O carro de Otávio subiu a rua tranquila de um bairro de classe média como se não pertencesse àquele cenário. O motor rugia, o farol rasgava a tarde, e o homem dentro dele era um contraste brutal com a calmaria das casas alinhadas. Ele estacionou diante da residência de Helena, mãe de Sofia, e saiu quase arremessando a porta para frente. Estava transtornado — não pela esposa, não pela segurança dela, mas pelo fato de ter perdido o controle. Subiu as três escadas da entrada em dois passos e bateu com tanta força na porta que os vizinhos chegaram a olhar pelas janelas. — Helena! Abre essa porta agora! A maçaneta girou segundos depois. Helena apareceu ainda de chinelo, roupa simples de casa, expressão cansada. Assim que viu o genro, engoliu seco. Era o mesmo homem que, anos antes, sua filha

