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A EMPREGADA DO DONO DO MORRO DO DENDÊ

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Blurb

Marcela sempre foi uma jovem esforçada e dedicada, estudante de Psicologia na UFRJ, que sonha em se formar para dar uma vida melhor a si mesma e à mãe, Dona Mariana, que trabalha duro para sustentá-la. Mas tudo muda quando ela descobre que a mãe está doente de lúpus, escondendo o problema há semanas para não atrapalhar os seus estudos. Determinada a retribuir todo o cuidado que sempre recebeu, Marcela decide assumir o lugar da mãe no trabalho: na casa de Escobar, o homem mais temido e respeitado da comunidade do Dendê. Escobar carrega uma fama de frio, c***l e inatingível. Sofreu perdas profundas no passado, incluindo a morte da irmã, e desde então segue uma regra rígida: nunca se apegar a ninguém, pois acredita que qualquer tipo de sentimento é pura fraqueza. Ele vive cercado de perigos, segredos e regras severas, e cuida da sobrinha pequena, Aurora, como sua maior prioridade. Ao entrar naquela casa, Marcela se vê diante de um universo completamente diferente do que conhece. Ela tenta cumprir suas tarefas, cuidar de Aurora e ajudar sua mãe a se recuperar, evitando ao máximo cruzar o caminho do patrão. Mas o destino parece querer juntá-los a todo momento. Apesar de tentarem manter distância, o jeito forte e observador dela começa a despertar nele uma curiosidade que ele jurou não sentir por ninguém, enquanto ela começa a enxergar, por trás da dureza, um homem marcado pela dor. Entre as regras impostas, os riscos constantes da favela e os segredos que cercam o passado de Escobar, eles vão descobrir que as barreiras que ambos criaram para se proteger podem ser muito mais fáceis de quebrar do que imaginavam.

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cap 01 ele é a imagem do m@l
Marcela Gomes Andei pelo corredor de casa até chegar à sala. Ainda estava tudo escuro; eu sempre acordo antes das seis, pois o meu dia começa cedo demais. Preparei um café e fiquei olhando o celular: havia muitas mensagens do dia anterior, e lembrei que ontem não peguei no aparelho durante a noite. Eu passei o tempo toda debruçada nos livros, me preparando para a última prova da semana — que seria justamente hoje. Estudo Psicologia na UFRJ, estou no nono período, quase me formando, e só consegui chegar até aqui graças à minha mãe, que se desdobra em turnos para trabalhar. Por causa disso, sinto que minha única obrigação é me dedicar ao máximo aos estudos. Já tentei conciliar os estudos com um emprego de meio período, mas não deu certo: tenho aulas pela manhã, então só poderia trabalhar à tarde ou à noite. E como moro no Dendê, trabalhar depois do anoitecer e andar pelas ruas da região nesse horário definitivamente não é uma ideia segura. Por isso, continuo à procura de uma oportunidade que seja apenas no período da tarde — para que minha mãe não precise segurar as pontas sozinha. Ela trabalha na casa de Escobar, o chefe do tráfico daqui. Ele paga bem, o que ajuda a manter as contas em ordem, mas o grande problema é o risco que ela corre ao estar lá. Muitas vezes, ela precisa dormir na residência, pois Escobar não volta para casa e alguém tem que ficar com Aurora, sua sobrinha. Esses dias extras rendem um dinheiro a mais, mas nenhum valor paga o perigo de ter a casa invadida ou de ser pega no meio de um tiroteio, algo que acontece com muita frequência por aqui. Quando há uma operação da PM, o primeiro lugar que eles invadem é a casa dele, sempre à procura do tal homem. Mas essa era a única opção que tínhamos, ou corríamos o risco de passar fome em alguns dias do mês. Terminei meu café e cocei os olhos, morrendo de sono. Era um sacrifício necessário. Não via a hora de me formar e começar a atuar na minha área. Queria ganhar dinheiro de verdade, tirar nós duas daqui e nos mudar para um bairro mais seguro — talvez Ipanema ou a Lapa. Imaginava um apartamento espaçoso só para nós, onde minha mãe pudesse finalmente se aposentar e descansar. Esse é o meu maior sonho: retribuir tudo o que ela já fez por mim ao longo dos meus vinte e três anos de vida. Lavei a louça que tinha usado, arrumei os materiais que deixei na sala na noite anterior e guardei tudo na mochila. Foi então que reparei em um remédio diferente sobre a mesinha de canto. Estranhei, pois mais da metade da cartela já havia sido consumida, e não tinha sido eu que tomei. Li o nome do medicamento, mas não reconheci, então pesquisei na internet para saber para que servia. Li várias informações e não estava entendendo muita coisa, até que cheguei numa parte que me fez parar tudo: “usado para tratamento de lúpus”. Só podia ser a minha mãe que estava tomando. Afinal, só nós duas moramos nesta casa. O valor do medicamento beirava os seiscentos reais. Como ela conseguiu pagar por algo tão caro? Caramba… Aquilo explicava por que ela tinha dormido na casa de Escobar quase a semana inteira. Ela estava fazendo turnos extras, um atrás do outro, só para conseguir custear o tratamento — e sem me contar nada. Cliquei para ler mais sobre a doença e logo vi a lista de sintomas: “fadiga excessiva, febre sem motivo aparente, dores articulares, manchas na pele”. Uma doença inflamatória autoimune. Quando ela iria me contar? Fui até o armário de remédios na cozinha verificar se havia mais caixas daquele mesmo medicamento, pois na cartela que encontrei restavam apenas três comprimidos. Mas não havia mais nada. Uma notificação no celular me tirou daqueles pensamentos: “Filha, boa aula. Mamãe te ama!” Me ama, mas não teve coragem de contar que está adoecendo. Sinceramente, dona Mariana… “Te amo, mãe. Bom trabalho”, respondi, já pensando no que eu deveria fazer. Sabia que ela já estava acordada. Poderia ir até lá, confrontá-la e tentar entender tudo direito. Mas outra parte de mim gritava para eu não me atrasar para a prova. Eu queria muito terminar esse semestre, mas não sabia mais se conseguiria me concentrar. Mesmo assim, meus pés me guiaram até a porta de casa. Tranquei tudo, arrumei a mochila no ombro e comecei a subir o morro, enquanto olhava minha conta bancária: tinha apenas sessenta reais, valor que ganhei do meu tio, que mora na região da pista e de vez em quando manda um dinheirinho para me ajudar — especialmente porque semana passada foi o meu aniversário de vinte e três anos. Era um presente para eu comprar algo para mim, mas agora eu teria que abrir mão disso e usar o dinheiro para ir de Uber até a faculdade, se ainda desse tempo. Fui andando pelas ruas, passando por pessoas que também se dirigiam ao trabalho ou aos estudos naquele horário. Algumas me cumprimentaram, e eu apenas retribuí com um sorriso forçado, sem puxar assunto, pois estava com muita pressa. Subi o morro até chegar perto do topo, onde ficava a casa de Escobar. Todo mundo conhecia ele por aqui — na verdade, ninguém realmente o conhecia pessoalmente, mas todos temiam o que ele representava dentro da comunidade. O homem tem um olhar duro, nunca sorri para ninguém, faz cobranças de valores devidos no meio da rua, sem se importar se há testemunhas, e dizem que mata sem pensar duas vezes. Ele é a própria imagem do m*l.

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