminho. Não havia amor ali. Não havia desejo. Mas havia algo raro: duas pessoas feridas encontrando apoio sem cobranças. E, às vezes, é exatamente assim que a cura começa. Sem expectativas. Sem promessas. Apenas presença.
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