Sapão narrando
Tem amizade que nasce na infância.
Outras nascem na guerra.
A minha com o pai da Heloísa, nasceu no meio das duas coisas.
Eu conheci aquele filho da p**a quando a gente ainda era moleque.
Na época que corria descalço pelos becos, roubava fruta dos quintais dos outros e achava que era dono do mundo.
Crescemos juntos.
Apanhamos juntos.
Matamos juntos.
Sobrevivemos juntos.
E quando você passa a vida inteira dividindo tudo com alguém, chega uma hora que o sangue deixa de importar.
Porque vira irmão.
E foi exatamente isso, que ele se tornou.
Meu irmão.
Por isso que a morte dele acabou comigo.
Até hoje, tem dias que eu acordo, esperando ouvir a voz dele me xingando por alguma merda que eu fiz.
Tem dias que entro naquela casa e ainda procuro ele sentado na sala.
Tem dias que esqueço que ele morreu.
E aí a realidade bate de novo.
A emboscada mudou tudo.
Não só pra Heloísa.
Pra mim também.
Pra p***a toda.
Lembro daquela noite como se tivesse acontecido ontem.
Os tiros.
O sangue.
A correria.
O caos.
E ele ali.
Caído.
Lutando pra continuar respirando.
Eu segurei ele.
Tentei manter ele consciente.
Mas, nós dois sabíamos que não tinha volta.
E mesmo naquele estado, a preocupação dele não era consigo mesmo.
Era com ela.
Sempre foi ela.
— Protege minha menina.
Foi uma das últimas coisas que ele me disse.
Eu nunca vou esquecer.
— Promete pra mim.
E eu prometi.
Sem pensar duas vezes.
Porque, ele faria a mesma coisa pelo meu filho.
Porque era meu irmão.
Porque, era a última coisa que ele estava me pedindo.
Então quando a Heloísa foi embora, eu sabia que estava fazendo a coisa certa.
Doeu?
Pra c*****o.
Mas era necessário.
Tinha gente querendo a cabeça dela.
Tinha inimigo surgindo de todo lado.
Tinha traidor escondido dentro do próprio movimento.
E qualquer pessoa que soubesse onde ela estava, podia colocar a vida dela em risco.
Qualquer uma.
Até mesmo meu próprio filho.
Não porque ele faria alguma coisa.
Jamais.
Mas, porque quanto mais gente soubesse, maior era o perigo.
E eu não podia correr esse risco.
Então eu menti.
Mentia toda vez que o Tairon perguntava.
Mentia quando ele chegava em casa querendo notícias.
Mentia quando ele passava noites procurando contato.
Mentia quando ele contratava gente, pra tentar descobrir alguma informação.
E toda vez que eu fazia isso, parecia que estava traindo meu filho.
Mas, eu estava protegendo a filha do meu irmão.
E entre a confiança do meu filho e a vida da Heloísa...
Eu escolheria a vida dela todas as vezes.
Porque, foi isso que eu prometi.
Durante esses três anos eu acompanhei tudo.
As ligações.
As mensagens.
As mudanças de cidade.
As dificuldades.
As saudades.
Eu sabia quando ela estava bem.
Sabia quando estava m*l.
Sabia quando chorava.
Sabia quando sentia falta de casa.
Mas nunca contei nada.
Nem pro Tairon.
Nem pra ninguém.
Porque, segredo enterrado é segredo seguro.
E naquele momento, ela precisava desaparecer.
Hoje eu vejo ela andando pela casa do pai, e às vezes esqueço que já tem dezoito anos.
Porque na minha cabeça, ela continua sendo aquela menina correndo pela laje.
Só que agora ela voltou decidida.
Decidida demais.
Quer assumir o comando.
Quer aprender.
Quer ocupar o lugar que o pai deixou.
E isso me preocupa.
Não porque eu ache ela incapaz.
Muito pelo contrário.
A Heloísa é inteligente pra c*****o.
Aprende rápido.
Tem personalidade.
Tem coragem.
O problema é que, ela ainda não conhece as maldades desse mundo.
Não conhece as cobras.
Não conhece os falsos aliados.
Não conhece os homens que sorriem na tua frente, enquanto planejam te matar pelas costas.
Eu conheço.
Passei a vida inteira conhecendo gente assim.
E agora vou ter que ensinar tudo isso pra ela.
Porque foi a escolha dela.
Deixar o comando nas minhas mãos, até ela completar dezoito anos e decidir o que queria fazer.
Se quisesse vender tudo e sumir, eu apoiava.
Se quisesse escolher outro sucessor, eu apoiava.
Mas ela escolheu assumir.
E agora eu vou ensinar.
Nem que seja na marra.
Porque uma coisa eu sei.
A volta dela vai mexer com tudo.
Já está mexendo.
Os inimigos vão aparecer.
Os oportunistas vão aparecer.
Os traidores vão aparecer.
Porque o crime é assim.
Sujo.
Covarde.
Quem tem o poder atrai urubu.
E agora, existe uma menina de dezoito anos, sentada em cima de uma herança, que muita gente gostaria de roubar.
Tem muito marmanjão por aí, que não vai aceitar receber ordem de mulher.
Muito menos, de uma garota.
Eu já conheço o pensamento dessa gente.
Por isso, preciso preparar ela.
Porque, quando vierem testar a força dela...
E eles vão vir...
Ela precisa estar pronta.
Se depender de mim, ninguém encosta um dedo nela.
Ninguém.
Nem inimigo.
Nem aliado.
Nem família.
Principalmente família.
Meu olhar foi até a janela, enquanto eu pensava no Tairon.
Porque eu conheço meu filho.
Melhor do que qualquer pessoa.
Conheço desde o primeiro dia que segurei ele nos braços.
E sempre soube que ele era apaixonado pela Heloísa.
Sempre.
Desde moleque.
Antes mesmo dele perceber.
Eu já sabia.
Via no jeito que olhava pra ela.
No jeito que protegia ela.
No jeito que ficava puto, quando algum garoto chegava perto.
Era óbvio.
Pra mim.
Pro pai dela.
Pra comunidade inteira.
Só eles dois, que demoraram pra perceber.
Ou fingiram que não percebiam.
E quando ela foi embora, eu vi meu filho sofrer.
Vi ele procurar.
Vi ele perder noites.
Vi ele quebrar a cara atrás de informação.
Mas também, vi a vida continuar.
Vi quando conheceu a Angélica.
Vi quando começaram a se envolver.
E quando ele apareceu dizendo que ela estava grávida...
Confesso que senti orgulho.
Muito orgulho.
Porque, ele poderia ter corrido.
Poderia ter fugido.
Poderia ter largado tudo.
Mas não.
Sentou comigo.
Olhou na minha cara.
E falou:
— Vou assumir minha responsabilidade.
Eu ainda lembro.
Perguntei se ele tinha certeza.
Perguntei se aquilo era realmente o que queria.
Porque eu sabia.
Sabia quem morava no coração dele.
Sempre soube.
Mas ele respondeu uma coisa que nunca vou esquecer.
— Fui homem pra fazer. Agora tenho que ser homem pra assumir.
Naquele dia eu vi que tinha criado um homem.
E fiquei orgulhoso pra c*****o.
Só que a vida resolveu ser c***l.
A perda daquele bebê destruiu a Angélica.
Destruiu mesmo.
E desde então, as coisas nunca mais voltaram ao normal.
Ela mudou.
Ficou mais frágil.
Mais dependente.
Mais instável.
E talvez eu esteja errado.
Talvez eu seja injusto.
Mas existe uma parte de mim, que não acredita em tudo.
Porque, já vi ela usar o sofrimento pra prender meu filho.
Já vi ela usar culpa.
Já vi ela usar medo.
Já vi ela usar a própria fragilidade como arma.
E isso me incomoda.
Muito.
Porque, o Tairon carrega o peso do mundo nas costas.
E ela sabe disso.
Agora a Heloísa voltou.
E eu já sei exatamente o que vai acontecer.
Meu filho vai largar tudo.
Mais cedo ou mais tarde.
Eu conheço aquele moleque.
Conheço melhor do que ele mesmo.
Ele pode tentar lutar contra.
Pode tentar resistir.
Pode tentar fingir.
Mas não vai adiantar.
Porque ele nunca deixou de amar aquela menina.
Nem por um dia.
O problema não é esse.
O problema é como a Angélica vai reagir.
Porque, uma mulher machucada pode ser imprevisível.
E isso é o que realmente me preocupa.
Só que, existe uma coisa que todo mundo deveria entender.
Enquanto eu estiver vivo...
Enquanto eu respirar...
Enquanto meu coração continuar batendo...
Ninguém vai machucar a Heloísa.
Ninguém.
Nem os inimigos.
Nem os traidores.
Nem a Angélica.
Nem o meu próprio filho se for preciso.
Porque antes de morrer, meu irmão colocou a vida da filha dele nas minhas mãos.
E eu pretendo honrar essa promessa, até o último dia da minha vida.
Custe o que custar.