O Olhar que Quebra

1320 Words
O relógio da igreja marcava sete horas da manhã quando Valesca atravessou novamente a grande porta de madeira, respirando fundo antes de colocar os pés no corredor silencioso. O sol m*l havia surgido, e a luz difusa que penetrava pelos vitrais coloridos formava padrões de azul e vermelho no piso de pedra fria. Cada passo de Valesca ecoava com suavidade, mas parecia ter peso suficiente para chamar a atenção de qualquer um que estivesse presente. A cidade ainda dormia, exceto por alguns moradores matinais que passavam pela praça, cumprimentando-se com acenos. Mas dentro da igreja, o mundo parecia reduzir-se a ela e ao altar, como se o espaço sagrado tivesse sido redesenhado para receber apenas sua presença. Padre André já estava na sacristia, preparando os livros de oração para a missa da manhã. Sentiu o peso de seus próprios pensamentos antes mesmo de perceber que ela havia entrado. Valesca vestia um vestido creme simples, de tecido leve, que se moldava ao corpo sem ser ostensivo. O véu repousava sobre os cabelos escuros, quase como uma extensão natural de sua presença angelical. Mesmo com a simplicidade do traje, havia algo em sua postura que o obrigava a notá-la: a maneira como mantinha os ombros retos, o leve arqueamento da coluna, os olhos baixos, mas intensos, transmitindo uma mistura inquietante de pureza e audácia. Quando ela se ajoelhou em um dos bancos próximos ao altar, André sentiu um aperto no peito. A respiração dela parecia sincronizada com o próprio coração dele, e cada gesto carregava a marca de um encanto que não podia explicar. Ele se aproximou discretamente para organizar os livros, mas percebeu que, por mais que se concentrasse no trabalho, sua mente retornava sempre para aquele olhar que parecia perfurá-lo mesmo quando ele fechava os olhos. A missa começou, e Valesca manteve os olhos fechados, mas ele tinha a sensação de que ela sabia exatamente onde ele estava, de que podia sentir sua presença e sua inquietação. Cada palavra da liturgia parecia ecoar diretamente em sua consciência, e André percebeu que não conseguia se concentrar completamente no sermão. Cada gesto dela, cada movimento do corpo em oração, parecia um convite silencioso a quebrar o controle que ele vinha mantendo desde o primeiro encontro. Após a missa, Valesca aproximou-se do altar, como se estivesse destinada a falar com ele, mesmo antes que ele percebesse. O silêncio entre eles era carregado de tensão, quase tangível. André engoliu em seco antes de falar. — Bom dia, Valesca. A missa… foi bem… — a voz saiu mais baixa do que pretendia, quase como um sussurro. Ela sorriu levemente, sem demonstrar malícia, mas com uma sutileza que o desconcertava profundamente. — Bom dia, padre. Sim, a missa foi bela. Mas sinto que ainda há sombras dentro de mim que preciso compreender… — O olhar dela encontrou o dele, firme e intenso, como se pudesse ver seus pensamentos mais profundos. — Sombras que parecem mais fortes quando estou próxima da igreja. André sentiu uma onda de calor percorrer o corpo. Tentou manter a compostura, mas percebeu que suas mãos tremiam ligeiramente. Respirou fundo e conduziu-a até o confessionário. — Valesca, lembre-se de que o confessionário é um espaço de reflexão. Compartilhe o que sente e buscaremos discernir o caminho certo. Ela se ajoelhou, fazendo o sinal da cruz, e iniciou a confissão com uma calma inquietante: — Padre, às vezes me sinto dividida. Entre o que devo ser e o que realmente sou. Frequento a missa, rezo e me confesso… mas o que sinto é como uma chama que não consigo apagar. A intensidade da voz dela parecia tocar algo profundo em André. Não era apenas a sinceridade que o perturbava, mas a maneira como ela transmitia suas palavras: pausadas, medidas, mas carregadas de uma força silenciosa. Ele sentiu um frio percorrer a espinha, mas não por medo; era uma reação física, involuntária, diante de algo que não podia nomear. — Valesca… — murmurou ele, hesitando —, a fé e a oração são caminhos para guiar a alma. Mas devemos resistir às tentações que nos afastam do que é correto. Ela inclinou a cabeça ligeiramente, como se avaliasse a resposta dele, e então completou: — Padre, e se a tentação for inevitável? Se ela surgir não por malícia, mas por algo dentro de mim que simplesmente existe? André fechou os olhos, sentindo uma inquietação que crescia dentro de si. O confessionário, o espaço sagrado, parecia menor, como se não pudesse conter a intensidade daquele momento. Tentou se concentrar nas palavras de conforto que tinha aprendido a usar, mas elas pareciam fracas diante da presença dela. — Filha… — disse, mantendo a voz firme, embora trêmula por dentro —, a tentação faz parte da condição humana. O importante é discernir o que é certo e o que leva ao pecado. Nunca permita que os desejos guiem suas ações sem reflexão. Ela sorriu levemente, e mesmo o gesto mínimo parecia carregado de significado. André sentiu o coração acelerar. Algo naquela jovem desafiava não apenas sua paciência, mas também sua fé, sua resistência. Ela parecia quase ler cada pensamento dele, saber de suas fragilidades e, silenciosamente, explorá-las. — Sim, padre — respondeu ela, suavemente —, entenderei. Mas… às vezes, mesmo entendendo, sinto que meu corpo e minha mente não obedecem. O padre respirou fundo e, com um esforço enorme, tentou recompor-se. A tensão entre eles era como uma corda esticada à beira do rompimento, e ele sentiu que qualquer gesto impensado poderia fazê-la arrebentar. Depois que a confissão terminou, Valesca levantou-se e fez o sinal da cruz, saindo do confessionário com passos leves, mas marcando a presença dela em cada espaço que ocupava. André permaneceu parado por alguns segundos, sentindo a mistura de alívio e inquietação. Sabia que precisava se fortalecer, mas a batalha interna começava a se tornar cada vez mais intensa. Nos dias seguintes, a frequência dela continuou, sempre provocando pequenas reações nele: um olhar prolongado, um sorriso discreto, uma pergunta aparentemente inocente, mas carregada de duplo sentido. André percebia que sua mente se tornava refém de pensamentos que não conseguia controlar, e isso o deixava em constante estado de alerta e tensão. A cidade via apenas uma jovem devota, mas André começava a sentir o perigo sutil, a força de uma tentação que não era apenas física, mas psicológica, emocional e espiritual. Cada gesto de Valesca parecia medir sua resistência, cada conversa, mesmo breve, testava os limites do seu autocontrole. Certa tarde, ao fechar a igreja após a missa, André percebeu que ela ainda permanecia ajoelhada, a luz do sol filtrando-se pelos vitrais sobre seu rosto. Ele se aproximou lentamente, sentindo que cada passo carregava uma mistura de responsabilidade e desejo contido. — Valesca — disse com firmeza —, a igreja está fechada. Devemos ir embora. Ela ergueu os olhos, brilhando com algo que ele não conseguia definir. Um olhar profundo, quase hipnótico, que parecia tocar sua alma. — Padre — murmurou ela —, a luz do dia é bonita aqui dentro. Gosto de permanecer um pouco mais, refletindo, rezando… ou apenas pensando. André sentiu novamente o peso daquele olhar, algo que parecia capaz de atravessar a madeira, a fé, a razão. Sabia que deveria resistir, mas, pela primeira vez, sentiu que apenas resistir não seria suficiente. Enquanto fechava a porta da igreja, ele murmurava preces silenciosas, pedindo forças para não ceder. Mas, no íntimo, reconhecia que a guerra havia começado de verdade. O desafio de resistir à tentação de Valesca não seria apenas um teste de fé; seria uma batalha pela própria alma. E assim, o jogo de olhares e sombras continuava, cada dia mais intenso, cada gesto mais carregado de significado. André sabia que a jovem que todos viam como santa trazia consigo uma força invisível, capaz de quebrar barreiras, mexer com sentimentos e testar limites. E ele estava, involuntariamente, começando a se perder nesse jogo silencioso e perigoso.
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