capitulo 08

1370 Words
Angélica narrando Eu costumava acreditar, que amor era uma coisa bonita. Daquelas que acontecem sem esforço, sem dor, sem precisar disputar espaço. Mas a vida me ensinou que, algumas pessoas nascem para serem escolhidas e outras passam a vida inteira tentando ser. Eu conheci o Tairon quando ainda era adolescente. Naquela época, ele já chamava atenção por onde passava. Não era só pela aparência ou pelo respeito que tinha dentro do morro. Era o jeito dele. A forma como falava, como andava, como todo mundo parecia olhar quando ele chegava. E eu olhava também. Desde a primeira vez. O problema era que eu não era a única. Mas diferente das outras meninas, eu sabia que não tinha chance. Todo mundo sabia. Todo mundo sempre soube que, o coração dele tinha dona. Heloísa. Era impressionante. Não importava quantas mulheres aparecessem na vida dele. Não importava quem tentasse se aproximar. O nome dela sempre estava lá, ocupando um espaço que ninguém conseguia alcançar. Por isso, muitas meninas nem perdiam tempo. Era uma batalha perdida. Meu irmão era amigo dele há anos. Trabalhava com ele, era gerente dele e conhecia cada detalhe da vida daquele homem. E também sabia de um detalhe, que eu fazia questão de esconder de todo mundo. Eu era apaixonada pelo Tairon. Completamente. Perdidamente. Ridiculamente apaixonada. Durante anos, eu assisti ele passar por mim, sem sequer me enxergar. Eu sorria e ele respondia por educação. Eu puxava assunto e ele encerrava a conversa em poucos minutos. Não era maldade. Era indiferença. E às vezes, a indiferença machuca mais que qualquer rejeição. Então aconteceu. O pai da Heloísa morreu. E pouco tempo depois ela deixou o morro. Eu me lembro exatamente da sensação que tive quando soube. Enquanto todo mundo comentava sobre a tragédia, uma parte horrível de mim enxergou uma oportunidade. Pela primeira vez ela não estava ali. Pela primeira vez existia um espaço vazio. E eu queria ocupar aquele espaço. Procurei meu irmão naquela mesma semana. Lembro dele sentado na área da casa fumando, enquanto eu andava de um lado para o outro sem coragem de falar. Até que tomei coragem. — Eu amo ele! Meu irmão levantou os olhos. — Eu sei. — Eu quero tentar. Ele suspirou. — Angélica... — Me ajuda! Ele ficou alguns segundos me encarando. — Você sabe que isso não significa que vai dar certo. — Eu sei. — Todo mundo sabe que ele é apaixonado pela Heloísa. — Eu sei. — E pode não ser agora, mas uma hora ou outra ela volta. Eu apertei as mãos. — Eu só preciso de uma chance. Ele passou a mão pelo rosto. — Você tá pedindo pra sofrer. — Talvez. — E mesmo assim quer tentar? — Quero. Depois de muito insistir, ele concordou em me ajudar. E foi assim que tudo começou. Algumas semanas depois teve um baile. Um daqueles que, faziam o morro inteiro ficar acordado até amanhecer. Meu irmão me chamou mais cedo. Disse que aquela seria minha oportunidade. E eu fui. Lembro das luzes coloridas. Do som alto. Da multidão. Do coração quase saindo pela boca. Eu m*l conseguia respirar. E então vi o Tairon. Naquela noite eu consegui me aproximar dele. Consegui ficar com ele. Era tudo o que eu sonhava há anos. Mas a realidade não foi como eu imaginei. Porque mesmo comigo ali... Mesmo me beijando... Mesmo me tocando... Ele chamava por ela. Heloísa. O tempo todo. Como se ela estivesse presente. Como se fosse ela ali. Como se eu fosse apenas uma sombra, tentando ocupar um lugar, que nunca me pertenceu. Cada vez que ele dizia o nome dela parecia uma facada. Mas eu ignorava. Porque, eu estava com ele. E naquela época, isso era suficiente. Ou pelo menos eu fingia que era. No dia seguinte, ele voltou a ser quem sempre foi. Distante. Frio. Indiferente. Eu mandava mensagem. Ele demorava para responder. Eu procurava assunto. Ele encerrava rápido. Eu tentava me aproximar. Ele se afastava. Até que um mês depois, minha vida mudou completamente. Eu descobri que estava grávida. Quando vi o resultado, eu fiquei parada durante vários minutos olhando para aquele teste. Sem conseguir acreditar. Assustada. Nervosa. Mas também feliz. Porque de alguma forma, aquilo me ligava a ele para sempre. Quando contei para o Tairon, ele me encarou em silêncio. — Você tem certeza? — Tenho. — Absoluta? — Se você quiser, a gente faz exame de DNA. Ele continuou me olhando. — Você faria? — Claro! Porque eu sabia. Sabia que aquele filho era dele. Eu nunca tinha estado com outro homem. Nunca. Depois de alguns minutos ele apenas assentiu. — Eu vou cuidar de você. E cuidou. Não da forma que eu sonhava. Não com amor. Mas cuidou. Garantiu que eu tivesse tudo. Que nada faltasse. Que eu estivesse segura. E eu me agarrei àquilo. Passei a acreditar que, com o tempo ele aprenderia a me amar. Que bastava paciência. Que bastava dedicação. Que um dia, ele me enxergaria. Só que, a vida adora destruir certezas. Quando eu finalmente achei que estava conseguindo construir alguma coisa... Eu perdi meu bebê. Foi a pior dor da minha vida. Uma dor tão grande que, parecia impossível continuar respirando. Mas junto daquela dor surgiu outra. O medo. O medo dele ir embora. O medo dele perceber que, não existia mais motivo para ficar. O medo de voltar a ser invisível. Então eu fiz algo do qual nunca me orgulhei. Eu comecei a fingir. Fingir que estava pior do que realmente estava. Fingir que a dor me consumia completamente. Fingir uma depressão pós-parto que me mantivesse dependente dele. Foi egoísta. Foi errado. Mas na época parecia a única saída. E funcionou. Durante dois anos funcionou. Ele ficou. Ele cuidou de mim. Me protegeu. Me tratou como uma princesa. Não me deu amor. Não aquele amor que eu queria. Mas me deu atenção. Respeito. Carinho. E eu aprendi a me contentar com isso. Porque às vezes, uma migalha parece um banquete, quando você passou a vida inteira passando fome. Naquela manhã, eu estava indo até uma loja de roupas do morro. Final de semana teria baile. E eu iria acompanhá-lo. Passei horas escolhendo mentalmente o vestido que usaria. Imaginando como seria chegar ao lado dele. Como as pessoas olhariam para nós. Como finalmente pareceríamos um casal de verdade. Eu caminhava distraída quando ouvi o barulho de uma moto diminuindo ao meu lado. Olhei. Era meu irmão. Mas bastou um segundo, para perceber que havia alguma coisa errada. Ele desligou a moto. Passou a mão na nuca. E evitou me olhar. Meu estômago afundou. — O que aconteceu? Ele respirou fundo. Coçou a cabeça. — Pelo visto você ainda não sabe. — Saber o quê? O silêncio dele foi suficiente para me deixar nervosa. — Fala logo. Ele fechou os olhos por um instante. — Você precisa tomar cuidado. — Por quê? — Porque a Heloísa voltou. Foi como levar um soco. Senti meu sangue ferver instantaneamente. Meu coração disparou. E por alguns segundos, eu nem consegui responder. Não. Não. Não. Depois de tudo. Depois de dois anos. Depois de tudo o que eu fiz para construir meu espaço. Ela simplesmente tinha voltado. — Tá brincando comigo? — Não. Minha mandíbula travou. — Aquela v***a voltou? — Angélica... — Não. Balancei a cabeça. — Não. Agora tudo fazia sentido. Absolutamente tudo. O jeito estranho do Tairon na noite anterior. A forma como saiu de casa sem explicar nada. O olhar distante. O silêncio. E principalmente, o fato de ter voltado horas depois. Com cheiro de perfume feminino. Naquele momento, todas as peças se encaixaram. E eu senti algo nascer dentro de mim. Algo feio. Algo perigoso. Porque, uma coisa era perder uma batalha. Outra completamente diferente, era assistir alguém arrancar a sua vida inteira das suas mãos. Eu não lutei durante anos. Não sofri durante anos. Não perdi um filho. Não construí tudo isso. Para simplesmente, assistir aquela mulher voltar e tomar o lugar que eu levei tanto tempo para conquistar. Talvez o Tairon nunca tivesse me amado. Mas ele era meu. Pelo menos era isso que eu repetia para mim mesma. E eu não pretendia entregá-lo sem lutar. Nem para a Heloísa. Nem para ninguém.
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