Isadora não se reconhecia mais.
Andava pela casa como quem pisa em cacos invisíveis, tomando cuidado para não sentir demais. Depois da verdade sobre a mãe, algo dentro dela se fechou. Não era raiva. Era medo.
Medo de criar esperança.
Medo de se apegar.
Medo de amar e ser deixada outra vez.
Dona Alzira observava tudo em silêncio.
A neta já não sorria do mesmo jeito, dormia pouco, comia menos. E a presença da filha na casa tinha virado um peso.
Até que a verdade apareceu de forma c***l.
Naquela manhã, Dona Alzira voltou mais cedo da igreja e encontrou a mulher falando ao telefone, escondida no quintal.
— Sim… a casa é simples, mas tá no nome antigo… dá pra negociar — dizia ela, em tom baixo.
A avó sentiu o sangue gelar.
— Negociar o quê? — perguntou, firme.
A mulher se virou, assustada.
— Mãe… eu só estava perguntando…
— Perguntando como vender a casa onde sua filha mora? — a voz de Dona Alzira não tremia. — Você enlouqueceu?
Isadora apareceu na porta, confusa. — O que está acontecendo?
O silêncio denunciou tudo.
— Ela estava tentando negociar a casa — disse Dona Alzira, sem rodeios. — A NOSSA casa.
O chão pareceu sumir sob os pés de Isadora.
— Isso é verdade? — perguntou, olhando para a mãe.
A mulher chorou. — Eu precisava de dinheiro… eu prometo que não faria nada sem avisar…
Isadora sentiu o coração despedaçar de vez.
— Você não voltou por amor — disse, a voz fraca. — Você voltou por interesse.
Dona Alzira apontou para a porta. — Chega. Você não vai destruir o pouco que nós temos.
— Mãe, eu não tenho pra onde ir! — a mulher implorou.
— E Isadora tinha quando você foi embora? — respondeu a avó, dura como rocha.
Isadora permaneceu imóvel. Frágil. Cansada.
A mãe tentou se aproximar. — Filha…
— Não me chama assim — Isadora sussurrou. — Não depois disso.
A porta foi aberta.
A mulher saiu com a bolsa vazia e os olhos cheios, mas sem olhar para trás.
Quando tudo se silenciou, Isadora desabou no sofá.
— Eu não sei mais sentir — confessou, chorando. — Toda vez que alguém chega perto, dói.
Dona Alzira sentou-se ao lado dela e segurou seu rosto com carinho. — O amor não machuca, minha filha. As pessoas erradas machucam.
Isadora fechou os olhos. — Então por que ele assusta tanto?
— Porque você ama de verdade — respondeu a avó. — E quem ama de verdade sente mais.
Naquela noite, Isadora prometeu a si mesma que não deixaria ninguém entrar. Nem amor, nem promessa, nem palavra bonita.
Ela não sabia ainda…
Mas o amor, quando é real, não pede licença.
Ele chega devagar.
Mesmo quando assusta.