Clara entrou na cela naquela manhã e encontrou Nando encostado na parede, braços cruzados, olhos fixos nela como se pudesse ver cada pensamento que passava por sua mente. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha, não de medo, mas de algo que ela ainda não sabia nomear.
— Bom dia, doutor — disse ela, tentando manter a voz firme, mas o coração acelerado.
Ele não respondeu de imediato. Apenas a avaliou, a maneira como se movia, a forma como o cabelo loiro liso caía pelos ombros, o sorriso contido que escondia mais curiosidade do que profissionalismo.
— Você gosta de desafios, doutora Clara? — perguntou Nando, finalmente, com aquela voz grave que parecia reverberar pelo quarto.
Clara parou por um instante, surpresa com a pergunta direta.
— Sim — respondeu. — Mas acredito que desafios são para serem superados.
Ele se aproximou, passos lentos, medidos, e ela sentiu a presença dele preenchendo o espaço. A cela era pequena, mas parecia ainda menor com Nando ali.
— Alguns desafios podem te mudar — disse ele, aproximando-se apenas o suficiente para que a tensão fosse palpável, mas sem invadir o espaço dela. — Você está pronta para isso?
Ela engoliu em seco, mantendo o olhar firme.
— Pronta para compreender a mente de um mafioso? Sempre.
Ele riu baixo, um som que parecia misturar diversão e aprovação.
— Compreender é diferente de sentir. — Ele se recostou na parede, cruzando os braços de novo, mas o olhar dele não se desviou. — Você vai começar a sentir.
Clara sentiu um calor subir pelo pescoço. As palavras dele carregavam algo mais do que o significado literal; havia uma provocação, um teste sutil. Ela sabia que não deveria ceder, mas parte dela queria se inclinar, querer saber mais, sentir o mundo dele, mesmo que só pelas histórias que contava.
— E se eu disser que já sinto algo? — disse Clara, provocando sem perceber. — Curiosidade, fascínio… talvez mais.
Ele parou. Olhou-a nos olhos com intensidade, como se tivesse escutado uma confissão secreta.
— Interessante… — murmurou, quase para si mesmo. — Alguns conseguem resistir, mas outros… se perdem.
Clara deu um passo para trás, ajustando a pasta contra o corpo, tentando retomar a postura profissional. Mas, mesmo assim, o calor da presença dele ainda a atingia, a tensão entre eles pulsando como eletricidade.
— Lembre-se, doutora — disse Nando, com um sorriso quase imperceptível — conhecer a mente de alguém como eu é um risco. Mas… conhecer o homem… esse é outro nível.
Clara sorriu, sem perceber que estava se inclinando cada vez mais para o perigo.
— Eu sei, doutor. Mas estou aqui para aprender.
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, apenas observando, como se avaliando se podia confiar nela — ou se apenas a estava testando.
— Então vamos continuar — disse ele finalmente, a voz baixa e sedutora, mas cheia de mistério. — Mas lembre-se: cada resposta sua vai me dizer se você é curiosa… ou inconsequente.
E naquele instante, Clara percebeu que não havia mais volta. Ela estava sendo puxada para o mundo dele, um mundo perigoso, atraente e impossível de ignorar.