Capitulo 03

1409 Words
Heloísa narrando Meu corpo inteiro travou quando a porta da sala se abriu. Foi automático. Como se aqueles três anos, nunca tivessem existido. Como se eu ainda fosse a mesma garota de quinze anos, que ficava procurando desculpas para cruzar com ele pelos becos do morro. Fiquei parada no canto da sala, sem conseguir me mexer. Sem conseguir respirar direito. E então ele entrou. Tairon. Mais alto. Mais largo. Mais homem. O cabelo continuava escuro, agora cortado mais baixo nas laterais. As tatuagens tomavam conta do pescoço e dos braços. O semblante era mais sério do que eu lembrava. O menino que eu conheci tinha desaparecido. No lugar dele existia o dono do Dendê. Mas bastou ouvir sua voz, para que meu coração se comportasse exatamente como fazia anos atrás. — Que tu tá fazendo aqui, coroa? Ele nem tinha me visto ainda. Estava olhando para Sapão. Sapão soltou uma risada baixa. — Vim trazer uma pessoa em casa. Vi a expressão dele mudar imediatamente. Foi como se alguma coisa tivesse estalado dentro da cabeça dele. — Trouxe quem? Sapão me lançou um olhar rápido. — Ela voltou! O silêncio tomou conta da sala. Eu vi o corpo dele endurecer. Vi os olhos escuros arregalarem. Vi a incredulidade tomando conta do seu rosto. — Ela voltou? Sapão apenas apontou discretamente com a cabeça, na minha direção. E então, ele se virou. Nossos olhares se encontraram. Meu coração simplesmente parou. Meu Deus! Era exatamente a mesma sensação. O mesmo frio na barriga. A mesma falta de ar. A mesma vontade absurda de sorrir. Como quando eu era mais nova. Como todas as vezes que, encontrava ele pelos cantos daquele morro. Por um segundo, nenhum de nós falou nada. Só nos encaramos. Como se, estivéssemos tentando recuperar três anos inteiros em poucos segundos. — Heloísa... Meu nome saiu baixo. Quase um sussurro. E antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ele veio na minha direção. Quase correndo. — c*****o! Quando percebi, já estava sendo levantada do chão. Soltei um grito assustada e comecei a rir. Tairon me pegou no colo e me rodou no ar, como fazia quando éramos crianças. Seu abraço era apertado. Quente. Familiar. Meu rosto afundou em seu peito e, pela primeira vez desde que voltei ao Rio, senti que realmente estava em casa. Sorri sem conseguir evitar. Porque, aquela reação, não parecia ensaiada. Não parecia obrigação. Parecia genuína. E aquilo, mexeu comigo mais do que deveria. — Tu tá aqui mesmo... — ele falou ainda me segurando. Quando finalmente me colocou no chão, continuou me encarando como se estivesse com medo de eu desaparecer novamente. — Nem acredito nisso. Sorri. — Eu também não. — Onde tu tava esse tempo todo? — Rodando por aí. — Rodando por aí? — Ele riu. — É. — Heloísa, eu fiquei três anos sem saber se tu tava viva. Meu sorriso desapareceu. Porque, eu não tinha pensado por esse lado. Pra mim, eu era a pessoa abandonada. Mas talvez, ele também tivesse sido deixado para trás. — Foi complicado — falei baixo. Ele ficou me olhando durante alguns segundos. Então perguntou: — E agora? Respirei fundo. — Agora é hora de voltar. — Voltar? Balancei a cabeça. — Voltar pra casa. Os olhos dele estreitaram. — Só isso? Olhei rapidamente para Sapão. — E assumir minhas responsabilidades. O clima mudou na mesma hora. Vi a expressão dele endurecer. — Que responsabilidades? — O comando. Silêncio. — O quê? — Eu já conversei com o Sapão. — Conversou? Assenti. — Ele vai me ensinar tudo que eu preciso saber. A surpresa tomou conta do rosto dele. Então ele se virou para Sapão. — Tu tava falando com ela esse tempo todo? Sapão cruzou os braços. — Tava. — E não me falou? — Não era da tua conta. — Como não era da minha conta? — Porque era um assunto entre eu e ela. Os dois ficaram se encarando durante alguns segundos. Eu quase conseguia ouvir o orgulho ferido do Tairon dali. Por fim, Sapão suspirou. — Eu precisava saber se ela tava bem. — Então vocês se falavam? — Sim. — O tempo todo? — Quando precisava. Tairon balançou a cabeça. Pela cara dele, claramente não tinha gostado daquilo. E eu entendia. Porque, eu tinha sumido. Do dia para a noite. Sem explicar nada. Sem dar notícias. Sem me despedir. Mas, eu também não tive escolha. Se tivesse ficado, provavelmente estaria morta. — Enfim! — falei, tentando mudar o rumo da conversa. — Agora eu tô de volta. Ele me olhou novamente. Longamente. Como se estivesse tentando decorar cada detalhe. E então sorriu. Um sorriso que eu não via fazia anos. — Se é loko... Levantei uma sobrancelha. — O quê? — Tu cresceu. Comecei a rir. — Engraçado ouvir isso de você. — Tô falando sério. O olhar dele percorreu meu rosto. Meu cabelo. Meu corpo. E por algum motivo, isso fez meu coração acelerar. — Você também cresceu. — Cresci? — Cresceu. Cruzei os braços. — Soube que tá até casado agora. A frase saiu antes que eu pudesse impedir. Droga! Assim que falei, percebi o peso das palavras. O clima morreu instantaneamente. Sapão virou o rosto. Coçou a cabeça. E ficou olhando para qualquer lugar que não fosse nós dois. Tairon também perdeu o sorriso. — É. Só isso. Uma única palavra. Mas foi suficiente. Meu estômago afundou. Porque, ouvir era diferente de saber. Durante três anos eu vi fotos. Comentários. Vídeos. Mas ouvir da boca dele que era verdade... Doeu. Muito mais do que eu gostaria. — Entendi. Ele apenas assentiu. Nenhum de nós sabia o que dizer depois daquilo. Até que ele respirou fundo. — Tenho que resolver umas paradas. Assenti. — Tranquilo. — Mas mais tarde eu colo aqui. Olhei para ele. — Pra quê? — Pra nós ir lá no Marcão. Sorri automaticamente. — A pizzaria? — A própria. — Aquela pizza continua horrível. — Eu sei. — Então por que ir? — Porque tu gostava. Meu coração deu um pequeno salto. — Tá bom. Ele sorriu. — Pode pá? — Pode. Tairon se aproximou. E antes que eu pudesse esperar qualquer coisa, depositou um beijo leve na minha cabeça. Meu coração quase saiu pela boca. — Até mais tarde. Então olhou para Sapão. — Cola lá na boca depois. — Já tô indo. Ele voltou a me encarar uma última vez. Um olhar longo. Demorado. Difícil de explicar. E então saiu. Fiquei parada observando a porta fechada. Tentando entender, porque meu coração ainda estava disparado daquele jeito. — Respira, garota! A voz de Sapão me trouxe de volta. Revirei os olhos. — Para de graça. Ele riu. — Tá na tua cara. Ignorei completamente. Sapão caminhou pela sala. — Escuta. Olhei para ele. — Hoje tu descansa. — Mas... — Sem mas. Ele apontou para mim. — Amanhã nós começa. Assenti. — A casa continua igual. Olhei ao redor. — Eu percebi. — Tá tudo limpo. — Uhum. — Dona Maria continua vindo aqui. Sorri. — Sério? — Um dia sim, um dia não. — Então deixa ela. — Tu não precisa pagar. — Mas... — Nem começa. Revirei os olhos. — Chato. — Teu pai era pior. Aquilo arrancou uma risada sincera de mim. Sapão sorriu. — Qualquer coisa que precisar me chama. — Tá bom! — Qualquer coisa mesmo. — Eu sei. Ele caminhou até a porta. — Amanhã cedo eu volto. — Certo. — E descansa. — Já entendi. Sapão saiu alguns segundos depois. E então, o silêncio tomou conta da casa. Pela primeira vez desde que cheguei. Fiquei sozinha. Olhei ao redor lentamente. A sala. Os móveis. As fotos. As lembranças. Um nó enorme se formou na minha garganta. Porque tudo estava igual. Mas ao mesmo tempo nada estava. Meu pai não estava ali. A voz dele não ecoava mais pela casa. As risadas dele não preenchiam os cômodos. Passei os dedos pelo encosto do sofá. Sorrindo entre lágrimas. Lembrando dos momentos felizes. Das festas. Dos almoços. Das broncas. Das noites em que eu achava que aquela felicidade, duraria para sempre. Mas, nada dura para sempre. Peguei minha mala devagar. Respirei fundo. E subi as escadas. Cada degrau parecia carregar uma memória. Quando finalmente cheguei ao meu quarto, empurrei a porta devagar. Tudo continuava exatamente como eu tinha deixado. E pela primeira vez desde que voltei... Eu me permiti acreditar que talvez, estivesse realmente em casa outra vez.
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