Marcela Gomes
A segunda-feira chegou, e com ela, o meu primeiro dia de trabalho oficialmente.
Às seis da manhã, eu já estava na casa de Escobar. Aurora saía para a escola pontualmente às sete, então eu precisava deixar o seu café da manhã pronto. O lado bom é que seria só por essa semana: na semana seguinte, ela também entrava de férias, e eu poderia acordar um pouco mais tarde quando estivesse dormindo por aqui.
Fiz uns ovos mexidos; os pães estavam ali, novinhos em folha, trazidos pelo entregador. Minha mão coçava para fazer um bolinho, mas não ia dar tempo. Minha mãe também me instruiu a preparar um café forte, sem açúcar — amargo igual o dono da casa — porque nunca se sabe quando ele resolve dar o ar da graça.
Eu estava torcendo para que ele não escolhesse justo hoje para aparecer.
Fiz o meu serviço bem quietinha. Algumas músicas vinham à minha cabeça, e eu cantarolava baixinho enquanto lavava a louça, para não deixar nada acumulado.
— Oi! — ouvi uma vozinha fina e infantil. Virei-me, e lá estava ela. Aurora usava o uniforme da escola, que parecia ser bem caro, mas os cabelos estavam todos bagunçados. Logo entendi que o meu trabalho começaria arrumando o cabelo dela.
Cacheados, castanhos, muito bem cuidados, mas naquele momento estavam bem desgrenhados.
— Oi! Bom dia — respondi-lhe, sorrindo.
— Cadê a tia Mah? — perguntou, olhando ao redor, procurando pela minha mãe.
— Ela precisa descansar um pouquinho, mas logo, logo ela está de volta — expliquei, e ela se sentou à mesa. — Posso pentear os seus cabelos?
— Pode, tia! — respondeu, apontando para a sala. Lá havia um creme de pentear e um pente, além de um potinho cheio de laços e elásticos para prender o cabelo.
— Que penteado você quer? — perguntei, torcendo para que ela escolhesse algo fácil, pois nunca fiz penteado em criança. O máximo que eu sabia fazer em mim mesma era um r**o de cavalo.
— Duas trancinhas, assim… — ela pegou uma mecha do cabelo e mostrou como queria, e eu concordei.
Passei o creme e arrumei os cachos dela. Enquanto ela comia, fiz as duas tranças e coloquei dois lacinhos. Fiquei até surpresa com mim mesma; não sabia que tinha habilidade para isso.
Ela levantou, foi se olhar no espelho da sala e bateu palmas, muito satisfeita com o resultado.
Preparei sua lancheira — minha mãe não tinha dito se era necessário, mas mesmo assim, coloquei na mochila dela um biscoito que encontrei no armário e uma caixa de suco.
— Obrigada, tia. Qual é o seu nome mesmo? — perguntou ela, colocando a mochila nas costas.
— Marcela — falei, e ela acenou com a cabeça.
— Obrigada, tia Marcela. — disse ela, muito simpática, e eu só sorri de volta.
Ela saiu, e o motorista já estava esperando do lado de fora para levá-la à escola.
Fiquei pensando: será que Escobar é tão ocupado ao ponto de não conseguir mesmo acompanhar a rotina da sobrinha? Tudo aqui é tão esquisito… mas eu que não vou ficar questionando demais, senão posso me dar m*l.
Passei o dia todo ali. Limpei os móveis, tirei poeira de cantos que eu nem imaginava que existiam. Quando deu duas horas da tarde, lembrei que precisava almoçar. Peguei o celular e tinha uma mensagem da minha mãe avisando que a comida estava pronta em casa. Respondi que já estava indo.
Desci o morro bem devagar e tranquila, e logo cheguei em casa. Minha mãe estava estendendo roupas no varal.
— Bença, mãe. — falei, e ela beijou o meu rosto.
— Deus te abençoe, meu amor. Vai lá almoçar, é só dar uma aquecida na comida. — disse ela, e eu concordei, indo direto para a cozinha.
Estava morrendo de fome. Coloquei o meu prato e deixei esquentar um pouco no micro-ondas. Comi acompanhada de uma Coca-Cola bem gelada que comprei no caminho; tomei um gole e senti como se todos os meus problemas tivessem diminuído um pouco com aquele momento.
Antes de sair, tomei um banho e já separei uma roupa para deixar lá, já que iria dormir na casa de Escobar. Não sabia muito bem como seria dormir fora de casa, mas fui assim mesmo. Já estava quase quatro horas da tarde, e Aurora chegaria a qualquer momento. Minha mãe disse que ela volta da escola morrendo de fome, então no caminho, já fui pensando em fazer um bolo de chocolate.
Abri a porta da casa distraída, olhando o celular, e quase dei um grito quando ouvi um barulho alto. Levantei o olhar imediatamente, e lá estava ele.
Pelo visto, ele realmente escolheu hoje para aparecer.
— Ah… oi. — falei, entrando de vez no recinto. Meu coração ainda estava disparado, batendo forte por causa do susto que levei.
Como sempre, ele não respondeu. Mas, pelo menos, fez um aceno com a cabeça.
Ele estava procurando alguma coisa, empurrando o sofá para trás, fazendo aquele barulhão, tentando alcançar algo que tinha caído para baixo do móvel.
— Tá procurando alguma coisa? — perguntei o óbvio, tentando ajudar.
— Minha corrente. — respondeu ele.
Na mesma hora, lembrei de ter visto algo parecido em algum lugar. Mas onde mesmo?
Fui até o banheiro e lá estava ela, esquecida em cima da pia. Homem é um bicho cego mesmo. Duvido muito que ele não tenha passado por lá para procurar, já que estava revirando até debaixo do sofá.
— Essa aqui? — mostrei para ele, segurando o objeto. Ele pegou da minha mão e colocou ao redor do pescoço.
— Tu tirou ela daqui? — questionou, apontando para uma prateleira na sala, e eu balancei a cabeça negando.
— Não. A ordem era para não mexer nas suas coisas, e eu não mexi em nada. — Ele me olhou de forma tão fixa e intensa que ficou insustentável manter o contato visual por muito tempo.
Achei que ele fosse começar uma discussão, mas ele apenas arrumou a própria roupa e saiu andando. Que cara estranho.
Fui direto para a cozinha começar a fazer o meu bolo, esperando de verdade que Aurora gostasse. Em pouco tempo, ele já estava pronto e cheiroso, e eu coloquei na mesa. Ela chegou bem na hora em que eu terminava de preparar um suco de maracujá, para que ela pudesse dormir tranquila durante a noite.
E eu também.