CAPÍTULO 31

807 Words
Clara Existe um momento exato em que a esperança começa a morrer. Não é um impacto imediato. Não é um grito, nem uma revelação explosiva. É algo silencioso, lento, quase imperceptível , como uma rachadura fina no vidro, que se espalha até tudo estilhaçar de vez. Esse momento acontece quando eu percebo que Lucas não vai voltar. Não de verdade. Não inteiro. Desde o encontro naquela rua escura, algo mudou dentro de mim. Não foi só o medo. Foi a certeza de que existe uma parte da vida dele à qual eu nunca terei acesso. Uma parte construída sobre segredos, escolhas sujas e silêncios que machucam mais do que qualquer palavra dura. Tento seguir a rotina. Trabalho, compromissos, conversas vazias. Mas tudo parece falso. Como se eu estivesse atuando numa vida que já não reconheço como minha. As pessoas falam comigo e eu respondo no automático, enquanto minha mente retorna, obsessivamente, às mesmas perguntas. Quantas mentiras são necessárias para destruir um amor? E quantas verdades escondidas ele consegue suportar antes de morrer sufocado? Meu celular permanece mudo o dia inteiro. Parte de mim espera uma mensagem. Outra parte teme que ela venha. Porque o silêncio dói, mas a confirmação de que ele escolheu desaparecer dói mais. À noite, não consigo ficar em casa. Saio para caminhar sem rumo, deixando que a cidade me engula. As luzes dos postes parecem frias, distantes. Casais passam por mim de mãos dadas, rindo, vivendo coisas simples que agora parecem pertencer a outro universo. Penso em Lucas. No jeito como ele me olhava quando achava que eu não estava vendo. Na forma como sempre mantinha o corpo tenso, como se estivesse pronto para lutar ou fugir a qualquer momento. Eu achava que era trauma. Talvez fosse culpa. Talvez fosse sangue. Paro de repente. A palavra surge na minha mente como um veneno lento. Sangue. Mensagens anônimas. Avisos. Olhares desviados. Pessoas me dizendo para ficar longe como se eu estivesse contaminada por algo perigoso. E o pior de tudo, ele nunca negou. Lucas nunca disse “isso não é verdade”. Ele apenas disse que eu não suportaria saber. Sinto os olhos arderem. Encosto-me na grade fria de uma praça quase vazia e deixo o ar escapar dos pulmões em um suspiro trêmulo. Não quero chorar. Chorar seria admitir que ainda espero algo dele. Mas é impossível não admitir. Porque eu o amo. E amar alguém que se esconde atrás de mentiras é como tentar respirar debaixo d’água. No começo, você acredita que aguenta. Depois, começa a afundar. Meu celular vibra. Meu coração dispara antes mesmo de eu olhar. Lucas. O nome na tela pesa mais do que qualquer ameaça anônima. Atendo. — Clara — a voz dele vem baixa, controlada demais. — Onde você está? A pergunta me atravessa como uma lâmina. Não é “como você está”. Não é “me perdoa”. É controle disfarçado de preocupação. — Isso importa agora? — respondo, sentindo a garganta apertar. Há um silêncio breve do outro lado. Um silêncio que eu já aprendi a temer. — Você não devia estar sozinha — ele diz. Fecho os olhos. — Engraçado — respondo. — Porque você foi embora. — Eu fiz o que precisava ser feito. — Não — digo, com firmeza. — Você fez o que foi mais fácil pra você. As palavras parecem atingi-lo. Consigo sentir, mesmo à distância. — Clara, por favor— — Não — interrompo. Minha voz treme, mas não recua. — Amor não sobrevive a mentiras, Lucas. E o que existe entre nós está apodrecendo no silêncio. Ele respira fundo. Ouço. Ele sempre faz isso quando está perdendo o controle. — Se eu te contar a verdade, você vai se afastar — ele diz. — Eu já estou me afastando — respondo. — Porque amar alguém que não confia em mim o suficiente para ser honesto, não é amor. É prisão. O silêncio que se segue é diferente. Mais pesado. Mais definitivo. — Eu só queria te proteger — ele diz, por fim. Abro os olhos, encarando a noite à minha frente. — Então devia ter confiado em mim — respondo. — Porque agora, o que está me machucando não é o perigo lá fora. É você. Desligo antes que ele diga qualquer outra coisa. Minhas mãos tremem. O peito dói. Mas, estranhamente, há uma clareza c***l naquele momento. Uma dor limpa. Honesta. Lucas escolheu o segredo. Eu escolho não me perder tentando decifrá-lo. Se o amor que sentimos não sobrevive à verdade, então talvez ele nunca tenha sido amor o suficiente. E enquanto caminho para longe, com o coração em pedaços, uma certeza se instala, fria e inevitável. Algumas mentiras não matam só a confiança. Matam tudo o que tocam. E eu não sei se o que restou de nós vai sobreviver a isso.
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