Quando o passado bate a porta.

638 Words
A tarde estava estranhamente quieta. Isadora terminava de estender a roupa no varal quando ouviu batidas na porta. Não eram apressadas. Não eram firmes. Eram hesitantes — como se quem estivesse do outro lado pudesse desistir a qualquer momento. Ela estranhou. Não esperava ninguém. Enxugou as mãos no pano de prato e caminhou até a porta. Ao abrir, o tempo recuou muitos anos de uma vez só. A mulher à sua frente estava mais velha, mais magra, com os cabelos presos de qualquer jeito. Mas o rosto… o rosto era inconfundível. — Isadora… — disse a mulher, com a voz trêmula. O coração dela parou. Não por alegria. Não por saudade. Por choque. — O que você está fazendo aqui? — perguntou Isadora, fria, sentindo o corpo inteiro endurecer. Era sua mãe. A mulher respirou fundo, como quem ensaia coragem. — Eu precisava te ver. Isadora deu uma risada curta, amarga. — Precisava? Depois de quantos anos? O silêncio respondeu. Dona Alzira apareceu atrás dela, apoiada no batente da porta. Ao ver a visitante, seus olhos se encheram de algo entre cansaço e resignação. — Você demorou — disse a avó, sem emoção. A mulher abaixou a cabeça. — Eu sei. Isadora sentiu um nó subir pela garganta. Aquela cena, aquele reencontro, nunca tinha sido sonhado — apenas temido. — A senhora não devia estar aqui — disse Isadora, tentando manter a voz firme. — Não depois de tudo. — Eu errei — respondeu a mãe, rápido demais. — Eu era nova, confusa… eu não sabia como cuidar de você. — Mas a minha avó sabia — Isadora cortou, apontando para trás. — E cuidou. Sozinha. O peso das palavras caiu no chão da casa simples. — Eu pensei em você todos os dias — insistiu a mulher, com lágrimas nos olhos. Isadora sentiu raiva. Raiva porque aquelas lágrimas vinham tarde demais. — Pensar não é amar — respondeu. — Amar é ficar. A mãe deu um passo à frente. — Eu só quero conversar. — Não — disse Isadora, recuando. — Você quer aliviar a sua culpa. Eu tive que aprender a viver com a ausência. O passado veio inteiro à tona. As noites em que esperou uma ligação que nunca veio. As datas comemorativas vazias. As perguntas sem resposta sobre o pai que nunca conheceu. — Você tem ideia do que é crescer sem referência de amor? — Isadora continuou, a voz finalmente falhando. — Eu só sei amar porque minha avó me ensinou. Fora isso… eu aprendi a sobreviver. Dona Alzira segurou a mão da neta, firme. — Já chega. A mãe olhou para as duas, derrotada. — Eu não vim tirar nada de você. Só queria… uma chance. Isadora respirou fundo. O coração batia forte, dolorido. — Chance não se pede depois de anos de abandono — disse, por fim. — Se constrói. E você não construiu nada aqui. A mulher assentiu lentamente, entendendo que aquela porta não se abriria tão fácil. — Eu vou embora — disse, com a voz baixa. — Mas eu precisava tentar. Ela se virou e saiu, sem olhar para trás. Isadora fechou a porta com cuidado. Não bateu. Não chorou imediatamente. Caminhou até o sofá e sentou-se, sentindo as pernas fraquejarem. Dona Alzira sentou-se ao seu lado. — Você foi forte. Isadora encostou a cabeça no ombro da avó. — Eu não queria ser forte… eu só queria ter sido filha. As lágrimas vieram, silenciosas. Naquele dia, Isadora entendeu algo doloroso: Nem todo passado volta para ficar. Alguns voltam apenas para mostrar o quanto você sobreviveu sem eles. E, mesmo sem perceber, ao fechar aquela porta, ela abriu espaço para algo novo — algo que não vinha da ausência, mas da escolha. O amor ainda parecia distante. Mas, pela primeira vez, ela não se sentiu pequena diante dele
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