Capítulo 1: O Peso dos Vestidos e o Cheiro do Aço
Elysia cresceu à margem do povoado da Mata Cinzenta. Para os moradores da cidade, ela era apenas a órfã sem passado; ninguém sabia de onde viera ou de quem era filha. Às vezes, recebia um ou outro olhar compadecido, mas a verdade sobre sua origem era muito mais sombria e profunda.
Com apenas dois anos e nove meses, Ely fora encontrada no coração da selva. Estava chorando, sentada sobre a terra úmida, com os cabelos curtos sujos de lama. Aquele território pertencia aos Guardiões da Mata Cinzenta — a alcateia onde viviam os lobos mais ferozes e conhecidos por sua natureza imperdoável.
Quem a achou foi o próprio líder supremo, Greymoor Wilder, durante uma caçada. Em vez de abandoná-la à sorte, Greymoor levou a garotinha até o povoado e a entregou a Nightfall, um de seus mais antigos e leais guerreiros. Nightfall era cego — havia perdido a visão em batalha ao proteger o próprio Greymoor. Morando sozinho no isolamento da floresta, o velho guerreiro aceitou a missão quando o líder lhe disse:
— A menina é sadia. Estava desprotegida na floresta. Cuide dela e, na sua velhice, ela cuidará de você.
Como um favor ao seu líder, Nightfall acolheu a pequena garota e a criou como sua própria filha. Mesmo sem a visão, o guerreiro possuía um faro apurado e uma percepção impecável. Ele ensinou Ely a se defender, a rastrear e a lutar. Ela cresceu forte, ágil e excelente no combate. O único detalhe é que Ely quase nunca frequentava o centro da cidade da Mata Cinzenta. Sua vida era a floresta, a cabana e os treinos.
A infância de Ely não foi feita de bonecas ou cantigas, mas de disciplina e afeto bruto. Aos oito anos, sua rotina já era a de uma verdadeira aprendiz. Ela acordava com o primeiro raio de sol e tomava um café da manhã reforçado ao lado de Nightfall. Animada, com os olhos brilhando de determinação, a garotinha corria para pegar sua lança improvisada de madeira, feita sob medida pelo velho guerreiro.
Nightfall sempre fez questão de deixar tudo muito claro para a garota à medida que ela crescia: ele não era o pai dela. Ele costumava dizer que sua missão era apenas protegê-la, treiná-la e guiá-la até o dia em que ela fosse escolhida e se tornasse uma Luna; assim que isso acontecesse, a obrigação dele estaria encerrada e ela não precisaria se preocupar em cuidar dele na velhice.
Apesar de ouvi-lo repetir isso por anos, Ely o enxergava e o amava exatamente como um pai. Sempre profundamente obediente a ele, cumpria cada ordem sem hesitar e prometia em silêncio que, não importava o que o destino reservasse ou qual status alcançasse, jamais o abandonaria e sempre cuidaria dele.
Todas as manhãs eram dedicadas às táticas de combate. Ely repetia cada movimento, aprendendo a ter postura, guarda e firmeza no golpe. À tarde, Nightfall a levava para o leito do rio e a ensinava a saltar sobre as rochas menos altas, treinando o equilíbrio, a agilidade e a leitura do terreno.
Mas a rotina do velho guerreiro não parava por aí. Quando a noite caía e a lua dominava o céu da Mata Cinzenta, Nightfall recebia outra responsabilidade sob o manto da escuridão: ele treinava o jovem Forrest Wilder, filho do líder supremo Greymoor. Nas sombras da noite, Nightfall ajudava o herdeiro para que se tornasse um grande guerreiro, enquanto Ely, por muitas vezes, observava de longe as lições duras e imponentes que o mentor aplicava ao garoto Wilder.
Ely cresceu forte, ágil e excelente na arte da guerra.
Tudo mudou quando Elysia completou doze anos.
Decidido de que a garota precisava de algo além de lâminas e táticas de caça, Nightfall ordenou que ela fosse para a cidade, frequentasse o colégio e morasse na casa de Astrid, uma antiga companheira de batalhas. Segundo ele, Astrid ensinaria Ely a ser uma boa pessoa.
Ely se negou veementemente. Esbravejou e lutou contra a ideia, mas o velho guerreiro a levou praticamente à força e a entregou na porta de Astrid. A mulher, em respeito e devoção irrevogável a Nightfall, não recusou o pedido. No entanto, sua missão pessoal era outra: ensinar a garota a ser uma "boa loba", preparando-a para o caso de um dia encontrar um Alfa.
O problema começou no momento em que Ely pisou naquela casa e se deparou com as três filhas de Astrid — três belas lobas cinzentas que olhavam para a recém-chegada com puro desdém. Para elas, uma garota com trejeitos e traços masculinos era uma aberração. Ely usava cabelos bem curtos e roupas confortáveis de treino, perfeitamente adequadas para a vida que levava com um guerreiro, mas vistas como um insulto pelas garotas da cidade.
— Meninas, parem de implicância — pediu Auren, a filha mais nova, tentando amenizar a situação. — Ela morava com Nightfall, não tinha ninguém para explicar como uma garota deve se vestir.
Aurora e Aura, porém, soltaram risadinhas debochadas, avaliando a postura e as roupas da garota.
— Que nome feio o seu... — debochou Aurora, a mais velha, fazendo gestos dramáticos e rindo alto. — Sinceramente? Combina muito bem com a sua cara.
Nesse momento, Astrid surgiu do corredor carregando um punhado de tecidos velhos e desgastados. Sem o menor cuidado, jogou os vestidos nos braços de Ely, que os segurou no instinto.
— Estão gastos, mas servem em você — disse Astrid, mantendo a voz fria e o olhar distante. — Eu aceitei ficar com você porque não consigo dizer 'não' ao meu Nightfall. Mas isso não significa que eu tenha que ser gentil com você.
Enquanto o tecido áspero dos vestidos pesava em seus braços e as risadas contidas das filhas de Astrid ecoavam pela sala, Ely encarou as quatro mulheres em silêncio.
Aperta a mandíbula, a jovem guerreira sentiu o peito arder. Ela se arrependeu amargamente de ter deixado a proteção da floresta para pisar naquela cidade.