Quando o amor assusta

465 Words
Isadora não se reconhecia mais. Andava pela casa como quem pisa em cacos invisíveis, tomando cuidado para não sentir demais. Depois da verdade sobre a mãe, algo dentro dela se fechou. Não era raiva. Era medo. Medo de criar esperança. Medo de se apegar. Medo de amar e ser deixada outra vez. Dona Alzira observava tudo em silêncio. A neta já não sorria do mesmo jeito, dormia pouco, comia menos. E a presença da filha na casa tinha virado um peso. Até que a verdade apareceu de forma c***l. Naquela manhã, Dona Alzira voltou mais cedo da igreja e encontrou a mulher falando ao telefone, escondida no quintal. — Sim… a casa é simples, mas tá no nome antigo… dá pra negociar — dizia ela, em tom baixo. A avó sentiu o sangue gelar. — Negociar o quê? — perguntou, firme. A mulher se virou, assustada. — Mãe… eu só estava perguntando… — Perguntando como vender a casa onde sua filha mora? — a voz de Dona Alzira não tremia. — Você enlouqueceu? Isadora apareceu na porta, confusa. — O que está acontecendo? O silêncio denunciou tudo. — Ela estava tentando negociar a casa — disse Dona Alzira, sem rodeios. — A NOSSA casa. O chão pareceu sumir sob os pés de Isadora. — Isso é verdade? — perguntou, olhando para a mãe. A mulher chorou. — Eu precisava de dinheiro… eu prometo que não faria nada sem avisar… Isadora sentiu o coração despedaçar de vez. — Você não voltou por amor — disse, a voz fraca. — Você voltou por interesse. Dona Alzira apontou para a porta. — Chega. Você não vai destruir o pouco que nós temos. — Mãe, eu não tenho pra onde ir! — a mulher implorou. — E Isadora tinha quando você foi embora? — respondeu a avó, dura como rocha. Isadora permaneceu imóvel. Frágil. Cansada. A mãe tentou se aproximar. — Filha… — Não me chama assim — Isadora sussurrou. — Não depois disso. A porta foi aberta. A mulher saiu com a bolsa vazia e os olhos cheios, mas sem olhar para trás. Quando tudo se silenciou, Isadora desabou no sofá. — Eu não sei mais sentir — confessou, chorando. — Toda vez que alguém chega perto, dói. Dona Alzira sentou-se ao lado dela e segurou seu rosto com carinho. — O amor não machuca, minha filha. As pessoas erradas machucam. Isadora fechou os olhos. — Então por que ele assusta tanto? — Porque você ama de verdade — respondeu a avó. — E quem ama de verdade sente mais. Naquela noite, Isadora prometeu a si mesma que não deixaria ninguém entrar. Nem amor, nem promessa, nem palavra bonita. Ela não sabia ainda… Mas o amor, quando é real, não pede licença. Ele chega devagar. Mesmo quando assusta.
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