Tairon narrando
Eu não esperava encontrar meu pai e a Heloísa naquele restaurante. Mas no segundo em que entrei e vi os dois sentados naquela mesa, foi como se todo o resto desaparecesse. Só existia ela. Depois de três anos. Três anos sem poder olhar pra ela. Sem ouvir a voz dela. Sem sentir aquele sorriso bagunçando a minha cabeça. E agora ela tava ali. Na minha frente. Mais linda do que eu lembrava. Mais mulher. Mais madura. E mesmo assim continuava sendo a mesma Helô que eu carregava dentro do peito desde moleque.
Por isso me aproximei. Sem pensar duas vezes. Porque eu queria ficar perto dela. Nem que fosse por alguns minutos. Nem que fosse só ouvindo ela falar. Se eu pudesse escolher, passava uma semana inteira isolado em algum lugar só nós dois. Sem rádio. Sem morro. Sem responsabilidade. Sem ninguém. Só eu e ela. Pra matar a saudade desses três anos.
Mas a vida nunca foi tão simples. E eu tava começando a perceber isso. Principalmente porque ela tava diferente comigo. Não era fria. Mas também não era a Heloísa que eu conhecia. Aquela que vivia grudada em mim. Que me procurava pra tudo. Que dividia os segredos. Que me contava até quando brigava com o pai. Agora parecia existir uma barreira entre nós. Uma distância. E eu sabia exatamente o motivo. Porque eu conhecia aquela mulher. Mas confesso que nunca imaginei que ela me trataria assim.
No começo achei que fosse pelos anos longe. Depois pensei que talvez fosse por causa da responsabilidade do comando. Mas quando a Angélica apareceu... Eu tive certeza. Tinha mais coisa nessa história. Porque o desconforto da Heloísa foi imediato. Ela praticamente travou. E eu conhecia cada expressão daquela mulher. Conhecia desde criança. Sabia quando ela estava feliz. Quando estava nervosa. Quando estava triste. E naquele momento ela estava irritada. Muito irritada. O problema? Eu não fazia ideia do motivo.
Tentei agir normalmente. Mas por dentro eu já estava ligado. Porque a Angélica chegou daquele jeito. Me beijando. Sentando na mesa. Falando de gravidez. Falando de menstruação atrasada. Tudo na frente da Heloísa. E aquilo não parecia natural. Parecia uma marcação de território. E eu não gostei nem um pouco. Porque uma coisa eu nunca vou aceitar. Ninguém mexendo com a Heloísa. Ninguém. Não importa quem seja. Não importa a posição. Não importa a relação comigo. Eu nunca vou permitir. Porque eu amo aquela mulher. Sempre amei. E vou continuar amando.
A conversa morreu depois que ela saiu. Meu pai claramente ficou desconfortável. Vitin também. E a Angélica continuou sentada ali como se nada tivesse acontecido. Até que meu pai levantou.
— Vou pagar a conta.
Nem esperei. Sabia que ele só queria sair dali. Na verdade, todo mundo queria. Menos a Angélica. Vitin levantou logo depois. Foi até o balcão. E eu fiquei sozinho com ela na mesa. Respirei fundo. Porque agora eu queria respostas.
Olhei diretamente pra ela.
— Qual foi a real?
Ela piscou.
— Como assim? tá falando do que ?
— Tu sabe exatamente do que eu tô falando.
Ela desviou o olhar.
— Não sei não.- respondeu se fazendo de sonsa.
Balancei a cabeça.
— Ontem não tinha esse papo, porque tu não me contou?
Silêncio.
— Tu não falou nada sobre gravidez.
Ela mexeu no copo.
— Porque eu esqueci.
— Esqueceu?.- perguntei vendo ela ficar nervosa.
— Sim.
— Esqueceu que tua menstruação tá atrasada? como tu esquece disso se você tá sempre fazendo vários testes de gravidez ?.
— Hoje eu lembrei.
A resposta veio rápida demais. Pronta demais. E eu não gostei. Nem um pouco.
— Certo. — Fiquei olhando pra ela. — Então eu vou contigo.
Ela travou.
— Como assim? você não tá ocupado?.
— Pro posto. Vou junto tá ligada, se tu tiver mesmo gravida, eu quero tá lá pra saber.
— Não precisa. Eu te aviso quando chegar em casa.
— Precisa sim. É meu filho também pow.
— Tairon...
— Eu vou, e não se fala mais nisso.
Ela começou a balançar a cabeça.
— Tu tá ocupado.
— Resolvo depois.
— Tem muita coisa pra fazer.
— Eu sei.
— Não quero atrapalhar.
Foi aí que tive certeza. Ela tava inventando desculpas. Uma atrás da outra. E aquilo só confirmou o que eu já suspeitava. Aquilo não tinha sido espontâneo. Ela apareceu naquele restaurante por algum motivo. E eu tava começando a entender qual era.
Cruzei os braços.
— Escuta uma coisa.
Ela levantou os olhos.
— O quê?
— Se tu estiver pensando em fazer alguma parada contra a Heloísa...
O rosto dela endureceu.
— Tairon...
— Escuta que eu tô falando.
Ela imediatamente fez aquela expressão. A mesma. Aquela cara de vítima. De pessoa magoada. De quem tá sofrendo. E por muito tempo aquilo funcionou comigo. Porque eu sabia que ela tinha sofrido. Sabia da dor dela. Sabia da depressão. Sabia da perda do nosso filho. Eu vivi tudo aquilo junto. Mas ultimamente... Ultimamente parecia que ela usava aquilo como escudo. Como desculpa. Como forma de justificar qualquer atitude. E eu estava cansando disso.
— Eu não faria nada.Eu sei que vocês são amigos — Ela respondeu.
— Então ótimo. Só espero que tu tenha certeza do que tá falando.
— Tu acha isso de mim?
— Eu não sei mais o que pensar.
Aquilo fez ela abaixar a cabeça. Mas eu mantive minha posição. Porque uma coisa era certa. Eu não deixaria ninguém mexer com a Heloísa. Ninguém.
— Só tô te avisando.
Ela não respondeu. Nem eu. Porque naquele momento Vitin voltou. Parando ao lado da mesa. Olhou pra mim. Depois pra Angélica. Claramente percebendo o clima.
— Bora?
Levantei.
— Bora.
Peguei as chaves. Olhei pra Angélica.
— Qualquer coisa me avisa.
Ela assentiu. Mas não respondeu. E sinceramente? Eu nem esperei resposta.
Saí do restaurante ao lado do Vitin. Descendo a rua principal do morro. Por alguns minutos ficamos em silêncio. Até que ele resolveu falar.
— Que p***a tá acontecendo?
Passei a mão no rosto.
— Depois eu te explico.
— Tá r**m assim?
— Tá.
Continuamos andando. Até que parei. Olhei diretamente pra ele.
— Preciso que tu faça uma parada pra mim.
— Manda.
— Coloca alguém na cola da Angélica.
Ele franziu a testa.
— Como é?
— Mas discreto.
— Pra quê?
— Só faz.
Ele continuou me encarando. Com aquela cara de quem queria dizer alguma coisa. Mas tava segurando. Revirei os olhos.
— Desembucha logo.
Vitin soltou uma risada.
— Tu tá ligado que aquela parada ali foi pra provocar a Heloísa, né?
Suspirei.
— Tô.
— Porque até eu percebi.
— Eu também percebi.
— Então já era.
Continuamos andando.
— É melhor tu deixar bem claro pra ela com quem ela tá mexendo.
Olhei pra ele.
— Eu sei.
— Porque a Heloísa não é mais aquela menina de quinze anos.
— Eu sei.
— Ela acabou de voltar.
— Eu sei.
— E pode ter certeza que ela não vai aceitar desaforo.
Balancei a cabeça. Porque ele tinha razão. Heloísa sempre foi doce. Mas nunca foi fraca. E agora ela tinha voltado diferente. Mais forte. Mais madura. Mais perigosa também. Principalmente porque agora era a herdeira oficial do comando.
— Eu vou resolver isso. — Falei. Mais pra mim do que pra ele.
— Espero que resolva mesmo.
Continuamos caminhando.
— Por isso que eu quero alguém observando ela.
— Angélica?
— É.
— Tu acha que ela vai fazer alguma coisa?
Demorei alguns segundos pra responder.
— Não sei.
E essa era a pior parte. Porque eu realmente não sabia.
— Pode deixar. — Vitin assentiu. — Vou resolver isso.
— Valeu.
Ele fez um sinal com a cabeça.
— Agora para de pensar com o coração e resolve tua vida.
Soltei uma risada sem humor.
— Tá fácil assim?
— Não.
— Então pronto.
Ele riu. E continuamos subindo o morro. Direto pra boca.
Mas durante todo o caminho minha cabeça continuou no mesmo lugar. Heloísa. Porque alguma coisa tinha acontecido. Alguma coisa tinha deixado ela diferente comigo. E eu ia descobrir. Nem que fosse a última coisa que eu fizesse. Porque depois de três anos sem ela... Eu não tinha intenção nenhuma de perder ela de novo.