Angélica narrando
Hoje era dia de baile. E eu já tinha decidido que iria. Não importava o que o Tairon falasse. Não importava o que as pessoas pensassem. E muito menos importava o que aquela v***a da Heloísa achava. Eu iria. Porque se tem uma coisa que eu aprendi nesses últimos anos é que mulher que some perde espaço. E eu não tenho intenção nenhuma de perder o meu. Muito pelo contrário. Se aquela garota acha que vai voltar depois de três anos desaparecida e simplesmente pegar tudo o que é meu, ela está muito enganada. Principalmente quando o assunto é o Tairon.
Passei tempo demais construindo a minha vida ao lado dele para simplesmente assistir outra mulher chegar e levar tudo embora. E eu não vou permitir isso. Não vou. Nem ferrando. Desde que ela voltou para o morro eu comecei a perceber as mudanças. Primeiro foram os olhares. Depois as desculpas. Depois os horários. Depois as mentiras m*l contadas. Porque eu conheço o Tairon. Conheço melhor do que qualquer pessoa. Sei quando ele está nervoso. Sei quando está mentindo. Sei quando está escondendo alguma coisa. E ultimamente ele anda escondendo muita coisa. Muita coisa mesmo. Mas se ele acha que eu vou ficar sentada esperando ele me trocar por aquela sonsa, ele está redondamente enganado.
Acordei pouco depois das dez da manhã. Olhei para o lado da cama. Vazio. Nem sinal dele. Soltei uma risada sem humor. Claro que não. Ultimamente ele vive arrumando desculpas para sair cedo. Sempre tem uma reunião. Sempre tem uma carga. Sempre tem um problema. Sempre tem alguma merda acontecendo. Coincidentemente depois que a Heloísa voltou. Que engraçado.
Levantei da cama já irritada. Fui para o banheiro. Lavei o rosto. Escovei os dentes. E enquanto me olhava no espelho, fiquei pensando em tudo que aconteceu nos últimos dias. Principalmente naquela conversa ridícula sobre gravidez. Quase deu merda. Uma merda gigantesca. Porque eu só tinha falado aquilo para provocar. Só isso. Queria ver a reação da Heloísa. Queria deixar ela desconfortável. Queria mostrar que eu e o Tairon tínhamos uma história. Uma vida. Um passado. Coisas que ela nunca teve com ele.
Mas depois o próprio Tairon veio querer saber detalhes. Perguntando. Questionando. Investigando. E eu precisei inventar uma desculpa rápida. Falei que a médica explicou que era emocional. Que eu queria tanto engravidar que minha cabeça acabou confundindo tudo. Que era ansiedade. Trauma. Essas coisas. Normalmente ele teria me abraçado. Falado que tudo ia ficar bem. Que a gente ainda teria outros filhos. Mas dessa vez não. Dessa vez ele só concordou. Frio. Distante. Como se estivesse analisando cada palavra que eu dizia. E aquilo me incomodou. Porque Tairon nunca foi de prestar atenção nas coisas. Sempre foi fácil conduzir ele para onde eu queria. Mas agora... Agora parecia diferente. E isso me deixava nervosa. Muito nervosa.
Respirei fundo. Não adiantava pensar nisso agora. Eu precisava agir. E a primeira coisa que eu precisava fazer era ficar maravilhosa. Fui até o cofre. Peguei dinheiro. Bastante dinheiro. E saí.
Passei a manhã inteira no salão. Fiz cabelo. Hidratação. Escova. Finalização. Tudo. Queria estar impecável. Porque se aquela garota apareceu parecendo modelo de capa de revista, eu também podia aparecer. E melhor. Muito melhor. Enquanto a cabeleireira fazia meu cabelo, fiquei olhando meu reflexo no espelho. Observando cada detalhe. Eu era bonita. Sempre fui. Mas ultimamente tinha me deixado de lado. E talvez esse tivesse sido meu erro. Talvez eu tenha deixado o papel de vítima tomar conta de mim. Talvez eu tenha me acostumado demais com a pena das pessoas. Com os olhares preocupados. Com os cuidados. Com o fato de todos acreditarem que eu era frágil. Inclusive o próprio Tairon. Só que agora eu precisava mudar isso. Porque homem nenhum fica olhando para mulher triste para sempre.
Quando terminei, os cachos ficaram perfeitos. Passei a mão no cabelo e sorri. Era exatamente o que eu queria. Depois fui para a loja da Bianca. Passei quase uma hora escolhendo roupa. Experimentando. Analisando. Até encontrar o conjunto perfeito. Preto. Justo. Elegante. Com detalhes prateados. Bonito o suficiente para chamar atenção. Sexy o suficiente para não parecer vulgar. Exatamente como eu queria.
Já estava indo embora quando encontrei a lingerie. E aí sorri de verdade. Porque aquilo era perfeito. Vermelha. Toda trabalhada na renda. Com cinta-liga. Delicada. Provocante. Perfeita. Na mesma hora peguei. Porque uma coisa era certa. Se o Tairon estava me evitando, isso acabaria hoje. Eu queria ver até quando ele conseguiria me ignorar. Porque desde que a Heloísa voltou, ele não me procura mais. Sempre está cansado. Sempre está ocupado. Sempre está preocupado. Sempre tem uma desculpa. E eu não sou i****a. Homem não muda do nada. Alguma coisa aconteceu. Ou melhor. Alguém aconteceu.
Saí da loja com minhas sacolas e fui para casa. Decidida. Porque eu podia até estar perdendo espaço. Mas ainda não tinha perdido a guerra. Cheguei perto da hora do almoço. E fui direto para a cozinha. Preparei as panquecas favoritas dele. Deixei o arroz pronto. A salada lavada. Tudo organizado. Tudo perfeito. Do jeito que ele gostava. Porque eu conheço cada mania daquele homem. Cada detalhe. Cada costume.
Enquanto cozinhava, minha cabeça não parava. Ficava imaginando ele com ela. Conversando com ela. Olhando para ela. E aquilo me deixava com uma raiva absurda. Porque ela sempre teve tudo. Sempre foi a queridinha do morro. A filhinha perfeita. A menina boazinha. A princesa. Agora voltou mais bonita ainda. Mais admirada ainda. E eu estava cansada disso. Cansada de ver as pessoas falando dela como se fosse alguma santa. Porque eu não comprava aquela imagem. De jeito nenhum.
Quando tudo ficou pronto, sentei para esperar. E esperei. Esperei. Esperei. E nada. O almoço esfriando. A comida pronta. E nada dele aparecer. Peguei o celular. Liguei. Recusou. Liguei de novo. Recusou. Mais uma vez. Recusou. Meu sangue começou a ferver. Na quarta ligação ele atendeu. E praticamente gritou comigo.
— Qual foi, Angélica? Carälho, eu tô ocupado.
Na mesma hora senti meu estômago afundar. Mas mantive a voz calma.
— Só queria avisar que o almoço tá pronto.
— Eu tô ocupado, poŕra.
Aquilo me atingiu como um tapa. Mas continuei.
— Tá bom, eu só achei...
— Tô com um B.O aqui. Depois eu vejo o que vou fazer.
E então veio a pior parte.
— Para de me ligar toda hora. Que eu tenho mais o que fazer caralhø.
Ligação encerrada. Fiquei olhando para a tela. Sem acreditar. Porque ele nunca tinha falado comigo daquele jeito. Nunca. Mas agora estava falando. E eu sabia exatamente o motivo. Heloísa. Sempre ela. Tudo girava em torno dela. Tudo.
Fechei os olhos. Respirei fundo. E naquele momento tomei uma decisão. Eu não iria chorar. Não iria implorar. Não iria correr atrás. Porque se tinha alguém correndo risco de perder alguma coisa ali, não era eu. Era ela. Porque diferente dela, eu conheço o Tairon. Conheço os defeitos. Conheço as fraquezas. Conheço os medos. Conheço tudo. E informação vale mais do que amor. Muito mais.
Fui para o quarto. Abri as sacolas. Passei a mão pelo tecido do conjunto. Depois pela lingerie. E sorri. Um sorriso lento. Calculado. Porque aquela noite não era apenas um baile. Era uma disputa. E eu tinha plena consciência disso. O morro inteiro estaria olhando. Comentando. Observando. E eu faria questão de estar impecável. Porque se existe uma coisa que eu não faço é entregar nada sem lutar. Principalmente quando o assunto é aquilo que eu considero meu.
E o Tairon é meu. Pode ser egoísmo. Pode ser obsessão. Pode ser o que for. Mas é a verdade. E eu não vou abrir mão dele sem resistência. Nem para Heloísa. Nem para mulher nenhuma. Porque se ela pensa que voltou para cá e vai tomar tudo de mim sem dificuldade... Ela ainda não me conhece de verdade. Ela pode ser a patroa da porrä toda como dizem, mas eu sou a patroa desse morro.