Capitulo 19

1629 Words
Tairon narrando  Tem horas que a vida dá uns tapas na cara da gente. E o pior é quando você percebe que mereceu cada um deles. Desde que a Heloísa voltou, eu comecei a prestar atenção em uma pá de coisa que antes eu simplesmente ignorava. Ou fingia que não via. Talvez porque fosse mais fácil. Talvez porque eu estivesse acomodado. Ou talvez porque eu estivesse tão ocupado tentando manter tudo funcionando que deixei de observar o que estava acontecendo bem na minha frente. Só que agora acabou. Porque se tem uma coisa que meu pai sempre me ensinou foi que homem que quer sobreviver nesse mundo tem que ficar com um olho no peixe e outro no gato. E eu não tava fazendo isso. Tava deixando passar coisa demais. Tava confiando demais. Tava relevando demais. E o resultado disso foi uma bagunça do c*****o.  A primeira pessoa que me fez enxergar isso foi justamente a Angélica. Porque quanto mais eu paro pra pensar naquela história da gravidez, menos sentido ela faz. Primeiro ela aparece do nada falando que a menstruação atrasou. Depois faz questão de tocar no assunto justamente na frente da Heloísa. Aí quando eu vou atrás pra entender melhor, ela já vem com outra conversa. Que a psicóloga falou isso. Que é emocional. Que ela colocou na cabeça que estava grávida. Que o corpo reagiu. Que não sei o quê. Eu não tô dizendo que essas coisas não acontecem. Porque acontecem. Tô ligado nisso. Só que o problema não é esse. O problema é que essas situações sempre aparecem quando convém. Sempre. Toda vez que alguma coisa acontece. Toda vez que ela se sente ameaçada. Toda vez que alguma coisa foge do controle dela. É sempre a mesma história. E eu comecei a perceber isso. Comecei a ligar os pontos. Porque uma coisa é sofrer. Outra coisa completamente diferente é usar o sofrimento como arma. E eu ainda não sei qual das duas coisas está acontecendo.  Por isso não vou agir no impulso. Porque se eu chegar igual um maluco acusando ela de tudo, ela vai negar. Vai chorar. Vai inverter a situação. E no final eu vou continuar sem resposta. Então vou fazer diferente. Vou observar. Vou esperar. Vou descobrir sozinho. Os caras já me passaram a visão que ela foi na casa da Heloísa. E isso já foi suficiente pra me deixar bolado. Porque eu conheço a Heloísa. Se eu perguntar diretamente o que aconteceu, ela não vai falar. Vai dizer que não foi nada. Vai desconversar. Vai fingir que tá tudo bem. Sempre foi assim. Então agora eu vou descobrir pelas minhas próprias mãos. Porque uma coisa eu decidi. Nada mais vai passar batido. Nada. Nem dentro da minha casa. Nem dentro da boca. Nem em lugar nenhum na minha favela.  E enquanto eu tentava organizar essa bagunça da minha vida pessoal, ainda tinha os problemas do movimento. Porque o universo gosta de testar minha paciência. O estoque tava praticamente no limite. E o filho da p**a do Sabiá tinha perdido mais uma carga. Mais uma. Já era a terceira vez em poucos meses. Quando ele me ligou dando desculpa, eu quase atravessei o telefone na parede.  — Eu não quero saber dos teus problemas. — Foi a primeira coisa que falei.  — Mas Tairon...  — Não quero saber, eu paguei pela carga cäralho, e eu quero receber.  — Os botas...  — f**a-se os botas. Eu quero a minha carga.  — A polícia tava em cima.  — Tu tem até amanhã, ou eu acho outro fornecedor. Tu me cobrou a mais pela entrega rápida, e tomei foi no cü, porque até agora não tem poŕra nenhuma aqui.  Do outro lado ele ficou quieto. Então continuei.  — Até o final do dia eu quero minha mercadoria aqui.  — Tô tentando resolver. Pode pá que vai chegar  — Como?  — Helicóptero.  Confesso que até eu fiquei em silêncio.  — Tá me tirando?  — Não, parça, tô passando a visão real.  — Vai trazer de helicóptero mesmo?  — Vou.  Passei a mão no rosto.  — Então faz essa pørra acontecer. Ou então manda minha grana que vou na captura de outro.  — Vai acontecer.  — Acho bom, porque se der errado de novo, acabou nossa parceria.  E desliguei. Já tava sem paciência.  Quando achei que finalmente teria alguns minutos de tranquilidade, Angélica começou a me ligar igual uma maluca. Eu já estava estressado pra cäralho e estava ignorando as chamadas dela e ela não parava de insistir nessa pörra, então atendi a ligação bolado falei uma pá de fita pra ela e depois desliguei a chamada. Vitin entrou na minha sala. Pela cara dele já sabia que vinha problema.  — Fala. Qual foi do b.o agora?  — Tem um vacilão devendo. Os caras me passaram a visão agora.  Fechei os olhos. Püta que pariu, tiraram o dia pra me testar hoje.  — Quanto essa porrä?. — 3 mil. — Meu sangue ferveu.  — Eu não mandei parar de vender fiado? Qual a pørra do problema desses caras?.  — A partir de hoje pode deixar avisado pra esses filho da püta que quem vende fiado e eu não receber, eles vão assumir a divida que tão devendo eu vou descontar do bolso deles até eles aprender a obedecer uma ordem.  — O cara jurou que pagava. O mano conhecia ele tá ligado, mais até agora nada.  Levantei da cadeira na mesma hora.  — Püta que me pariu viu, hoje não é meu dia.— falei saindo putö e ele veio atrás de mim  — Calma.  — Calma é o cäralho. Porque sempre é a mesma história. Na hora de comprar não tem dinheiro. Na hora de pagar piorou, ninguém aparece. Aí eu tenho que correr atrás. Tenho que cobrar. Tenho que resolver. E ainda fico no prejuízo.  — Onde ele tá?  — Rua doze.  — Bora lá. — falei pegando meu celular e a chave da moto.  Saí da sala ainda bolado. Foi quando encontrei meu pai chegando. Ele me olhou e já percebeu meu humor.  — Problema?  — Quando não tem?  Ele deu risada.  — Fodå.  Paramos perto da contenção.  — E aí? Como tá aquela situação do fornecedor?  Balancei a cabeça.  — Perdeu mais uma carga. — falei bolado só de lembrar do arrombado.  — De novo? Esse cara tá de brincadeira.  — De novo.  — E agora?  — Disse que vai trazer outra de helicóptero.  Meu pai começou a rir.  — Pelo menos criatividade ele tem.  — Eu não tô achando graça nenhuma. Já passei a visão pra ele que se minha carga não estiver aqui até o final do dia o bagulho vai ficar louco.  Foi então que ele soltou a bomba.  — Possa ser que é essa seja A última carga que tu tenha dor de cabeça  — Como assim?  — Heloísa resolveu. A mina é desenrolada.  Olhei pra ele sem entender.  — Resolveu o quê?  — A carga. Ela resolveu nossos problemas ta ligado.  Demorei alguns segundos processando.  — Tá falando sério?.— perguntei sentindo um orgulho do caralhø dela.  — Tô. Na hora nem eu acreditei ta ligado.  — Como?  — Arrumou fornecedor novo. Foi no corre dela.  — Sozinha?.— perguntei abismado.  — Sozinha.  Aquilo me arrancou uma risada.  — Tá de s*******m.  — Não tô.  — A mina assumiu agora e já resolveu uma parada que eu tô tentando resolver há semanas?  — Resolveu.  Balancei a cabeça incrédulo.  — Cäralho.  Meu pai abriu um sorriso.  — Ela puxou o pai.  E puxou mesmo. Porque o velho dela era desenrolado pra c*****o. Sempre foi.  — E ainda não acabou.  — Tem mais?  — Fornecedor argentino.  Na hora eu arregalei os olhos.  — Ouro branco?  — Ouro branco.  — Tá pörra.  Meu pai deu risada da minha reação.  — Agora tá entendendo? Essa mulher é f**a.  — Eu avisei.  Senti uma satisfação estranha. Porque aquele peso que eu tava carregando por causa da carga simplesmente desapareceu. Ela tinha resolvido. E resolveu rápido. Do jeito dela.  — E como vai trazer?  Meu pai balançou a cabeça.  — Isso eu não vou falar.  — Nem pra mim?  — Nem pra você.  — Qual foi?  — Quanto menos gente souber, melhor.  Acabei concordando. Ele tava certo. Nesse mundo informação vale mais que dinheiro.  — Então agora é com ela.  — É.  Meu pai cruzou os braços.  — Pra falar a verdade, acho que já ensinei tudo que tinha pra ensinar.  — Ela tá pronta?  — Mais do que muita gente imagina.  Olhei na direção do morro. Pensando nela. Na forma como chegou. Na rapidez com que começou a resolver as coisas. Na moral que já tava conquistando. E senti orgulho. Orgulho pra cäralho.  — Ela vai se sair bem.  — Também acho.  Meu pai fez um toque comigo.  — Agora vou lá que só tem b.o pra resolver.  — mete marcha.  Subi na moto. Mas antes de acelerar, fiquei pensando numa coisa. Talvez eu tivesse passado tempo demais tentando controlar tudo. Tentando resolver tudo sozinho. Tentando carregar o mundo nas costas. E talvez por isso eu estivesse tão cansado. Porque a verdade é que algumas pessoas nasceram pra liderar. E Heloísa era uma delas.  Agora eu só precisava resolver a bagunça que eu mesmo tinha criado. Porque uma coisa era certa. Eu podia ter errado. Podia ter feito merda. Podia ter tomado decisões das quais me arrependo até hoje. Mas eu não tinha desistido dela. Nunca desisti. E não ia começar agora. Engatei a marcha. A moto rugiu debaixo de mim. E segui rumo à Rua Doze. Porque primeiro eu resolveria os problemas do morro. Depois resolveria os problemas da minha vida. E quando chegasse a hora... Eu faria o que fosse preciso para reconquistar a única mulher que eu nunca consegui esquecer.
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