Lucas
A raiva não chega de uma vez.
Ela se infiltra.
Começa no peito, quente, pulsando, e desce pelos braços, como se cada músculo estivesse implorando por violência.
Não contra o mundo.
Contra mim mesmo.
Porque Clara tem razão.
E isso é o que mais dói.
Dirijo sem saber exatamente para onde vou.
As ruas passam rápido demais, as luzes borradas pelo ódio que martela dentro da minha cabeça.
O celular ainda pesa na minha mão, como se o eco da voz dela estivesse preso ali.
Amor não sobrevive a mentiras.
Ela não faz ideia do quanto essas palavras me destruíram.
Bato o volante com força, uma vez, duas.
O carro freia bruscamente quando percebo que estou perto demais da calçada.
Respiro fundo, tentando recuperar o controle , o mesmo controle que sempre me salvou.
Mas Clara, ela sempre foi o meu ponto fraco.
Desde o primeiro dia.
Encosto o carro em um lugar escuro, desligo o motor e fico ali, imóvel.
O silêncio é ensurdecedor.
A imagem dela encostada naquela grade fria não sai da minha mente.
O olhar ferido.
A voz firme tentando esconder o quanto estava machucada.
Eu fiz isso.
Passei anos sobrevivendo à base de decisões sujas, escolhas erradas e sangue que nunca saiu das minhas mãos.
Fiz tudo para manter as pessoas longe do caos que criei.
Tudo para protegê-la.
E ainda assim, foi comigo que ela mais se machucou.
Fecho os olhos.
O problema não é só o que eu fiz no passado.
É o que Clara desperta em mim agora.
Ela me tira do controle.
A raiva cresce de novo, misturada com algo ainda mais perigoso.
É o Desejo.
Um desejo bruto, quase violento, que aperta meu corpo inteiro só de pensar nela.
No jeito como me enfrenta.
Na forma como não abaixa a cabeça, mesmo sabendo que eu posso destruir tudo.
Especialmente por isso.
Arranco o celular do bolso.
Abro a localização que nunca deletei.
Sei exatamente onde ela está.
Sempre soube.
Parte de mim odeia isso, A outra precisa.
Ligo o carro novamente.
Dessa vez, não penso.
Apenas vou.
Quando chego, a vejo de longe.
Clara caminha devagar pela calçada quase vazia, os braços cruzados contra o próprio corpo.
Parece frágil, Pequena, Minha.
A palavra surge automática, instintiva e isso me assusta.
Estaciono e desço antes que o bom senso me impeça.
Meus passos são rápidos, decididos.
Ela percebe minha presença no último segundo, virando-se abruptamente.
Os olhos dela se arregalam.
— Eu disse tudo o que tinha pra dizer — ela começa, defensiva.
Não respondo.
Apenas seguro o braço dela e a puxo para um beco estreito, longe da rua.
Não é delicado.
Não é gentil.
É necessidade.
— Lucas! — ela protesta, mas não grita.
Encosto o corpo no dela, prendendo-a contra a parede fria.
Meu rosto fica a centímetros do dela.
Posso sentir sua respiração acelerada.
O cheiro dela invade meus sentidos e faz algo dentro de mim se romper de vez.
— Você não pode simplesmente dizer aquilo e ir embora — digo, a voz baixa, carregada de raiva.
— Não depois de tudo.
— Depois de tudo o quê? — ela rebate.
— Das mentiras? Do silêncio? Do controle?
A raiva ferve.
— Você não faz ideia do que eu tive que fazer pra manter você fora disso — rosno.
— Então me solta — ela diz.
— Se eu sou só mais alguém que você precisa controlar.
A palavra controlar me atinge como um soco.
Aperto os braços ao lado do corpo dela, prendendo-a sem tocá-la diretamente.
Estou a um fio de perder tudo.
— Você acha que eu estou aqui porque quero te machucar? — pergunto, a voz rouca.
— Eu estou aqui porque cada segundo longe de você me enlouquece.
Os olhos dela escurecem.
— Isso não é amor, Lucas — ela sussurra.
Dou uma risada sem humor.
— Não. — Aproximo o rosto ainda mais.
— Isso é desejo. E ele não liga para mentiras ou verdades.
Vejo o conflito nos olhos dela.
O medo lutando contra algo que arde tão forte quanto em mim.
Clara engole em seco, o peito subindo e descendo rápido.
— Não faz isso — ela murmura.
Mas o corpo dela não recua.
E eu perco.
Seguro o rosto dela com as duas mãos e a beijo.
Não é um beijo doce.
É bruto, intenso, cheio de raiva, frustração e desejo acumulado.
Ela resiste por um segundo , apenas um antes de corresponder, os dedos se fechando na minha jaqueta como se estivesse se segurando para não cair.
O beijo é fogo.
Raiva vira fome.
Culpa vira necessidade.
Cada segundo longe dela explode entre nós.
Minha boca desce para o pescoço dela, sentindo o arrepio que percorre seu corpo. Clara solta um suspiro baixo, traidor.
— Você me odeia — ela sussurra.
— Não — respondo contra a pele dela.
— Eu me odeio. Por te querer desse jeito.
Minhas mãos deslizam pela cintura dela, firmes, possessivas.
Sei que devia parar.
Sei que isso só complica tudo.
Mas o desejo já venceu a razão.
Ela inclina o rosto, oferecendo mais, e isso é minha sentença.
Porque naquele momento, entre a raiva e o desejo, eu entendo a verdade mais perigosa de todas.
Eu posso mentir para o mundo inteiro.
Mas não consigo mentir para o meu corpo quando se trata dela.
E Clara, ela ainda é minha maior fraqueza.
Mesmo que isso nos destrua.