Vitin narrando
Se tem uma coisa que eu aprendi nesses vinte e seis anos de vida é que problema nunca aparece do nada. Ele avisa. Sempre avisa. Às vezes vem num comentário atravessado. Num olhar que dura tempo demais. Num silêncio estranho no meio de uma conversa. E desde a hora que entrei naquele restaurante com o Tairon, os sinais estavam todos lá. Bastou eu olhar para a mesa onde estavam Sapão e Heloísa para sentir aquela sensação r**m no estômago. A mesma sensação que aparece antes da merda acontecer.
Talvez fosse instinto. Talvez experiência. Ou talvez porque eu conheço o Tairon melhor do que muita gente. Conheço desde antes do respeito. Antes da fama. Antes de assumir o morro. E se tem uma verdade que ninguém precisa me contar, é que aquele maluco nunca esqueceu a Heloísa. Nunca. Nem por um segundo. Durante três anos eu vi ele fingir que seguiu em frente. Vi ele procurar notícia dela sem ninguém perceber. Vi ele guardar foto antiga. Vi ele mudar de assunto quando alguém falava o nome dela. Vi ele beber além da conta e acabar falando dela do mesmo jeito. Sempre dela.
Por isso, quando ela voltou, eu soube na hora. A vida dele tinha acabado de ficar muito mais complicada. E não era só por causa dela. Era por causa da Angélica também. Porque uma coisa é amar alguém que está longe. Outra completamente diferente é continuar amando quando essa pessoa aparece na sua frente todos os dias.
E foi exatamente isso que aconteceu. Assim que nos aproximamos da mesa, percebi que o clima estava estranho. Heloísa estava séria. Sapão também. Tairon tentou agir normalmente, mas eu conheço aquele maluco melhor do que ele imagina. Vi a forma como os olhos dele brilharam quando encontraram os dela. Vi a maneira como ele procurava qualquer desculpa para ficar perto. E vi também o jeito que ela ficou desconfortável. Aquilo me chamou atenção. Porque se tinha uma coisa que eu lembrava sobre os dois era que eles viviam grudados quando eram mais novos. Agora parecia diferente. Parecia que existia alguma coisa ali que ninguém estava falando.
E quando a Angélica apareceu no restaurante eu tive certeza disso. A mulher chegou igual um furacão. Deu beijo no rosto do Tairon. Sentou. Falou de gravidez. Falou de almoço. Falou de um monte de coisa. Mas o que ela realmente estava fazendo era marcando território. Não precisava ser nenhum gênio pra perceber. A questão era que ela estava marcando território pra pessoa errada. Porque Heloísa não era uma mulher qualquer. Era a dona do comando. A herdeira legítima. A pessoa que estava acima de todo mundo naquela p***a. Inclusive de mim. Inclusive do Tairon. Inclusive do próprio Sapão. E muita gente ainda não tinha entendido isso.
Quando Heloísa levantou dizendo que precisava resolver umas coisas, percebi na hora que ela só queria sair dali. Sapão também percebeu. Tairon percebeu. Até a Angélica percebeu. Só fingiram que não.
Depois que a situação acalmou um pouco, levantei da mesa. Precisava espairecer antes que acabasse me metendo onde não fui chamado. Passei pelo balcão e encontrei a Mariana organizando algumas comandas.
— Na paz? — perguntei.
Ela levantou os olhos e sorriu.
— Tudo sim. E você?
— Levando.
Ela soltou uma risadinha.
— Imagino.
Me apoiei no balcão.
— E a tua irmã?
Na mesma hora ela suspirou.
— Continua me dando dor de cabeça.
— Tá feio assim?
— Mais do que você imagina.
Balancei a cabeça. Eu acreditava. Aquela Talita parecia uma granada sem pino. Uma hora ia explodir.
— Vai melhorar.
— Espero que sim.
Ela ficou mexendo nas comandas enquanto falava.
— Eu tento ajudar ela, mas parece que nada adianta.
— Cada um tem seu tempo.
— Às vezes eu acho que tô falhando.
— Não tá não.
Ela me olhou surpresa.
— Como você sabe?
— Porque se tivesse falhando tu não tava preocupada desse jeito.
Ela ficou quieta. Depois sorriu. Um sorriso pequeno. Mas sincero.
— Obrigada.
— Tamo junto.
Me despedi dela e saí do restaurante. Lá fora encontrei o Tairon perto da moto. O infeliz estava olhando pro nada. Claramente pensando na mesma pessoa. Me aproximei.
— Tu tá ferrado.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Lá vem você.
— Tô mentindo?
— Bastante.
— Então tá.
Ele passou a mão na nuca. Sinal clássico de nervosismo.
— Fala logo.
— Tá ligado que a Angélica provocou a Heloísa, né?
O silêncio respondeu antes dele. E isso já dizia muita coisa.
— Tô ligado.
— E?
— E eu vou resolver.
Balancei a cabeça.
— Espero que resolva mesmo.
Ele me encarou.
— Tu acha que eu não vi?
— Vi que viu.
— Então pronto.
— Não tá pronto p***a nenhuma.
Ele suspirou irritado.
— Qual foi agora?
— Tu tá tentando apagar incêndio com gasolina.
Aquilo fez ele ficar quieto. Porque no fundo sabia que eu estava certo. A situação já tinha passado do ponto de ser ignorada.
— Eu vou conversar com ela.
— Tem que conversar mesmo.
— E vou resolver.
— Espero que sim.
Porque se não resolver... Nem terminei a frase. Não precisava. Nós dois sabíamos.
Subimos o morro juntos. Cada um perdido nos próprios pensamentos. Chegando na boca, fui direto resolver as coisas do baile. Porque aquele final de semana precisava ser perfeito. Não era só uma festa. Era a apresentação oficial da Heloísa. Era o anúncio de quem estava no comando. Era um recado para aliados. Para inimigos. Para todo mundo.
Passei a tarde falando com fornecedor. Conferindo segurança. Acertando som. Organizando equipe. Porque qualquer erro seria comentado. E naquele momento a última coisa que precisávamos era parecer desorganizados.
Enquanto trabalhava, percebi uma coisa. O morro inteiro estava falando da Heloísa. Na contenção. Nas vielas. Nos bares. Nas lajes. No restaurante da Dona Neuza. Todo mundo. Alguns lembravam dela criança. Outros só conheciam as histórias. Mas todos queriam saber a mesma coisa. Como seria a nova patroa. E eu entendia. Porque ela tinha voltado diferente. Mais madura. Mais segura. Mais preparada. Mas ao mesmo tempo ainda parecia carregar um peso enorme dentro dela. Talvez pela morte do pai. Talvez pelos anos longe. Talvez por causa do próprio Tairon. Difícil saber. O que eu sabia era que aquela volta tinha mexido com todo mundo. Inclusive com gente que fingia não se importar.
Já era fim de tarde quando sentei na minha sala por alguns minutos. Finalmente sozinho. Olhei pela janela. O movimento da favela continuava igual. Moto subindo. Vapor descendo. Criança brincando. Mas a sensação era outra. Como se alguma coisa estivesse prestes a mudar. E talvez estivesse mesmo. Porque a Heloísa tinha voltado. Os inimigos logo iam aparecer. Os curiosos também. O baile estava chegando. E o Tairon continuava preso entre o passado e o presente. Entre a mulher que ama. E a mulher com quem construiu uma vida.
Soltei uma risada sozinho. O Tairon tava completamente fodido. E eu tinha quase certeza de que aquilo era só o começo. Porque quando sentimento, poder e orgulho se misturam... Sempre dá merda. Sempre.