CAPÍTULO 32

907 Words
Lucas A raiva não chega de uma vez. Ela se infiltra. Começa no peito, quente, pulsando, e desce pelos braços, como se cada músculo estivesse implorando por violência. Não contra o mundo. Contra mim mesmo. Porque Clara tem razão. E isso é o que mais dói. Dirijo sem saber exatamente para onde vou. As ruas passam rápido demais, as luzes borradas pelo ódio que martela dentro da minha cabeça. O celular ainda pesa na minha mão, como se o eco da voz dela estivesse preso ali. Amor não sobrevive a mentiras. Ela não faz ideia do quanto essas palavras me destruíram. Bato o volante com força, uma vez, duas. O carro freia bruscamente quando percebo que estou perto demais da calçada. Respiro fundo, tentando recuperar o controle , o mesmo controle que sempre me salvou. Mas Clara, ela sempre foi o meu ponto fraco. Desde o primeiro dia. Encosto o carro em um lugar escuro, desligo o motor e fico ali, imóvel. O silêncio é ensurdecedor. A imagem dela encostada naquela grade fria não sai da minha mente. O olhar ferido. A voz firme tentando esconder o quanto estava machucada. Eu fiz isso. Passei anos sobrevivendo à base de decisões sujas, escolhas erradas e sangue que nunca saiu das minhas mãos. Fiz tudo para manter as pessoas longe do caos que criei. Tudo para protegê-la. E ainda assim, foi comigo que ela mais se machucou. Fecho os olhos. O problema não é só o que eu fiz no passado. É o que Clara desperta em mim agora. Ela me tira do controle. A raiva cresce de novo, misturada com algo ainda mais perigoso. É o Desejo. Um desejo bruto, quase violento, que aperta meu corpo inteiro só de pensar nela. No jeito como me enfrenta. Na forma como não abaixa a cabeça, mesmo sabendo que eu posso destruir tudo. Especialmente por isso. Arranco o celular do bolso. Abro a localização que nunca deletei. Sei exatamente onde ela está. Sempre soube. Parte de mim odeia isso, A outra precisa. Ligo o carro novamente. Dessa vez, não penso. Apenas vou. Quando chego, a vejo de longe. Clara caminha devagar pela calçada quase vazia, os braços cruzados contra o próprio corpo. Parece frágil, Pequena, Minha. A palavra surge automática, instintiva e isso me assusta. Estaciono e desço antes que o bom senso me impeça. Meus passos são rápidos, decididos. Ela percebe minha presença no último segundo, virando-se abruptamente. Os olhos dela se arregalam. — Eu disse tudo o que tinha pra dizer — ela começa, defensiva. Não respondo. Apenas seguro o braço dela e a puxo para um beco estreito, longe da rua. Não é delicado. Não é gentil. É necessidade. — Lucas! — ela protesta, mas não grita. Encosto o corpo no dela, prendendo-a contra a parede fria. Meu rosto fica a centímetros do dela. Posso sentir sua respiração acelerada. O cheiro dela invade meus sentidos e faz algo dentro de mim se romper de vez. — Você não pode simplesmente dizer aquilo e ir embora — digo, a voz baixa, carregada de raiva. — Não depois de tudo. — Depois de tudo o quê? — ela rebate. — Das mentiras? Do silêncio? Do controle? A raiva ferve. — Você não faz ideia do que eu tive que fazer pra manter você fora disso — rosno. — Então me solta — ela diz. — Se eu sou só mais alguém que você precisa controlar. A palavra controlar me atinge como um soco. Aperto os braços ao lado do corpo dela, prendendo-a sem tocá-la diretamente. Estou a um fio de perder tudo. — Você acha que eu estou aqui porque quero te machucar? — pergunto, a voz rouca. — Eu estou aqui porque cada segundo longe de você me enlouquece. Os olhos dela escurecem. — Isso não é amor, Lucas — ela sussurra. Dou uma risada sem humor. — Não. — Aproximo o rosto ainda mais. — Isso é desejo. E ele não liga para mentiras ou verdades. Vejo o conflito nos olhos dela. O medo lutando contra algo que arde tão forte quanto em mim. Clara engole em seco, o peito subindo e descendo rápido. — Não faz isso — ela murmura. Mas o corpo dela não recua. E eu perco. Seguro o rosto dela com as duas mãos e a beijo. Não é um beijo doce. É bruto, intenso, cheio de raiva, frustração e desejo acumulado. Ela resiste por um segundo , apenas um antes de corresponder, os dedos se fechando na minha jaqueta como se estivesse se segurando para não cair. O beijo é fogo. Raiva vira fome. Culpa vira necessidade. Cada segundo longe dela explode entre nós. Minha boca desce para o pescoço dela, sentindo o arrepio que percorre seu corpo. Clara solta um suspiro baixo, traidor. — Você me odeia — ela sussurra. — Não — respondo contra a pele dela. — Eu me odeio. Por te querer desse jeito. Minhas mãos deslizam pela cintura dela, firmes, possessivas. Sei que devia parar. Sei que isso só complica tudo. Mas o desejo já venceu a razão. Ela inclina o rosto, oferecendo mais, e isso é minha sentença. Porque naquele momento, entre a raiva e o desejo, eu entendo a verdade mais perigosa de todas. Eu posso mentir para o mundo inteiro. Mas não consigo mentir para o meu corpo quando se trata dela. E Clara, ela ainda é minha maior fraqueza. Mesmo que isso nos destrua.
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