CAPÍTULO 33

696 Words
Lucas O escuro sempre foi meu refúgio. É nele que as coisas ficam mais simples. Onde não preciso explicar cicatrizes, nem justificar escolhas. Onde ninguém vê o que eu me tornei. Mas com Clara nem a escuridão me esconde. Estamos dentro do carro, estacionado em uma rua quase deserta. O motor desligado. Apenas o som da nossa respiração pesada preenchendo o silêncio depois do beijo que quase nos destruiu. Quase. Afastei-me antes que fosse longe demais. Não por falta de vontade, mas porque, se eu cruzasse aquela linha, não haveria retorno. E eu ainda precisava dizer coisas que não cabem entre beijos. Clara encara o para-brisa, os braços cruzados, tentando recompor algo dentro de si. O reflexo do rosto dela no vidro me corta mais do que qualquer ameaça do passado. — Você sempre faz isso — ela diz, sem me olhar. — Chega, bagunça tudo e depois levanta muros. Fecho os olhos por um instante. — Porque se eu não levantar, tudo desmorona — respondo. Ela finalmente me encara. Os olhos estão brilhando, mas não há lágrimas. Clara nunca chora quando está mais ferida. Esse sempre foi o sinal de perigo. — Você me quer no escuro, Lucas — ela diz. — Mas exige que eu confie em você às cegas. As palavras são precisas. Cruéis. Verdadeiras. Passo a mão pelo rosto, sentindo o peso de cada promessa não cumprida, cada silêncio imposto. Já enfrentei homens armados sem hesitar. Já fiz coisas que me perseguem à noite. Mas nada me paralisa como aquela mulher ao meu lado. — Eu não posso te contar tudo — digo, finalmente. — Não ainda. — Então não me faça promessas — ela rebate. — Porque eu não sou mais aquela garota que aceita migalhas. A firmeza na voz dela me atinge como um golpe baixo. Porque eu sei. Eu vi Clara crescer. Vi a menina se tornar mulher. E talvez o maior erro da minha vida tenha sido achar que poderia protegê-la decidindo por ela. Inclino-me levemente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Quando eu te disse que você precisava ficar longe não era jogo — confesso. — Era medo. Ela franze o cenho. — Medo de quê? Engulo em seco. — De te perder do jeito mais definitivo possível. O silêncio entre nós muda. Não é mais tensão. É algo mais denso. Mais real. — Você já está me perdendo — ela diz, a voz mais baixa agora. — Cada vez que escolhe o silêncio. Viro-me para ela. Seguro o rosto dela com cuidado dessa vez, como se fosse algo frágil demais para minhas mãos sujas. — Me escuta, Clara — digo. — Eu não prometo ser fácil. Nem limpo. Nem seguro. Mas prometo uma coisa aproximo a testa da dela. — Enquanto você estiver comigo, ninguém toca em você. Ninguém decide por você. Ninguém te usa para me atingir. Ela fecha os olhos, respirando fundo. — Isso não é amor — sussurra. — É guerra. — Talvez seja — admito. — Mas é a única coisa que eu sei lutar. Ela abre os olhos e me encara de um jeito que me desmonta. Não há submissão ali. Há escolha. E isso muda tudo. — Então para de me empurrar para fora — ela diz. — Ou me perde de vez. As palavras ficam suspensas entre nós, carregadas de uma verdade inevitável. Aproximo-me e a puxo para meus braços, não com força, mas com urgência. Clara hesita por um segundo antes de se encaixar contra mim, o rosto escondido no meu pescoço. Fecho os olhos, sentindo o peso dela, o calor, a realidade. Ali, no escuro daquele carro, faço uma promessa silenciosa , daquelas que não se dizem em voz alta porque, se forem quebradas, condenam quem as fez. Eu vou resolver tudo. Vou eliminar cada ameaça. Vou afundar ainda mais, se for preciso. Mas não vou deixá-la ir. Não porque eu a possuo. Mas porque, pela primeira vez na minha vida, encontrei algo que vale mais do que sobreviver. No escuro, com Clara nos meus braços, eu entendo, Algumas promessas não são feitas para salvar alguém. São feitas para nos condenar juntos. E eu aceito essa condenação.
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