– Primeiro Contato
Clara ajustou a pasta de couro contra o corpo, sentindo o peso das anotações e do ceticismo que sabia que encontraria do outro lado daquela porta. Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo loiro liso que caía pelos ombros e abriu caminho pelo corredor frio e silencioso da ala de segurança máxima.
Quando a porta se abriu, ele estava lá. Alto. Dois metros de presença que preenchia todo o espaço da cela. Pele clara marcada por tatuagens intricadas que contavam histórias silenciosas. Olhos escuros e penetrantes que a mediam da cabeça aos pés, avaliando cada detalhe de quem ela era.
— Doutora Clara? — a voz dela saiu firme, mas havia uma pitada de nervosismo que ela não conseguiu controlar.
Ele não respondeu. Apenas inclinou a cabeça levemente, como se estivesse considerando se valia a pena falar. Clara deu um passo à frente, mantendo o sorriso profissional que escondia sua própria curiosidade.
— Meu nome é Clara. Estou aqui para ajudar… — começou, hesitando ao escolher as palavras. — …para conversar, para entender… o que você precisa.
Ele finalmente falou, a voz baixa e rouca, carregada de poder e mistério:
— Nando. — disse simplesmente, olhos fixos nos dela, avaliando cada gesto.
O silêncio voltou a tomar a sala. Clara sentiu a tensão pulsando entre eles, um choque de mundos. Ela percebeu que entrar na mente dele não seria fácil. Nando era fechado, calculista, alguém acostumado a manter todos à distância.
— Tudo bem se você não quiser falar agora — disse ela, mantendo a calma. — Podemos começar devagar. Um passo de cada vez.
Ele inclinou o corpo para trás, cruzando os braços, tatuagens reluzindo sob a luz fria da cela. Um sorriso quase imperceptível se formou nos lábios dele, como se ele estivesse testando a determinação dela.
— Você vai tentar me entender? — perguntou Nando, como quem lança um desafio.
— Vou tentar — respondeu Clara, sentindo uma onda de excitação percorrer sua espinha. — Mas você vai ter que me permitir.
Ele soltou um riso baixo, quase um sussurro de admiração e provocação ao mesmo tempo.
— Muitos tentaram, doutora. Nenhum conseguiu. — E então ele se recostou, olhos fixos nela, esperando.
Clara respirou fundo, ajustou a pasta nos braços e se aproximou um passo mais, olhando para cada detalhe da expressão dele, anotando mentalmente o silêncio que carregava, as pequenas nuances de sua postura, a aura de perigo misturada a charme irresistível.
— Então vamos começar — disse ela suavemente. — Só você e eu, por enquanto.
Nando apenas assentiu levemente, mas havia algo em seu olhar que dizia: isso vai ser interessante. E naquele instante, Clara soube que havia acabado de entrar não apenas na mente dele, mas em um mundo perigoso, sedutor e impossível de ignorar.