Capitulo 10

1264 Words
Vitin narrando  Se tem uma coisa que aprendi cedo nessa vida é que ninguém entra pro crime porque acorda um dia e acha bonito. Pelo menos não foi o meu caso. Tenho vinte e seis anos hoje. Mas quando eu era moleque a realidade era outra. Minha mãe me criou praticamente sozinha. Meu pai sumiu antes mesmo de eu aprender a falar direito. Então era só eu, ela e Deus tentando sobreviver. Só que sobreviver nem sempre era suficiente. Tinha dia que faltava comida. Tinha dia que faltava luz. Tinha dia que faltava tudo. E quando você cresce vendo sua mãe se matar de trabalhar e mesmo assim não conseguir colocar tudo dentro de casa, você começa a entender como o mundo funciona. Ou melhor... Como ele não funciona.  Eu comecei fazendo pequenos corres. Depois vieram outros. E quando percebi já estava dentro. De verdade. Sem volta. Já fui avião. Já fui vapor. Já fui soldado. Já fiz um pouco de tudo. E também já paguei pelos meus erros. Fiquei preso. Alguns anos. Tempo suficiente pra entender que cadeia não recupera ninguém. Só deixa o cara mais revoltado.  Quando saí, voltei pro morro. Foi aí que comecei a trabalhar diretamente com o Tairon. E desde então a gente criou uma amizade forte pra cäralho. Ele é meu patrão. Mas também é meu irmão. Meu parceiro. O tipo de cara que eu sei que pisaria no fogo por mim. E eu faria o mesmo.  Quando toda aquela parada aconteceu com a Heloísa, eu nem estava aqui. Estava preso. Por isso não lembro muito dela. Na verdade, quase nada. Mas ouvi histórias. Muitas histórias. Principalmente vindas do Tairon. Porque aquele filho da püta nunca conseguiu esconder o quanto era apaixonado por ela. Nunca. Todo mundo sabia. O pai dele sabia. O morro inteiro sabia. Só eles dois que pareciam não perceber. Ou fingiam que não percebiam. Durante esses anos todos ouvi ele falar dela várias vezes. Principalmente depois que bebia. Aí füdeu. Porque era só começar a beber que o nome dela aparecia. Às vezes era uma lembrança. Às vezes uma história. Às vezes uma saudade. Mas ela sempre aparecia.  E agora que a mina finalmente voltou... Eu já consigo enxergar a dor de cabeça chegando de longe. Porque agora existe um pequeno problema chamado Angélica. E esse problema não é pequeno pörra nenhuma. Já falei isso pro Tairon. Mais de uma vez. Ele tá num beco sem saída. Porque ama a Heloísa. Sempre amou. Mas construiu uma vida com outra mulher. E por mais complicada que a situação da Angélica seja... Ela existe. E vai continuar existindo até alguém resolver essa merda.  O pior? Todo mundo sabe. Todo mundo. Nunca foi segredo que ele era apaixonado pela Heloísa. Nunca. Por isso eu já imagino o tamanho do estrago quando a Angélica descobrir que ela voltou. Porque uma coisa é ouvir falar. Outra coisa é ver. Ver a mulher andando pelo morro. Ver ela conversando com o Tairon. Ver ele sorrindo daquele jeito que ele não sorri faz anos. Aí o bagulho muda. E conhecendo a Angélica... Tenho quase certeza que ela vai querer arrumar problema.  Só espero que seja inteligente o suficiente pra não fazer isso. Porque se resolver confrontar a Heloísa... Vai acabar se ferrando. E feio. Não porque a Heloísa seja barraqueira. Mas porque ela é a chefe. A verdadeira dona da p***a toda. O comando tá com o Sapão. Mas todo mundo sabe que ele tá segurando as pontas por ela. Na hierarquia, ela tá acima de mim. Acima do Tairon. Acima de todo mundo. Até do próprio Sapão. Então se alguém resolver comprar briga com ela... Vai comprar briga com a facção inteira. E sinceramente? Eu não recomendo.  Estava justamente pensando nisso enquanto resolvia umas paradas na Rua 8. Conferindo movimentação. Falando com os vapores. Organizando algumas questões da boca. Porque se tem uma coisa que não falta nesse lugar é problema. Um atrás do outro. Foi então que ouvi uma gritaria. Daquelas que fazem todo mundo olhar. Levantei a cabeça. E vi duas meninas descendo a rua. Ou melhor... Duas irmãs. Na hora reconheci. As netas da Dona Neuza. A dona do restaurante. A mais velha e a mais nova. E elas estavam brigando feio. Feio mesmo. Uma gritando com a outra. Gesticulando. Chamando atenção da rua inteira. Todo mundo olhando. Todo mundo comentando. Todo mundo tentando entender o que estava acontecendo.  Revirei os olhos. Porque já conheço esse tipo de situação. E normalmente acaba sobrando pra alguém resolver. Conforme elas se aproximavam, a discussão só piorava. A mais velha tentava conversar. A mais nova parecia um pitbull. Não deixava ninguém falar. Fui andando até elas. Mais pra garantir que aquilo não virasse algo pior. Quando cheguei perto, levantei as mãos.  — Tá tudo bem aí?  Nem terminei a frase. A mais nova virou na minha direção.  — Não é da tua conta.  Cäralho. Eu quase comecei a rir. A mina era abusada mesmo. Pequena. Magrinha. Mas com uma marra gigantesca. Olhei pra ela. Depois olhei pra irmã. A mais velha arregalou os olhos na mesma hora. Como quem queria desaparecer. Respirou fundo. Fechou os olhos. E ficou vermelha de vergonha.  — Talita!  — O quê?  — Cala a boca.  A menor revirou os olhos. Murmurou alguma coisa. E saiu andando. Bufando. Resmungando. Igual uma criança emburrada. Fiquei olhando ela ir embora. Depois voltei minha atenção para a irmã. Ela parecia que queria cavar um buraco e entrar dentro.  — Me desculpa. — Falou rapidamente.  — Relaxa.  — Sério.  — Tá tranquilo.  Ela passou a mão no rosto. Claramente cansada.  — Ela não tá num momento fácil.  Assenti.  — Aconteceu alguma coisa?  — Brigou na escola.  — To ligado, essa fase e fodå  Ela me olhou surpresa.  — Mas eu vou conversar com ela e isso não vai mais se repetir.  — Ta suave, Fica na paz que vai dar tudo certo.  Isso arrancou uma risada dela. Mesmo sem vontade.  — É...  — Vai passar.  — Espero que sim.  Ficamos alguns segundos em silêncio. Até que ela respirou fundo novamente.  — Desculpa mesmo.  — Não precisa pedir desculpa.  — Preciso sim.  Balancei a cabeça.  — Tá de boa.  Ela assentiu. Sorriu sem graça. E saiu andando.  Observando ela se afastar, comecei a entender um pouco melhor a situação. A mais velha parecia carregar o mundo inteiro nas costas. Enquanto a mais nova parecia fazer questão de jogar mais peso. Coitada. Não devia ser fácil. Principalmente depois da história dos pais delas. Todo mundo conhecia. Todo mundo comentava. E querendo ou não, perder os dois pais daquele jeito acabaria com qualquer pessoa. Ainda mais uma adolescente. Mas mesmo assim... Aquela Talita parecia ser problema. Problema grande. E pelo jeito dava bastante trabalho tanto pra irmã quanto pra Dona Neuza. Só espero que esse problema não venha parar na nossa mesa. Porque aí a conversa muda. E muito.  Foi então que levantei os olhos e vi uma figura conhecida descendo o morro. Angélica. Na hora balancei a cabeça. Pronto. Mais uma dor de cabeça ambulante. Nem esperei ela chegar perto. Virei as costas. E entrei novamente pra viela. Porque eu tinha coisa mais importante pra resolver. Principalmente agora que o Tairon resolveu inventar um baile gigantesco pro final de semana. E não qualquer baile. Um baile pra comemorar a volta da Heloísa. Ou seja... A receita perfeita pra dar merda.  Mas fazer o quê? O patrão mandou. Então agora o negócio era organizar tudo. Porque quando esse baile acontecer... Tenho a sensação de que muita coisa nesse morro vai começar a mudar.
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