Depois que Márcio saiu, Isadora fechou a porta devagar demais.
Encostou as costas na madeira e levou a mão ao peito, sentindo o coração bater como se tivesse corrido uma maratona sem sair do lugar.
— Meu Deus… — sussurrou.
Sentou-se no sofá e passou a mão no rosto, tentando entender o turbilhão que se formava dentro dela. Não era só nervosismo. Era expectativa. Era medo. Era algo novo demais para alguém que sempre viveu no modo sobrevivência.
“E se ele tentar me beijar?”, pensou.
O pensamento veio do nada e ficou.
Ela nunca tinha namorado. Nunca tinha beijado. Não por falta de oportunidade, mas porque a vida sempre foi urgente demais. Cuidar da avó, trabalhar, segurar as pontas. Romance parecia coisa de outro mundo.
— E se eu fizer errado? — murmurou, cobrindo o rosto com as mãos. — E se ele não gostar?
Sacudiu a cabeça, rindo de si mesma. — Meu Deus, Isadora, você tem vinte anos…
No dia seguinte, quando Márcio voltou, ela já estava nervosa antes mesmo de ouvir o interfone. As mãos suavam, o estômago embrulhava.
Abriu a porta.
— Oi — ele disse, sorrindo.
— Oi — ela respondeu, tentando parecer normal… e falhando um pouco.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, notando o jeito inquieto dela.
— Tá… — ela respirou fundo. — Ou mais ou menos.
Sentaram-se lado a lado no sofá. Isadora cruzou as pernas, descruzou, mexeu no cabelo, depois ficou imóvel demais.
Márcio observava tudo com carinho contido.
— Posso te perguntar uma coisa? — ele disse.
Ela engoliu em seco. — Pode.
— Você tá nervosa comigo?
Isadora soltou um riso curto. — Um pouco.
— Fiz alguma coisa errada?
— Não! — ela respondeu rápido demais. — É… sou eu.
Houve um silêncio breve. Márcio se aproximou um pouco, devagar, respeitoso. Levou a mão até o rosto dela, mas parou no meio do caminho.
Isadora sentiu o mundo diminuir.
Ele se inclinou levemente, como quem pede permissão com o corpo.
Ela travou.
Márcio percebeu na hora. Recuou imediatamente.
— Desculpa — disse, sincero. — Acho que fui rápido demais.
Ela arregalou os olhos. — Não… não é isso.
— Então o que é? — ele perguntou com suavidade.
Isadora respirou fundo, o rosto ficando vermelho. — É que… eu nunca… — a voz falhou. — Eu nunca beijei ninguém.
O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi surpreso… e depois doce.
— Ah — Márcio disse, sorrindo. — Então esse é o problema?
Ela cobriu o rosto. — E se eu beijar errado? Sei lá… e se você não gostar?
Márcio riu baixo, um riso quente, tranquilo. — Isadora… ninguém beija errado quando beija com verdade.
Ela espiou entre os dedos. — Promete?
— Prometo — ele respondeu. — E se não for perfeito, tudo bem. A gente aprende.
Ela assentiu, nervosa. — Tá…
Ele se aproximou outra vez, agora mais devagar ainda. Tocou o rosto dela com cuidado, como se estivesse segurando algo precioso.
— Se não quiser, me diz — ele sussurrou.
— Eu quero — ela respondeu, quase num fio de voz.
O beijo aconteceu.
Não foi ensaiado. Não foi técnico. Foi quente, cheio de emoção contida, como se os dois estivessem recuperando algo que a vida tinha adiado. Isadora sentiu o corpo relaxar aos poucos, o medo se dissolver no calor daquele instante.
Quando se afastaram, os dois estavam sorrindo.
— Viu? — Márcio disse. — Nada errado.
Ela riu, aliviada. — Tá… talvez só um pouco desajeitado.
— Os melhores são assim — ele respondeu.
Pouco depois, ele se despediu. Não prolongou. Não forçou. Só sorriu e saiu.
No caminho de volta, Márcio dirigia distraído, pensando nela. No jeito nervoso. Na honestidade. No beijo que reacendeu algo que ele achava perdido.
— Acho que meu coração tá tentando voltar à vida — murmurou.
Isadora, em casa, tocou os lábios com a ponta dos dedos e sorriu sozinha.
— Então é isso… — sussurrou. — É assim que começa.
E naquela noite, dois corações dormiram pensando um no outro.
Sem promessas.
Sem pressa.
Mas com a certeza silenciosa de que algo bonito estava nascendo.