O apartamento de Otávio estava mergulhado numa penumbra calculada. As cortinas grossas bloqueavam a cidade lá fora, e apenas a luz fria de um abajur iluminava parcialmente a sala ampla, deixando sombras longas nas paredes. O silêncio era pesado, interrompido apenas pelo som distante do ar-condicionado e pelo tique-taque lento de um relógio caro sobre a estante. Otávio estava de pé, de costas para a porta, um copo de uísque na mão. O líquido âmbar refletia a luz enquanto ele girava o pulso devagar, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos. O rosto, geralmente controlado, carregava uma tensão diferente — não era só raiva. Era obsessão. A campainha soou. Ele não se virou imediatamente. Deu mais um gole, respirou fundo e só então falou, sem elevar a voz: — Pode entrar.

