A tarde estava estranhamente quieta.
Isadora terminava de estender a roupa no varal quando ouviu batidas na porta. Não eram apressadas. Não eram firmes. Eram hesitantes — como se quem estivesse do outro lado pudesse desistir a qualquer momento.
Ela estranhou. Não esperava ninguém.
Enxugou as mãos no pano de prato e caminhou até a porta. Ao abrir, o tempo recuou muitos anos de uma vez só.
A mulher à sua frente estava mais velha, mais magra, com os cabelos presos de qualquer jeito. Mas o rosto… o rosto era inconfundível.
— Isadora… — disse a mulher, com a voz trêmula.
O coração dela parou.
Não por alegria.
Não por saudade.
Por choque.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Isadora, fria, sentindo o corpo inteiro endurecer.
Era sua mãe.
A mulher respirou fundo, como quem ensaia coragem. — Eu precisava te ver.
Isadora deu uma risada curta, amarga. — Precisava? Depois de quantos anos?
O silêncio respondeu.
Dona Alzira apareceu atrás dela, apoiada no batente da porta. Ao ver a visitante, seus olhos se encheram de algo entre cansaço e resignação.
— Você demorou — disse a avó, sem emoção.
A mulher abaixou a cabeça. — Eu sei.
Isadora sentiu um nó subir pela garganta. Aquela cena, aquele reencontro, nunca tinha sido sonhado — apenas temido.
— A senhora não devia estar aqui — disse Isadora, tentando manter a voz firme. — Não depois de tudo.
— Eu errei — respondeu a mãe, rápido demais. — Eu era nova, confusa… eu não sabia como cuidar de você.
— Mas a minha avó sabia — Isadora cortou, apontando para trás. — E cuidou. Sozinha.
O peso das palavras caiu no chão da casa simples.
— Eu pensei em você todos os dias — insistiu a mulher, com lágrimas nos olhos.
Isadora sentiu raiva.
Raiva porque aquelas lágrimas vinham tarde demais.
— Pensar não é amar — respondeu. — Amar é ficar.
A mãe deu um passo à frente. — Eu só quero conversar.
— Não — disse Isadora, recuando. — Você quer aliviar a sua culpa. Eu tive que aprender a viver com a ausência.
O passado veio inteiro à tona.
As noites em que esperou uma ligação que nunca veio.
As datas comemorativas vazias.
As perguntas sem resposta sobre o pai que nunca conheceu.
— Você tem ideia do que é crescer sem referência de amor? — Isadora continuou, a voz finalmente falhando. — Eu só sei amar porque minha avó me ensinou. Fora isso… eu aprendi a sobreviver.
Dona Alzira segurou a mão da neta, firme. — Já chega.
A mãe olhou para as duas, derrotada. — Eu não vim tirar nada de você. Só queria… uma chance.
Isadora respirou fundo. O coração batia forte, dolorido.
— Chance não se pede depois de anos de abandono — disse, por fim. — Se constrói. E você não construiu nada aqui.
A mulher assentiu lentamente, entendendo que aquela porta não se abriria tão fácil.
— Eu vou embora — disse, com a voz baixa. — Mas eu precisava tentar.
Ela se virou e saiu, sem olhar para trás.
Isadora fechou a porta com cuidado. Não bateu. Não chorou imediatamente. Caminhou até o sofá e sentou-se, sentindo as pernas fraquejarem.
Dona Alzira sentou-se ao seu lado. — Você foi forte.
Isadora encostou a cabeça no ombro da avó. — Eu não queria ser forte… eu só queria ter sido filha.
As lágrimas vieram, silenciosas.
Naquele dia, Isadora entendeu algo doloroso:
Nem todo passado volta para ficar.
Alguns voltam apenas para mostrar o quanto você sobreviveu sem eles.
E, mesmo sem perceber, ao fechar aquela porta, ela abriu espaço para algo novo — algo que não vinha da ausência, mas da escolha.
O amor ainda parecia distante.
Mas, pela primeira vez, ela não se sentiu pequena diante dele